Há males que vêm para bem

  • Reinaldo Polito
  • FOTOGRAFIA: Justin Luebke | Unsplash

Há situações que aparecem como muito negativas, mas que acabam por se mostrar providenciais.

Você já deve ter ouvido a frase: quando uma porta se fecha, Deus abre duas. Pode parecer conversa de Poliana, mas acredito muito nessa filosofia de vida. Presenciei situações que indicavam não haver saídas, mas que acabaram por se transformar em oportunidades para conquistas inesperadas.

Quantas vezes vi pessoas desalentadas ao perderem um emprego que lhes proporcionava tanta segurança e sentimento de realização. Pessoas completamente sem rumo, sem a mínima ideia de onde se agarrar e — por não terem escolha — pegaram o dinheiro da indenização e resolveram montar um negócio próprio. Em pouco tempo descobriram que possuíam excepcional competência empreendedora e se projetaram como notáveis empresários.

Se o destino não tivesse dado um empurrãozinho, talvez continuassem a vida toda fazendo o mesmo trabalho, sem a chance de encontrar um sentido de realização ainda mais completo e gratificante.

Relações

Não foram poucos os casos em que observei de perto a tristeza de amigos que depois de muitos anos de relacionamento exemplar se separaram. Passado o impacto daquela desunião, encontraram um novo amor que tornou a sua vida ainda mais feliz.

Quando estamos no meio do tsunami, imaginamos que não haverá frestas que nos mostrem novas oportunidades. Porém, com persistência, dedicação e um pouco de fé outros horizontes começam a surgir. Pensemos bem, quantos problemas nós já enfrentamos na vida, quantos dissabores surgiram ao longo de nossa jornada? É quase certo que todos esses obstáculos foram superados de uma maneira ou de outra.

De acordo com Shakespeare: “Nossas dúvidas são traidoras, e nos fazem perder o bem que poderíamos conquistar se não fosse o medo de tentar”.

Reflexão

Houve um momento na minha vida profissional em que tive a impressão de que o mundo iria desmoronar. A minha escola de oratória já caminhava bem. Eu conseguia montar as turmas para os novos cursos até com certa facilidade. Só que havia um teto que eu não conseguia romper. Não tinha como desenvolver ainda mais os meus negócios.

vem para bem

Crédito: Jack le Roux | Unsplash

Depois de muito refletir, cheguei à conclusão de que para expandir os cursos seria preciso fazer um bom investimento em publicidade. Mas como investir se não havia dinheiro? Fiz umas contas. Somei o valor do que já estava pago: apartamento, carro e telefone, que naquela época era tão valorizado a ponto de ser declarado no imposto de renda.

Com os cálculos em mãos, decidi que deveria arriscar em uma campanha publicitária ousada. Como eu não possuía estrutura, liguei para uma agência de publicidade e ditei o texto. Determinei o valor a ser investido, o dia e local do anúncio. Uma tremenda grana!

Vergonha

No domingo bem cedo fui até à banca de jornal para comprar o Estadão. Lá estava na página nobre do primeiro caderno em letras enormes “Curso de Espressão Verbal” – com S. Fiquei desesperado. E muito envergonhado. Não sabia onde enfiar a cara. As pessoas ligavam e perguntavam com ironia: mas, diga aí, vocês só ensinam a falar ou a escrever também? Foi um momento tão constrangedor que cheguei a pensar até em desistir.

Na segunda-feira liguei para a agência para reclamar. Concordaram que o erro havia sido deles. Por isso, se prontificaram a repetir o mesmo anúncio, sem nenhum custo no mesmo espaço. Pois é, embora o anúncio tenha sido desastroso, acabou dando resultado, pois recebemos uma enxurrada de telefonemas. E eu que só tinha dinheiro para aquela primeira veiculação, acabei por conseguir duas.

Providência

Por fim, deu certo. A escola conseguiu romper aquela bolha e expandiu os cursos de maneira admirável. Coincidentemente, dois outros anúncios pequenos também saíram com erro. O número do prédio onde ficava a escola era 2226, e saiu publicado como 2236. Mais uma vez recebi outros anúncios gratuitos. Falei com o vizinho que se aparecesse alguém procurando pelo curso, para que encaminhasse ao outro endereço.

Logo depois, a escola se desenvolveu e se transformou na maior estrutura instalada para o ensino da Expressão Verbal do mundo. Fico pensando que se não fosse por esse incidente que quase me tirou de combate, talvez a história poderia ter sido outra.

Esse é apenas um exemplo de situações que aparecem como muito negativas, mas que acabam por se mostrar providenciais. Por isso, sempre que algum problema aparecer para nos atormentar, por mais sério que seja. É importante ter um pouco de paciência e esperança, pois acredito cada vez mais que para toda porta que se fecha, Deus estará disposto a nos abrir duas outras.


REINALDO POLITO é mestre em Ciências da Comunicação, palestrante, professor nos cursos de pós-graduação em Marketing Político e Gestão Corporativa na ECA-USP e autor de 34 livros que já venderam 1,5 milhão de exemplares em 39 países. Sua obra mais recente é“Os Segredos da Boa Comunicação no Mundo Corporativo”. @polito

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.

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