Magalhães e sua busca sem limites por especiarias

  • André Mafra
  • FOTOGRAFIA: Reprodução

Na coluna deste mês, André Mafra conta como a série “Sem Limites” retrata a vida do português Fernão de Magalhães no período das Grandes Navegações e como as especiarias guiaram o interesse das pessoas por descobertas.

 

Da costa da América do Sul à das Filipinas,
Magalhães descobre duas coisas: que o Pacífico ainda não
tem nome e que a terra é de facto redonda.
Gonçalho Cadilhe, em seu Nos passos de Magalhães

 

Nada melhor do que uma onda pop para chacoalhar a preferência por temas históricos, e agora o assunto é “Sem Limites”, série protagonizada por Rodrigo Santoro, que vive o papel de Fernão de Magalhães e sua épica saga no século XVI em busca por uma rota para as tão desejadas especiarias do Oriente.

Com um oceano de plataformas de streaming atualmente concorrendo entre elas, sugiro você buscar aquela que relata a jornada do navegador português a mando da coroa espanhola. Sem limites é daquelas séries de que gosto. É bem produzida e curta, sua temporada única com meia dúzia de capítulos me cativou: sem enrolação, direto ao ponto. Tudo é perfeito nela?

Não, obviamente! É preciso saber que séries, antes de tudo, são entretenimento e, em última instância, apenas preocupam-se com a audiência e não com o rigor histórico.

 

Magalhães e as especiarias

Parece difícil crer que alguém em sã consciência estaria disposto a se lançar em uma empreitada de três anos num caminho nunca antes navegado, acrescido de um alto risco de não retornar vivo ao final, mas com a ter a certeza de passar uns maus bocados em busca de sacas abarrotadas de temperos. Mas você sabe que, sim, isso tudo ocorreu.

Como já enfatizei em textos anteriores, a busca pelos condimentos do Oriente nos séculos XVI, XVII principalmente, forjou muito do mundo que conhecemos hoje. Nosso Brasil, por exemplo, é fruto da busca de Pedro Álvares Cabral, a mando do rei de Portugal, D. Manuel. Após uma breve parada em terras de Santa Cruz, em abril de 1500, o navegador lusitano seguiu com a expedição, cujo escopo era estabelecer e impressionar a posição portuguesa nas Índias e mostrar ao rei de Calicute – que havia recebido Vasco da Gama anos antes – que o xadrez comercial nos mares do Índico teria uma nova peça, e que os lusos queriam entrar para ganhar.

Após Colombo, Vasco da Gama, Cabral, Francisco de Almeida, Albuquerque e outros, era a vez de Fernão de Magalhães, um experiente conhecedor dos mares em várias expedições, que após ter seu projeto negado pela coroa portuguesa, recorreu aos vizinhos espanhóis para sua aventura de chegar à terra das especiarias navegando pelo oeste como Colombo, mas neste caso com a intenção de contornar as Américas pelo sul do continente. Teve seu pedido aceito pela corte de Carlos V e no comando da expedição composta de modestas cinco naus, partiu de Sevilha em abril de 1519.

 

A fixação dos ibéricos pela conquista dos sabores do Oriente

O português Magalhães, antes de se aliar aos espanhóis, já havia por muitos anos trabalhado para os portugueses; inclusive já havia participado da tomada de Goa, em 1510, fazendo da região a capital portuguesa na Índia, sob o comando de Fernando de Albuquerque. A chamada Terra das Especiarias era berço dos valiosos condimentos como pimenta preta (depois chamada no Brasil de pimenta-do-reino), gengibre, canela e outras especiarias nativas.

Se a Índia era a terra das especiarias e seu controle estava em mãos portuguesas, as ilhas Molucas, mais para leste, era berço de outras pérolas, como o cravo e a noz moscada, que lá estavam disponíveis para quem as pudesse tomar. Essas ilhas eram extremamente cobiçadas pelos exploradores de todo o mundo. Conquistá-las era a forma de os espanhóis rivalizarem com a corte portuguesa para tentar equalizar uma balança que estava desproporcional em favor dos portugueses, depois dos feitos de Vasco da Gama. A corte espanhola arriscou e mandou um traidor português em busca de uma nova rota. A expedição para a Ilha das Especiarias era a obsessão de Magalhães.

