Jardins e hortas para tratar depressão

  • Diogo Rodriguez

A ideia é recomendar aos pacientes que passem a cuidar de jardins e hortas como maneira de complementar o tratamento, principalmente no caso de pessoas que têm depressão. 

 

Hoje, a ciência sabe que a solidão e o sentimento de desconexão com o mundo podem ajudar a desencadear quadros depressivos. Faz muito sentido, afinal, trata-se de uma doença que nos deixa extremamente focados em nós mesmos, em nossos pensamentos, quase sempre negativos. 

Talvez não seja coincidência que a minha depressão tenha aparecido justamente a partir do momento em que me tornei um jornalista autônomo, freelancer. Deixei de trabalhar em escritórios, com equipes e colegas de trabalho, e passei a ficar mais em casa, sozinho. Claro que acontecem algumas reuniões para conversar sobre os trabalhos e tarefas, mas são raras. 

Aliás, cada vez menos clientes querem perder tempo com isso. Preferem resolver as coisas por e-mail e WhatsApp. A não ser quando há algum problema, não há retorno a respeito do trabalho. Os meios de comunicação eletrônicos são frios, diretos demais. Muitas vezes comentários aparentemente inocentes podem se tornar agulhas, justamente porque falta o tom de voz, a intenção de quem fala. 

Depois de ler Lost Connections, de Johann Hari, como comentei aqui na semana passada, passei a prestar mais atenção às causas ambientais e sociais de nossos transtornos mentais. Não devemos olhar para eles apenas como um desequilíbrio de substâncias químicas do cérebro. Essas doenças são também causadas pelo estilo de vida a que somos submetidos, de profunda desconexão social e emocional.

Jardins e hortas podem ajudar no tratamento

jardins e hortas

Por isso achei muito interessante a história da clínica médica de Cornbrook, em Manchester, Inglaterra. Os médicos de lá estão não apenas receitando antidepressivos, mas plantas. E não estou falando de plantas medicinais. A ideia é recomendar aos pacientes que passem a cuidar de plantas como maneira de complementar o tratamento, principalmente no caso de pessoas que têm depressão. 

Isso tem dois efeitos: reaproxima as pessoas da natureza, algo que ajuda a minimizar os sintomas da ansiedade e da depressão. Além disso, dá um propósito social aos pacientes da clínica, criando uma reconexão social. Uma ONG chamada Sow the City, em parceria com as autoridades públicas, promove o encontro entre pacientes e plantas. 

Em grupos, as pessoas passam a cuidar de pequenos jardins e hortas. A organização fornece todos os materiais necessários para a atividade, além de ensinar noções básicas de jardinagem e horticultura. Muitas vezes, demora um tempo para que os resultados apareçam e é justamente esse processo de aprendizagem conjunta e contato com as plantas que cria o efeito terapêutico. 

De acordo com Jon Ross, diretor da Sow the City, o projeto começou em 2009 com o objetivo de incentivar os cidadãos de Manchester a plantar sua própria comida e aprender sobre vegetais. Conversei com Rosso por e-mail, e ele contou que “há um crescente corpo de pesquisa a respeito dos benefícios da terapia horticultural e verde”. 

A Sow the City também conduziu suas próprias avaliações e, de acordo com Ross, têm “muitas evidências de que terapia hortícola e atividades baseadas na natureza, desempenham um papel importante na reabilitação e recuperação de pessoas com depressão, ansiedade e esquizofrenia”.

Minha experiência com jardins e hortas

Quis saber se manter minhas próprias plantas no apartamento poderia ter efeitos equivalentes. Para ele, ter natureza por perto é muito importante e ajuda, mas o aspecto social do projeto faz dele “mais poderoso”. Existe a possibilidade de que plantas possam ajudar a prevenir transtornos de saúde mental. “Há pesquisas, por exemplo, na Escócia, que sugerem que altos níveis de cortisol [hormônio relacionado ao estresse] foram relacionados a níveis de menor espaço verde e vice-versa em bairros escoceses”, diz Ross. “O estresse pode, é claro, levar à depressão. A maneira como projetamos o espaço verde da cidade pode afetar a nossa saúde mental e o bem-estar.”

Outras organizações estão pesquisando os efeitos positivos da jardinagem, como o King’s Fund, que publicou um relatório dando um panorama dos achados científicos disponíveis a respeito do tema (leia-o aqui, em inglês). Esse tipo de iniciativa, que dá um senso de propósito e comunidade a quem sofre de transtornos mentais, pode ser uma alternativa ou complemento aos tratamento disponíveis. 

Como me saí com o cacto?

O máximo que já fiz nessa área foi “cuidar” de um cacto, que requer pouquíssima água e atenção. Ele continua vivo na minha sala. Mas talvez eu pudesse ter me recuperado mais rapidamente caso houvesse algum jardim comunitário pelo qual eu pudesse zelar em companhia de outras pessoas. Estou tentando preencher esse vazio comunitário com outras atividades, como meditação e um clube do livro.

Somos animais que precisam estar em sociedade e entrar em contato com nossos semelhantes ao vivo. E é missão de toda a sociedade criar oportunidades para que isso ocorra.

Diogo Rodriguez é jornalista e foi diagnosticado com depressão há cinco anos. Desde então, vem estudando o assunto. Escreve neste espaço às quintas-feiras –e divide mais sobre o tema no perfil @falandodepressao. Para conversar com ele e compartilhar sua experiência com saúde mental, mande um e-mail para [email protected]


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