Lista de ano novo: seus desejos são realmente “seus” desejos?

  • Margot Cardoso

Início de ano, desejos profissionais, materiais, afetivos… Antes de fazer sua lista, certifique-se de que sabe exatamente o que quer.

 

O filósofo francês Gilles Deleuze classificou o ser humano como uma “máquina desejante”. Somos movidos por desejos — desde os necessários para a sobrevivência até o mais sofisticado e inútil objeto material. E são muitos. Alguns desejos nascem do nosso eu mais profundo, da nossa essência. São realmente nossos. Mas, a maioria não são nossos.

Você já deve ter observado desejos conflitantes. E também deve ter passado pela experiência de ter ansiado — por um objeto, condição, relação — e, quando finalmente o desejo tornou-se realidade, você constatou que não era bem aquilo que você queria.

Outra situação frequente, é embotar ou esconder um desejo com medo da reprovação dos outros. “Se souberem, o que vão pensar de mim?”

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Essa é uma condição muito comum nas escolhas profissionais. Quando optamos por uma mudança de carreira de pouco prestígio social, tememos o julgamento dos outros, de sermos vistos como não ambiciosos, preguiçosos e acomodados.

À parte isso, os desejos nos definem. Na série da Netflix Lúcifer, um dos poderes do personagem é a capacidade de fazer com que o outro revele o seu desejo mais profundo. Após obter a resposta para a pergunta “What is it you truly desire” (“Qual é o seu desejo mais profundo?”, em tradução livre), o “diabo-detetive” fica muito mais perto de saber se o interrogado é culpado ou inocente.

Influências

Por conta da sua importância, essa problemática passou pelo radar do pensador contemporâneo René Girard (1923-2015). Francês radicado nos EUA, considerado uma das maiores mentes do século XX, Girard notou algumas características peculiares do desejo. Na teoria de Girard, os desejos estão assentes na nossa tendência para a imitação, o mimetismo, então ele divide os desejos em miméticos e não miméticos.

Os não miméticos são aqueles que estão profundamente enraizados na nossa cultura e tem pouca alteração em função de experiências, como por exemplo, o desejo de educar bem um filho. Os desejos miméticos são aqueles “copiados” dos outros. O desejo de ir para determinada universidade porque todos os seus amigos querem ir para lá.. Algo verificável na prática. Afinal, desejamos o nível de vida de alguém próximo a nós, e não o estilo de vida da rainha da Inglaterra.

Por que isso importa?

Por conta dessa tendência mimética dos desejos, acabamos por desperdiçar o nosso tempo desejando o desejo dos outros e amargando frustrações. Para evitar essas agruras, Girard defende que precisamos escrutinar os nossos desejos. Saber de onde eles vem, avaliar se eles são mesmos os nossos e se eles nos servem. Para isso, a primeiro passo é identificar os modelos de desejo que estão influenciando o que você deseja. Quem são as pessoas que atuam como seus modelos do que você considera desejável?

Girard identificou dois tipos: aqueles dentro de seu mundo e aqueles fora dele, modelos internos e externos. Os externos — pessoas que você não conhece pessoalmente — são os modelos incutidos pelas propagandas ou por quem você segue nas redes sociais. Os internos são pessoas da sua família, amigos, colegas de trabalho. Enfim, pessoas que você pode entrar em contato. Essas são pessoas com as quais os nossos desejos se entrelaçam. Eles podem afetar os seus desejos e você, os dele. Também construímos a nossa lista de desejos a partir de contra-exemplos. Pessoas contra quem estamos constantemente nos medindo.

E, óbvio, os anúncios também tem um grande poder sobre os nossos desejos. Mas, repare que eles normalmente não mostram o produto me si, mas as pessoas usufruindo do produto. Jogam diretamente com a nossa atração para imitar o outro.

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Depois dessas origens identificadas, entra em campo o seu senso critico. Questionar a utilidades dos desejos dentro da nossa realidade e cuidar para não desejar de forma obsessiva a grama verde do seu vizinho.

Mapeie a origem dos desejos

É fato que as pessoas vão sempre nos influenciar. Somos seres sociais que nos conhecemos a partir do olhar do outro. Entretanto, não podemos nos preocupar excessivamente com os outros para não inviabilizar a nossa principal missão: a construção de nós mesmos.

Muitos solteiros, por exemplos, são tentados a iniciar um relacionamento sugerido por seus amigos comprometidos. A oferta é irrecusável — principalmente para os homens — além da atração mimética, há a competição. A ideia que fica é “eles tem, eu também devo ter”. Muitas relações tediosas e infelizes têm essa gênese.

Luke Burgis, autor do livro Wanting: The Power of Mimetic Desire in Everyday Life (não editado no Brasil, em tradução livre “Querendo: o poder do desejo mimético na vida cotidiana), um estudioso informal dos sistemas de desejos (e das ideias de Girard) dá o exemplo do chef Sébastien Bras, dono do restaurante Le Suquet em Laguiole, França, premiado durante 18 anos pelo guia Michelam.

Em 2018, Bras fez um pedido inédito: pediu para o júri do guia nunca mais voltar ao seu restaurante. Por quê? Ora, o chef descobriu que nos últimos anos “viveu” os desejos do guia e se esqueceu dos seus. Depois de todos esses anos, ele chegou a conclusão que o seu desejo de fazer pratos novos e criativos — seu foco inicial e o que realmente sentia prazer — foi soterrado pelo desejo de atender o gosto dos avaliadores.

Certifique-se de descobrir o seu “guia Michelin”. Pessoas às quais você busca aprovação ou as expectativas de familiares e amigos. Ou, ainda, desejos que você abriu mão por medo do julgamento dos outros. Mapeia os seus desejos e em que sistemas eles estão presos.

Alguns de nós passamos ano após ano aprisionados, mantendo estilos de vida e relações que não tem nenhum eco com os nossos gostos, vontades e anseios. Escolha os seus desejos com consciência e intencionalidade.

Seja o autor dos seus próprios desejos, verdadeiros, autênticos. Você não precisa esperar 18 anos como fez Sébastian Bras, para fazer essa análise. Faça agora, faça hoje, faça ainda este ano.

 

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MARGOT CARDOSO é jornalista e pós-graduada em Ética e Mestre em filosofia. Nesta coluna, semanalmente, escreve sobre a arte de viver, sempre à luz dos grandes pensadores.

*Os textos de colunistas não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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