Necessário desintoxicar as masculinidades

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  • FOTOGRAFIA: Hannah Busing | Unsplash

O termo “masculinidade tóxica” foi nominado pelo psicólogo Shepherd Bliss que identificou pressões sociais para que os homens fossem violentos, competitivos, independentes e não demonstrassem sentimentos.

Quando falamos que algo é tóxico, queremos dizer que produz efeitos nocivos, danosos. A etimologia da palavra remonta ao termo toxicum em latim ou tóxikon em grego antigo, que se referem ao veneno que um antigo povo europeu passava nas flechas, tornando seu ataque mortal aos inimigos. Há alguns anos essa palavra tem cada vez mais aparecido junto com “masculinidade”.

Em 2018, o dicionário Oxford, um dos principais da língua inglesa, elegeu “tóxico” como a palavra do ano, justificando que houve um aumento de 45% no número de pesquisas. O mais interessante é que depois de “química”, a palavra que mais a acompanhava nas pesquisas era “masculinidade”.

O que talvez pouca gente saiba é que o termo “masculinidade tóxica” foi cunhado pela primeira vez por um homem, Shepherd Bliss, um psicólogo estadounidense que fazia parte de um movimento de homens na década de 1980.

Masculinidade tóxica

Ele identificou pressões sociais para que os homens fossem violentos, competitivos, independentes e não demonstrassem sentimentos. Segundo suas conclusões, essas pressões resultavam em uma forma tóxica de masculinidade, diferente de uma forma mais real ou profunda que os homens teriam deixado de acessar nos tempos modernos.

Hoje o termo não tem sido apenas utilizado nas universidades e discussões acadêmicas, ele ganhou as mídias e redes sociais. É empregado para definir um conjunto de padrões de comportamento, estereótipos, esperados de indivíduos do sexo masculino.

Portanto, é importante logo de cara afastar qualquer noção de que a expressão “masculinidade tóxica” implica em dizer que todos os homens são tóxicos ou que a masculinidade em si é tóxica. O que se busca com o termo é identificar os estereótipos e expectativas de comportamentos que são atribuídos a nós homens e que são tóxicos, pois produzem efeitos nocivos para a sociedade em geral e para nós mesmos.

Quais são os comportamentos tóxicos?

A expressão é forte e ninguém quer ser rotulado de tóxico. Portanto, devemos separar os padrões e comportamentos das pessoas que os praticam e reproduzem. Assim, não nos identificamos e nem estigmatizamos alguém como tóxico. Mas quais seriam esses comportamentos esperados dos homens que podem causar danos?

Nós já abordamos vários deles aqui nos textos anteriores desta coluna, como não chorar, não demonstrar vulnerabilidade emocional, agir de maneira agressiva e competitiva, buscar ser o garanhão e conquistador, não depender de ninguém, estar sempre acima das mulheres, ser sempre o provedor e protetor, não cultivar características consideradas femininas que o tornariam inferior (não ser “mulherzinha”). Algumas vezes, o dano não está no comportamento em si, mas na pressão de ter que desempenhar tal comportamento ou na forma como é desempenhado, como no caso de paquerar ou de ser o provedor.

Abandonar essas expectativas não faz de ninguém menos homem

Na minha trajetória, a grande libertação ocorreu quando eu reconheci que, se eu não seguisse esses padrões de comportamento, eu não seria menos homem. Sentia pressão de amigos e muitas vezes de familiares para que eu me comportasse de determinada maneira, como, por exemplo, buscar conquistar mulheres e não compartilhar meus desafios pessoais.

Mas, além dessa pressão, era como se de alguma forma tivesse um juiz dentro da minha cabeça que avaliava as minhas vontades e comportamentos e me dizia se eu estava dentro das quatro linhas do que era ser homem. Quando eu cruzava a linha, sentia um desconforto, uma vergonha, e uma necessidade de rapidamente corrigir e me ajustar.

masculinidades

Crédito: Ashkan Forouzani | Unsplash

Mudança: um processo

Para mim foi transformador quando eu expus as minhas angústias mais pessoais a uma namorada e ela escutou, me acolheu, clareou a situação e me ajudou a seguir em frente.

Também me recordo de quando passei a morar sozinho e não ter que dar satisfação de onde estava indo. Somente então, eu tive coragem de seguir uma vontade antiga e me matricular em um curso de dança de salão e, para minha surpresa e alegria, havia outros homens no curso.

Aos poucos, fui percebendo que dava menos atenção ao juiz e que me libertar de padrões que eu tinha aprendido não me tornavam menos homem. Pelo contrário, eu fui desenvolvendo mais habilidades, maior inteligência emocional e me tornando um ser humano melhor.

Participar de rodas de conversa com outros homens também me permitiu acompanhar alguns processos de transformação. Lembro da dificuldade que alguns sentiam de compartilhar sobre desemprego e dificuldades financeiras. Eles carregavam uma enorme carga por não poder manter o padrão de vida, passar a ganhar menos do que a esposa ou não poder mais pagar a escola dos filhos.

Mas, ao receberem o apoio de outros homens e reconhecerem que desempenhar ou não o papel de provedor não era o que os tornava homens, possibilitou que lidassem de forma mais sábia com a situação e permitiu que buscassem ajuda.

É necessário identificar o problema e também imaginar a solução

O processo para alterarmos nossos comportamentos como homens não é fácil. À medida que ficam cada vez mais evidentes os danos causados por esses padrões que são esperados dos homens, muitos não têm sabido como agir adequadamente. Alguns decidem se apegar ainda mais a papéis e valores de épocas antigas numa tentativa de resgatar uma ideia de homem ancestral. Outros podem se sentir perdidos e ficar paralisados sem saber como agir depois que tomam consciência do problema.

Bell Hooks, uma importante autora, professora e ativista estadounidense, defende há bastante tempo a necessidade de não apenas combater os comportamentos danosos dos homens, mas também de apresentar outras formas mais saudáveis de como expressar a masculinidade. Ou seja, precisamos identificar o problema e apresentar de forma criativa a solução.

Cultivar outras masculinidades

Acredito que essa solução deve estar alinhada com a nossa sociedade contemporânea. Podemos nos inspirar em momentos pretéritos que não devem ser inteiramente negados. Mas penso que precisamos de formas de expressar a masculinidade que estejam alinhadas com os desafios e os conhecimentos que temos hoje.

Cultivar uma visão de masculinidade que se fundamente no meu amor próprio e no cultivo do valor de cada ser foi fundamental para que eu abandonasse comportamentos que causavam danos ao meu redor. O meu valor pessoal deixa de estar baseado na dominação de outras pessoas, mulheres ou não, e do ambiente. E, sim, numa identidade estruturada em valores virtuosos.

Isso exige coragem e apoio. Como homem, posso escutar experiências de outras pessoas, aprender e mudar meus comportamentos, servindo eu mesmo de referência para os demais homens e para as crianças e jovens. Também posso conversar com amigos e me juntar a outros homens para pensarmos juntos em formas de como podemos contribuir para que associação da masculinidade com o que é tóxico seja coisa do passado.

LUIZ EDUARDO ALCANTARA atua na área da justiça, é um dos guardiões do Brotherhood Brasil e um curioso sobre os papéis dos homens na sociedade.

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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