 

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Um mundo mal dividido

Com o contorno da África e a chegada de Vasco da Gama à Índia, em 1498, e a expansão espanhola pelo Atlântico rumo ao Oriente, via oeste por Colombo, percebeu-se que o tratado de Tordesilhas de 1494 já não era suficiente para definir onde exatamente se estabelecia o que era português e o que era espanhol.

Grosseiramente explicando, Tordesilhas definiu que: para leste, as descobertas seriam espanholas e para oeste seriam portuguesas e a expedição de Magalhães iria buscar justamente os pontos cegos no Oriente que aquele antigo tratado não pode contemplar. Portugal e Espanha se engalfinhavam em busca de uma solução para resolver a delicada questão da repartição do bolo chamado planeta Terra.

 

O Vietnã de Magalhães

O texto do cronista Pigafetta, os documentários sérios sobre o tema, os bons livros como o Nos passos de Magalhães, de Gonçalo Cadilhe, e a pop série com Santoro nos mostram os “perrengues nada chiques” que Magalhães e sua tripulação passaram. Não tem como travar contato com a história desse navegador e não ficar intrigado com o fato de ele não ter completado a viagem de circunavegação que inacreditavelmente alguns de seus homens logrou. E várias outras situações que ocorreram com ele (sim, eu vou dar spoiler daqui a pouco, ainda dá tempo de você parar, se não quiser saber o final).

Magalhães, após ter sobrevivido a um inverno patagônico, deserções, traições e rebeliões internas, de ter encontrado o estreito que ligava dois oceanos – e que depois levou seu nome – e ter navegado por mais 3 meses no infinito oceano que ele batizaria de Pacífico, caiu pela própria soberba. Descrito como obstinado e heroico pelo escrivão Pigafetta, o confiante Magalhães, ao tomar partido em uma pendenga de dois chefes rivais locais de Cebu e Mactan, na atual Filipinas, partiu, com um punhado dos seus homens, para uma luta que não era deles, e foram trucidados por centenas ou talvez milhares de indígenas guerreiros, que massacraram quase todos aqueles confiantes europeus.

 

O plano de Magalhães dizia que a terra não era plana

Passados 500 anos, não consigo pensar no que seria do pobre Magalhães assistindo a calorosas discussões em redes sociais sobre a Terra ser plana ou não. Curioso, não é mesmo?

O fato é que sim, a armada de Magalhães completou a primeira viagem de circunavegação documentada da história humana. Longe de serem santas, as expedições do período são, ao mesmo tempo, épicas e malditas, perversas e belas, cruéis e fascinantes. Dos 260 tripulantes, chegaram parcos 18 desfalecidos e o próprio chefe da expedição sucumbiu à soberba e morreu antes. Sim, Magalhães morreu sem completar a travessia, mas sua morte foi pequena perto da empreitada que enfrentou. Sua expedição e seu nome ficaram eternizados, ganhando a imortalidade.

Quando você pegar novamente um punhado de cravos, noz moscada e macis, lembre-se de que, por trás de simples condimentos, há muita história, muito sofrimento, esforço e ganância. Insisto em que o mudo no qual vivemos hoje foi moldado com ações desencadeadas naquele período de Magalhães. Convido você a se aventurar em busca do degustar de muitas especiarias e seus sabores, de muitas leituras, e viagens!  

 

Imagem de um macis. em uma tábua de madeira.

Foto: Arquivo pessoal

 

E você não vai explicar o que é o macis?

A pergunta era previsível, então, vamos lá. Mas antes, preciso esclarecer, para aqueles que não conhecem, o que é a noz moscada. Trata-se de uma semente lenhosa e rígida do fruto de uma grande árvore chamada moscadeira. Em torno dela, há outra especiaria que nada mais é do que um invólucro, ou arilo, chamado macis (myristica fragans).

Seu aroma obviamente se assemelha ao da noz moscada, mas é considerado mais delicado, refinado e, portanto, mais caro. Pode-se encontrar o macis em pedaços, lâminas ou moído em pó. Sua utilização culinária é bem semelhante ao da noz moscada, como no preparo do molho bechamel, que recebe também os seguintes temperos: alho, cebola, louro, sal e pimenta.

 

 

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ANDRÉ MAFRA (@prof_andremafra) é autor do livro “Sabores e Destinos: uma viagem pela história das especiarias”. Na obra, faz uma imersão no universo dos condimentos, ervas e temperos – e, por consequência, nos primórdios da cultura e das próprias relações humanas.

 

*Os textos de colunistas não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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