Menos cancelamento, mais sawabona & mais shikoba

  • Ana Raia

O que a cultura ancestral de uma tribo africana tem a ensinar para nós, seres tãodesenvolvidos” e tecnológicos?

 

Você já ouviu falar na “cultura do cancelamento” ? Cancelamento é o método da vez no universo das mídias sociais, usado contra pessoas de grande popularidade virtual no momento em que eles erram, escorregam, fazem algo inaceitável para seus seguidores ou para a sociedade. É um ato de vingança contemporânea em que quem ama e vive de likes e views recebe o oposto quando erra, ou seja, o ostracismo. No cancelamento, o erro é, portanto, irreparável, destrói a reputação de quem o cometeu e também a chance de ser reparado ou gerar uma transformação positiva.

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Veja um exemplo diferente: existe uma tribo na África do Sul que possui um costume ancestral grandioso. Quando um integrante da tribo erra, se engana, prejudica alguém, é colocado no centro de uma roda na sua comunidade. Por dois dias, seus iguais o relembram tudo de bom que ele, o que cometeu o erro, já fez. É um ritual regenerativo aonde as pessoas da tribo dizem para ele Sawabona que significa: “eu respeito você, eu valorizo você, você é importante para mim”. E em resposta, o equivocado responde Shikoba, que significa “então, eu existo para ti.” Nesse lugar de reconhecimento e aceitação mútua, o perdão acontece seguido da transformação.

A cura e a possibilidade de mudança

Essa tribo acredita que todo ser humano é bom por natureza, mas por vezes, diante de alguns eventos externos ou pela suas crenças limitantes, perde a conexão com a sua essência e com o amor. Essa prática vem na contramão de tudo o que vem sendo praticado por aqui. Serve para relembrar a pessoa de quem realmente é através do acolhimento e da empatia. Dentro dessa filosofia, enxergam que erros, enganos, crueldades são cometidos não para machucar o outro, mas como um pedido de socorro, um pedido urgente de ajuda para esse retorno à essência e ao amor.

Veja que a intenção do ritual não é julgar ou condenar, mas potencializar a mágica da cura e a possibilidade da mudança. Eu considero essa prática um dos mais bonitos atos de perdão e solidariedade porque enfatiza o que o ser humano precisa desde o primeiro sopro de vida: pertencimento, acolhimento, amor, aceitação, se sentir visto para permanecer no caminho da verdade e da evolução.

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Todos nós desejamos nos sentir especiais, amados, e nessa busca insana de atenção e aprovação, muitas vezes erramos no caminho. Cada um de nós enxerga o mundo através de suas lentes individuais, pelas suas crenças que se tornam verdades absolutas, que muitas vezes levam a cegueira e a intolerância à pontos-de vistas divergentes. Nesse caminho sem empatia e abertura para o novo, conflitos, brigas, guerras surgem e muito sofrimento é sentido.

Mesmo assim, a força maravilhosa que nos criou nos fez com um plano B. Somos capazes de reconhecer nossos erros e mudar. Existe sempre a possibilidade do arrependimento, da responsabilidade, do perdão. Antes do mundo das redes sociais, quem nos dizia que estávamos errados eram nossos conhecidos, pais, amigos, professores… O “cancelamento” do afeto era temporário e praticado com mais cuidado e respeito.

Precisamos ouvir

Hoje o cancelamento é exponencial, feito por milhares de pessoas desconhecidas. Na era tecnológica somos monitorados, avaliados e julgados 24 horas. Parece que somos personagens daquele filme do Jim Carrey, o “Show de Trumam”, sabe? Cada frase, cada palavra dita ou escrita, cada ação passa por uma espécie de tribunal sem recesso, raivoso, reativo e intransigente.

Vale dizer que o caminho do cancelamento tem seus pontos positivos, traz luz para ações inaceitáveis, como são as de preconceito e abre possibilidades de mudança. Contudo, nem sempre gera as transformações que tanto desejamos no mundo real pois não há diálogo. Não há troca nem conexão. O diálogo — quando sincero e seguido de ação — é o meio mais efetivo para a mudança.

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Cancelar por meio da raiva e do ódio é não ouvir, é optar por não ver. Cancelar é perder a oportunidade de discutir para transformar. O que queremos é uma transformação social positiva, não é?  Um mundo mais igual, mais inclusivo, mais empático? Para isso é preciso falar sim, mas também ouvir, se conectar, sentir e ter coragem para mudar.

Shikoba e Sawabona

A filosofia dessa tribo africana nos convida a refletir sobre como escolhemos comunicar nossa raiva, frustrações e decepções, mesmo diante de comportamentos desumanos como racismo, homofobia e preconceito social. Somos seres humanos em construção. Vamos errar mas temos a capacidade de corrigir. Temos consciência, que nos dá a chance de perceber quando erramos e reparar.

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Fica o convite para refletir sobre a efetividade da cultura do cancelamento e sobre a ideia de que a busca de nossos maiores anseios (amor e pertencimento) pode nos levar a novas formas de ver e agir. Acredite: temos a possibilidade de construir um mundo melhor. E esse mundo inclui todos e tudo que nele existem. Então, mais uma vez, Shikoba e Sawabona, para você, para mim, para eles, para todxs nós.

 

Ana Raia trabalha há mais de 15 anos com desenvolvimento humano. Ministra cursos particulares e coletivos, palestras e workshops. É estudiosa das ciências humanas e é tão humana quanto você. Seu Instagram é @anaraia. Escreve neste espaço mensalmente, na terceira terça-feira do mês.

 

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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