Longe da Árvore

  • Suzana Vidigal

Longe da Árvore traz é uma reflexão diferente, mas não menos importante. Deveria vir, inclusive, antes dessas mais óbvias. Fala sobre do potente lugar onde o preconceito se instala.

Normalmente, quando se pensa em inclusão, a associação imediata é com o mundo exterior. Pensa-se na escola, no trabalho, no convívio social, na prática esportiva. Pensa-se na necessidade de revisar a maneira com que as pessoas veem, recebem, acolhem aqueles com necessidades especiais, deficiências ou simplesmente fora dos padrões considerados adequados pela sociedade. Também pensa-se na acessibilidade e autonomia dessas pessoas no dia a dia do trabalho, do estudo, do lazer.

Muito bem, tudo isso está absolutamente na pauta do dia, é urgente e precisa ser trabalhado até que essas questões sejam, enfim, superadas. Porém, o que o documentário Longe da Árvore traz é uma reflexão diferente, mas não menos importante. Deveria vir, inclusive, antes dessas mais óbvias. Fala sobre do potente lugar onde o preconceito se instala e se afirma, quase que natural e sorrateiramente. Sugere um olhar essencial para que a transformação na sociedade possa, de fato, acontecer.

Longe da Árvore é baseado num livro

longe da árvore

Baseado no livro homônimo do escritor, ativista e conferencista norte-americano Andrew Salomon, Longe da Árvore fala da inclusão dentro da família. Já de cara propõe um desafio gigante, mas, olhando com mais calma, percebemos que é no seio familiar que a estrutura do que somos começa a ser construída. Faz sentido, então, começar por ela, para em seguida ser capaz de mudar o exterior.

Salomon conta no documentário que passou anos pesquisando como as famílias reagiram e lidaram com filhos com características diferentes daquelas esperadas. Sim, esperamos muito de um filho: que sejam perfeitos, sociáveis e saudáveis, que atendam às expectativas da família e da sociedade, que tenham sucesso. Escreve o livro na tentativa de entender esse processo. Homossexual em uma família tradicional judia, ele próprio enfrentou a rejeição dos pais a vida toda, passou por forte depressão e precisou se aceitar pra seguir adiante.

O filme acompanha famílias com filhos com síndrome de Down e autismo, anões e até um assassino. Sim, são diferenças em níveis distintos, mas o que se discute é a inclusão desse filho com características inesperadas no seio familiar. Ama-se incondicionalmente um filho, mas aceitá-lo não acontece tão naturalmente assim.

O distanciamento familiar

O título Longe da Árvore (Far From The Tree) remete a esse distanciamento dos outros membros da família – alguém que parece não ter nascido do mesmo tronco familiar. E é aqui que Salomon vai além – e as diretoras Rachel Dretzin e Jamila Ephron transferem para a linguagem cinematográfica com muita sensibilidade. Inverte a reflexão: nos coloca na pele desse filho, mostrando o que ele sente sendo diferente da sua própria família. Para um anão, por exemplo, conviver com pessoas iguais a ele é uma alegria sem fim: finalmente se sente acolhido por pessoas que experimentam, todos os dias, os mesmos sentimentos.

É a tal da empatia batendo na porta e escancarando a necessidade de mudança do olhar. Pensar a inclusão sob esse ponto de vista nos tira da zona de conforto e nos coloca no lugar muito mais rico da admiração e aceitação das pessoas como elas realmente são.

Suzana Vidigal é tradutora, jornalista e cinéfila. Gosta de pensar que cada filme combina com um estado de espírito, mas gosta ainda mais de compartilhar com as pessoas a experiência que cada filme desperta na mente e na alma. Em 2009 criou o blog Cine Garimpo (www.cinegarimpo.com.br e @cinegarimpo) e traz, quinzenalmente, dicas de filmes pra saborear e refletir. 


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