Minimizar: um verbo com benefícios

  • Clô Azevedo
  • FOTOGRAFIA: Oliver Sjöström

Já percebeu o quanto uma casa pode revelar não somente o volume das coisas que possuímos, como também o tamanho de nossas intenções com a vida?

 

Eu gostava de guardar coisas. Objetos, móveis, roupas, pequenos souvenirs. Coisas que sobravam, ou que ninguém queria mais, entretanto poderiam fazer algum sentido para mim. Vinham de todos os lugares. Dos cenários dos meus sets de filmagem, dos projetos residenciais que desenvolvia, viagens, ou algo que eu via em alguma loja e achava que não podia viver sem.

Também me tornei alvo dos familiares, e amigos. Quando achavam que algum item já estava sem utilidade ou já caído de moda, era para mim que enviavam. Fazia minha curadoria e encaixotava no meu acervo. Confesso que eu era feliz assim. Eu tinha uma edícula na casa da minha mãe onde guardava tudo o que eu ganhava. Caixas e mais caixas, porque claro, “um dia poderia precisar de algo armazenado ali”.

Assim, o tempo passou. Um dia, realmente precisei de algo que deveria estar dentro de alguma daquelas caixas. E na minha busca implacável em achar o que procurava, me dei conta da quantidade de coisas que não mais precisava e nem lembrava que existiam. Estavam ali. Por anos.

Tive um estalo na mente. Algo que já vinha chamando a minha atenção. Precisava de espaço. Interno talvez. Entendi que a saída seria começar a esvaziar o externo. Ali eu daria inicio ao meu novo objetivo de vida.

Benefícios práticos

Foram alguns bazares e várias doações. Hoje em dia ainda restam algumas coisas, mas o movimento paralelo de abrir esse espaço dentro de mim tornou-se uma intenção de vida. Não há mais como voltar atrás. Daquelas coisas boas que a gente experimenta e não quer mais largar. Virou propósito. O apego que tinha pelo material passou a não me controlar mais.

Para mim não restam dúvidas sobre desapegar ser uma coisa boa. Em uma situação ideal, todos nós deveríamos agir assim. Transformar em ação o verbo desapegar. Mas infelizmente são poucos que acreditam nessa possibilidade.

Entenda que movimentos de diminuição se entrelaçam perfeitamente com outras grandes intenções humanas como responsabilidade, organização, produtividade, foco, limpeza, saúde, beleza e ordem. Além de poder dedicar mais tempo, dinheiro e energia às pessoas e aos projetos que nos atraem. Sim é possível!

 

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Intenção de vida

Minimizar é uma coisa, porém manter-se nessa situação é outra completamente diferente. Queremos manter esses intuitos? Existe um caminho. Criando rotinas. E práticas. Constantes e diárias de revisão do que não nos serve mais. Pode parecer pesado à primeira vista, porém depois de já ter feito sua diminuição não será difícil manter. Confie em mim. Manter é muito menos trabalhoso do que começar toda hora do zero para livrar a casa da desorganização e da desordem. Interna e externa.

Quando a gente intenciona algo na vida supostamente deveríamos abrir uma rota imaginária, e seguir. Sem arrependimentos. Sem medo do que virá. Porque às vezes são outros caminhos que se abrem e chegam de surpresa, e não exatamente aquele que estávamos procurando. Não dá pra saber.

Quando comecei tudo isso não fazia ideia das mudanças que estes pensamentos trariam a minha vida. O objetivo nunca foi somente ter menos coisas, e sim aliviar o peso que estava sentindo em minha vida para que eu pudesse realizar tudo o que ainda gostaria de fazer.

Até os dias de hoje, à medida que tudo vai sendo retirado, enxergo cada vez mais quem sou. Essa é a mágica. Nos reconhecer para que consigamos viver somente com o necessário.

Sem se importar com o ponto final, nos mantemos ocupados apreciando a paisagem ao redor.

 

Leia todos os textos da coluna de Clô Azevedo em Vida Simples.


CLÔ AZEVEDO (@cloazevedo_designafetivo) é arquiteta e acredita que a casa é uma extensão das vidas que a habitam. Desenvolve projetos de design de interiores afetivos para conectar pessoas com suas histórias, inspirando a reinventar seu próprio espaço, morar bem e viver melhor. Seu site é designafetivo.com.

 

*Os textos de colunistas não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.

 


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