Livros que marcam. Qual é o seu?

  • Reinaldo Polito

Os livros marcam etapas da nossa vida, trazem recordações e nos transportam para outros tempos. De um jeito ou de outro, acabam dando um significado particular à nossa existência.

Não sei se acontece com você também. Sempre que vejo alguém lendo um livro, fico morrendo de vontade de saber qual é a obra. Espicho o olho daqui e de lá até conseguir ler o título ou o nome do autor. E se não consigo, pergunto. A minha curiosidade é ainda maior para descobrir qual foi o livro que marcou a vida de uma pessoa. Uns dizem que foi um romance que os levou para épocas das quais sentem saudade, sem mesmo terem vivido naquele tempo.

Outros se referem a um livro que ganhou como melhor aluno em determinado ano escolar. Há aqueles, ainda, que guardam com carinho o primeiro livro de historinhas que leram para eles. Dizem que gostaram tanto que não se cansavam de repetir: de novo, de novo.

Conheci uma pessoa que afirmava ter sido a cartilha de alfabetização o livro mais importante que já havia lido. Na outra ponta, se poderíamos assim comparar, um de meus alunos meio sem jeito, me chamou em um canto da sala de aula. Assim, confessou-me que as leituras mais marcantes para ele foram aqueles gibis pornográficos do Carlos Zéfiro, comprados nas portas dos fundos da livraria da sua cidade.

Um livro eleito

De um jeito ou de outro, um ou mais livros acabam dando um significado particular à nossa existência. E você, qual foi o livro da sua vida? Pode ser uma história que tenha permitido que viajasse a lugares maravilhosos, com muitas narrativas de amor e de aventuras. Um velho romance comprado em um sebo ou de um bouquiniste às margens do Sena, naquelas férias inesquecíveis em Paris. Enquanto converso com você, vá pensando que livro poderia ser o seu eleito.

A minha história é curiosa. No início dos anos 1980 ganhei um livro de presente do então deputado estadual Fernando Mauro Pires Rocha, também dono do Hospital Alvorada, em São Paulo. Era uma primeira edição da obra “A arte de falar em público”, de Silveira Bueno, publicado em 1933. O exemplar estava intacto, com capa original e sem marcas ou anotações. Gostei muito do seu conteúdo, pois correspondia ao que sempre defendi no estudo da oratória.

que livro marcou

Crédito: Ed Robertson | Unsplash

Como só tinha o nome do autor, ficava curioso para saber quando ele nasceu. Assim como, quem tinham sido os seus amigos, os seus familiares, se havia ministrado cursos sobre o tema. Enfim, gostaria de ter informações sobre a pessoa que escrevera aquele livro que me provocava tanta admiração.

Um livro que marca

Certo dia, conversando com o meu amigo Fernandes Soares, também professor de oratória, comentei com ele sobre essas questões todas que me rondavam a cabeça. Ele deu uma gostosa gargalhada e me disse: Polito, quem foi não, quem é. O professor Silveira Bueno está velhinho, mas ainda vivinho da silva. Depois daquele impacto, eu continuei: não me diga, Soares! E onde ele mora?

Antes de me passar as informações, ele falou de maneira bastante séria: só tome cuidado ao falar com ele porque com a idade o professor foi ficando meio ranzinza. Há pouco tempo, apresentaram a ele um político que, todo animado, disse que tinha muito prazer em conhecê-lo. E recebeu dele uma resposta inesperada: mas eu não tenho nenhum prazer em conhecer o senhor.

Fiquei sim preocupado, mas não desanimado. Logo em seguida fiz a ligação telefônica. Atendeu o sobrinho dele, Geraldo. Expliquei quem eu era e falei da minha vontade em trocar algumas palavras com o Mestre. Pouco depois ouvi a voz de uma pessoa idosa, mas que falava firme, com personalidade: “pois não, aqui é o professor Silveira Bueno. Quem deseja falar comigo?”

Amigos e livros

Eu estava com o discurso pronto: professor, aqui é Reinaldo Polito. Sou professor de oratória. Li o seu livro “A arte de falar em público” de ponta a ponta mais de uma vez, e gostaria muito de conversar com o senhor. Sem hesitar ele respondeu: se o senhor tiver tempo disponível, pode vir aqui em casa hoje mesmo. Confirmei na hora.

Naquela mesma tarde eu estava tendo a alegria de encontrar uma das pessoas mais encantadoras que conheci. Sua casa era, como ele mesmo dizia, de flores por fora e de livros por dentro. Fui muito bem recebido. Ficamos horas trocando ideias, especialmente sobre oratória e livros. Ele ministrara apenas um curso de oratória. Por último, discutimos até a respeito dos métodos que poderiam ser utilizados para matar os bichinhos que comiam as páginas das obras, sem se preocupar se eram raras ou não.

Na saída ele me segurou no braço e disse: gostei muito de conversar com o senhor. Venha me visitar mais vezes. E foi assim que nasceu uma grande amizade. Sempre que tinha tempo, ia me encontrar com ele. Gostava de ver aquele velhinho, com mais de 90 anos, ainda corrigindo as novas edições dos mais de 60 livros que escrevera.

Um livro que marca

Certo dia, eu o convidei para participar de uma formatura do nosso curso. Ele aceitou. E com 93 anos de idade fez uma palestra de 34 minutos que emocionou a numerosa plateia que o assistia. O jornalista Heródoto Barbeiro estava presente, e me pediu a gravação com o discurso do professor. No seu programa, na rádio Excelsior, hoje CBN, dedicou uma edição inteira para comentar trechos da fala do velho mestre.

Uma das alunas, editora do Jornal da Tarde,  fez uma matéria com chamada de capa e de página inteira com ele. Um homem que vivia recluso teve, nos últimos momentos da sua vida, o destaque que merecia. Foi um amigo muito querido, de quem jamais me esqueci. Seu livro está até hoje com destaque na minha estante. Essa foi a história do livro mais marcante na minha vida. Quem sabe um dia eu descubra qual foi o seu.


Reinaldo Polito é mestre em Ciências da Comunicação, palestrante, professor nos cursos de pós-graduação em Marketing Político e Gestão Corporativa na ECA-USP e autor de 34 livros que já venderam 1,5 milhão de exemplares em 39 países. Sua obra mais recente éOs Segredos da Boa Comunicação no Mundo Corporativo. @polito

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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