Já virou mania: uma selfie no museu

  • Iasmine Souza
  • FOTOGRAFIA: Unsplash

Tirar selfies em exposições já virou mania e, sobre isso, Iasmine Souza conta aos leitores de Vida Simples uma situação inusitada que viveu recentemente. Apesar da tentação de fotografar tudo e compartilhar com todos, a colunista aconselha: “viva antes, fotografe depois”.

 

Ainda acho o centro de São Paulo bonito. Nesse dia, apertei o passo na rua Quinze de Novembro para não perder o agendamento na inauguração da badalada exposição de um artista argentino, a primeira vez por essas bandas.

Uma longa fila se formava fora do Centro Cultural Banco do Brasil. Junto a outros visitantes igualmente animados para mergulhar na piscina que não molha – foi assim que os veículos passaram meses preparando a chegada da obra de Leandro Erlich ao Brasil – , entrei.

Quando finalmente aproximei-me da entrada da instalação, uma voz noticiou:

 

“Senhora, você tem 1 minuto.”

O comando me desconcertou. Pessoas entravam apressadas, vez por vez, celulares em punho, espremendo-se em 60 segundos para fazer o clique perfeito.

Afinal, quanto vale a foto no museu? Pensei nos livros de história da arte que contam como alguns visitantes perdiam horas dentro do Louvre para estudar e copiar obras dos grandes mestres. De lá para cá, mudou radicalmente a forma como nos relacionamos com esses espaços.

E, para quem lamenta que a busca pelo melhor ângulo estraga a atmosfera de uma exposição, melhor encarar a realidade. Fazer um bom registro para compartilhar nas redes sociais é um traço incontestável da cultura moderna.

Selfie” já foi considerada palavra do ano pelo Dicionário Oxford e ganhou até data mundial comemorativa (dia 21 de junho, segundo apurei!).

A campanha #MuseumSelfieDay, criada pela expert em redes sociais @mardixon, já conta com mais de 35 mil publicações no Instagram.

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Uma imagem vale mais que mil palavras?

Confesso que ainda não considerei a possibilidade de pensar na fotografia como parte de uma nova forma de apreciar obras de arte (chegaremos lá?), mas que ficará cada vez mais difícil revoltar-se contra a tendência de compartilhar aventuras nas redes, isso sim eu arriscaria apostar.

Fulano só vem para tirar foto, alguns seguem sentenciando. ‘’As sociedades ocidentais reduzem o mundo às imagens, e fazem das mídias o principal vetor da vida cotidiana”, diz o sociólogo David Le Breton, em seu clássico Antropologia dos Sentidos.

É essa a dinâmica que materializa uma geração absolutamente conectada, que já ensaia uma existência paralela no metaverso. E, verdade seja dita, isso não parece inteiramente ruim para as instituições.

Museus também precisam de tráfego, likes, engajamento e publicidade. Não estão imunes à hipertrofia do compartilhamento.

Portanto, à exceção de quando o “não fotografe” estiver vinculado ao receio de degradação da qualidade de obras sensíveis, não há razão para julgar o hábito de fazer selfies em uma exposição.

 

Viva antes, fotografe depois

Dá para garantir a foto perfeita sem que o ato aparentemente inofensivo pareça desrespeitoso com os que estão vivendo ali uma contemplação silenciosa?

Em todo caso, vale o bom senso. A sua interação com o museu ficou mais aberta e é natural valer-se disso para desfrutar a exposição favorita. Lembre-se apenas de conferir o entorno para não comprometer a experiência do outro ou, ainda, a segurança do museu.

Acreditem, o temor não é infundado: alguns anos atrás, muitos museus proibiram bastões de selfie por representarem um perigo flagrante ao acervo.

Se permitem a sugestão clichê de alguém que adora um clique com muita arte: viva antes, fotografe depois.

E eu sinceramente espero que, para isso, você tenha mais que um minuto.

 

Leia todos os textos da coluna de Iasmine Souza em Vida Simples.


IASMINE SOUZA é advogada e entusiasta de arte, autora do perfil @minutodearte. A paixão por esse mundo foi tamanha que agora está cursando uma especialização em Crítica e Curadoria de Arte na PUC-SP. Há grandes chances de encontrá-la em alguma exposição. No tempo livre, escreve.

 

*Os textos de colunistas não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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COMENTÁRIOS

  • Isis

    Adorei o texto, só mudaria o “fotografe depois” por “publique depois”, já que fazer fotos no museu (ou em qualquer lugar), selfie ou nao, faz parte dos registros de memórias da vida que, assim como vídeos, são ferramentas essenciais para contar uma boa história. A tecnologia serve o ser humano e não o contrário🙂

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    • Vida Simples

      Obrigada por compartilhar sua visão, Isis! 🥰🥰🥰

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