7 livros para começar a entender a saúde mental

  • Diogo Rodriguez

Ler tem dois efeitos principais: um, nos dá uma base de conhecimentos que ajudam a olhar para nós mesmos com mais de paciência; dois, nos mostra que há mais gente sofrendo com questões semelhantes

 

Quem me acompanha aqui na Vida Simples sabe que uso muitos livros como base para meus textos e minhas ideias a respeito da saúde mental. Foi assim, aliás, que minha busca começou: lendo livros. Assim, A partir do momento em que comecei a fazer terapia, percebi que havia muito a entender que estava além dos diagnósticos. Esta coluna, aliás, só existe por conta dessa busca constante por informações. Diariamente busco novos conteúdos, estudos, especialistas, ideias, para fortalecer meu entendimento a respeito da minha depressão e da minha ansiedade.

Comecei pela psicanálise, mas logo expandi a gama de assuntos para a neurociência, psicologia, filosofia, sociologia, mindfulness e meditação. Recomendo a todas e todos que leiam a respeito do assunto, sobretudo quem sofre com algum transtorno de saúde mental. Ler tem dois efeitos principais: um, nos dá uma base de conhecimentos que ajudam muito a olhar para nós mesmos com um pouco mais de paciência; dois, nos mostra que há mais gente sofrendo com as mesmas questões que nós, e isso nos faz sentir menos sozinhos no mundo.

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Quero deixar bem claro que a lista a seguir é muito pessoal e não tem a pretensão de ser definitiva. Minhas escolhas refletem apenas os aprendizados que eu tive ao longo dessa jornada de anos lidando com minha saúde emocional. Sou jornalista e não psiquiatra ou psicólogo. Dito isso espero que a seleção incentive as pessoas considerar a leitura uma aliada nesse processo de tratamento. Entender e aprender pode nos ajudar a sair um pouco da nossa perspectiva, do nosso “mundinho” e ampliar o olhar.

7 livros para entender a saúde mental

Mal-estar na atualidade, Joel Birman (Civilização Brasileira)

Birman é escritor e psicanalista e um dos principais pensadores brasileiros nessa área. O livro mostra como nossas sociedades separaram a mente do corpo, gerando uma desconexão entre nossos sentimentos e as sensações físicas. Para mim, foi surpreendente constatar o quanto fui ensinado pelo mundo a considerar os aspectos mentais e físico como duas entidades completamente separadas. Isso tem muito a ver com minha dificuldade de gostar de exercícios e de me cuidar.

Meus tempos de ansiedade, Scott Stossel (Companhia das Letras)

Trata-se de uma investigação jornalística, mas Stossel usa sua experiência como ponto de partida para falar sobre a ansiedade, suas “origens” e como a sociedade encara esse transtorno. Sua mistura de informação com relato foi muito inspiradora na hora de criar esta coluna. Stossel traça o histórico da indústria farmacêutica em detalhes, o que faz desse livro também um volume de referência.

Como mudar sua mente, Michael Pollan (Instrínseca)

O jornalista americano é bastante conhecido por Cozinhar, que fala sobre a alimentação e a cultura humana. Aqui, o assunto é outro: Pollan investiga as drogas psicodélicas, que foram praticamente banidas das pesquisas científicas a partir dos anos 70, mas que voltaram a ser estudadas em tempos mais recentes. O livro é excelente. Pollan conta a história moderna dos psicodélicos, como foram proibidos e o estrago que isso causou na comunidade científica. Entrevista pessoas que passaram pela experiência transcendental que essas substâncias proporcionam e ele mesmo resolve experimentá-las. Além de ser informativo, o livro é humano e nos faz mergulhar em novas perspectivas a respeito de como nossa mente pode ser.

Viver a catástrofe total, Jon Kabat-Zinn (Palas Athena)

Todos os autores que eu havia lido na minha pesquisa a respeito de meditação citavam este livro de Kabat-Zinn, considerado uma espécie de patrono do mindfulness. Médico, ele criou nos anos um programa de exercícios de meditação que é usado até hoje pelo mundo. Segui a rotina sugerida pelo livro durante as oito semanas recomendadas e de fato entendi como tais técnicas podem ajudar pessoas com transtornos de saúde mental. É uma leitura obrigatória para quem se interessa por mindfulness, embora críticas possam ser feitas à visão de Kabat-Zinn a respeito das causas do aumento de transtornos mentais (e quem são os responsáveis por ele).

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O estilo emocional do cérebro, Richard Davidson e Sharon Begley (Sextante)

Davidson é o principal pesquisador da neurociência dedicado a estudar a meditação. Ele próprio é um ávido defensor e praticante. Li este livro fazendo uma matéria para a Vida Simples e o entrevistei para um artigo sobre os limites da meditação na Vice. A primeira vez em que meditei na vida foi seguindo as instruções de Davidson nos capítulos finais desse volume. O livro nos ajuda a entender que uma parte da explicação do porquê sofrermos com ansiedade, depressão e outros transtornos está em nosso corpo. E que, em alguns casos, é possível aliviar sintomas e aumentar a qualidade de vida.

McMindfulness, Ronald E. Purser (Repeater, sem tradução para o português)

Se você ainda está começando a entender e praticar mindfulness, talvez esse livro seja para mais tarde. Quem, no entanto, conhece as bases dela, será recompensado pelas reflexões de Purser, a quem entrevistei aqui na coluna. A provocação dele é: será que ao retirar a meditação do seu contexto ético e religioso não estaremos fazendo dela uma ferramenta para levar as pessoas ao conformismo? Sua crítica é direcionada especialmente a Jon Kabat-Zinn, a quem Purser acusa de contribuir para que o mindfulness tenha se tornado uma simples ferramenta de auto-ajuda, que não incentiva os praticantes a refletir de fato.

Lost connections, Johann Hari (Bloomsbury, sem tradução para o português)

citei esse livro diversas vezes na coluna. É um dos trabalhos mais reveladores que li nos últimos anos. Jornalista, ansioso e deprimido, Hari faz um percurso parecido com o de Stossel e sai em busca das causas de seus transtornos. Sua investigação mostra o papel do contexto na saúde emocional. Muito se fala do desequilíbrio químico cérebro, mas pouco do ambiente em que vivemos, de nossas condições de trabalho cada vez mais incertas e da crescente solidão que experimentamos.

 

Diogo Rodriguez é jornalista e foi diagnosticado com depressão há cinco anos. Desde então, vem estudando o assunto. Escreve neste espaço às quintas-feiras –e divide mais sobre o tema no perfil @falandodepressao. Para conversar com ele e compartilhar sua experiência com saúde mental, mande um e-mail para [email protected]


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