Interdependências

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O corredor era longo naquele prédio imponente em Brasília onde havia dado uma palestra, e agora caminhava com passos largos. Ao longe vi o homem que iria encontrar. Quando nos aproximamos, sorrimos. Apresentados pelo Júlio, nosso amigo comum, eu e o Gérard Moss rapidamente nos tornamos íntimos, pois tínhamos interesses e visões de mundo parecidas. Além disso, esse suíço-inglês naturalizado brasileiro, engenheiro mecânico, piloto de avião, pesquisador e defensor da ecologia, tem uma qualidade que considero imprescindível: o bom humor. Inteligente e de espírito livre, Gérard coleciona aventuras, desde uma viagem de mobilete pelos Alpes, com apenas 13 anos, até duas voltas ao mundo em pequenos aviões. Mas o que eu estava mais interessado em conhecer era sua pesquisa sobre os “rios voadores”, um ótimo exemplo de interdependência.

Gérard, que voou 120 mil quilômetros com sua mulher Margi, em um avião anfíbio, pousando em rios, lagos e represas Brasil afora, é um dos grandes conhecedores da situação de nossas águas. Fez 1.160 coletas. A este projeto, chamado Brasil das Águas, seguiu-se outro, em que o aviador identificou a origem do vapor d’água, das chuvas e dos rios. Então surgiu o conceito dos “rios voadores”.

– A umidade gerada pelo oceano Atlântico é trazida para o continente pelos ventos alísios. É atraída pela floresta Amazônica, que a absorve, funcionando com uma bomba de água. Depois a umidade passa pelo ciclo da floresta e é propelida em direção à cordilheira dos Andes.

– A água então cruza a cordilheira em direção ao Pacífico? – perguntei.

– Só uma parte. Como a cordilheira é uma barreira, a maior parte desvia para baixo trazendo água para o centro-oeste, sudeste, sul do Brasil e para os países vizinhos. Essa água vem em forma de umidade e provoca chuvas nessas regiões.

– É por isso que todos devem cuidar da Amazônia ou vai faltar água, como já está acontecendo.

– Exatamente, o nível de interdependência das regiões brasileiras no que diz respeito ao clima é imenso. Por isso a informação é fundamental para aumentar a conscientização. Se acabarem os “rios voadores”, não teremos mais reservatórios de água.

Entre todas as conversas que tive com pessoas espetaculares sobre as interdependências da natureza e da vida humana, esta com o Gérard Moss foi uma das mais impactantes. Talvez porque ele seja um viajante diferenciado, que esteve em vários lugares, que sentiu o gosto das águas e que voou ao sabor dos ventos. Ele insiste no potencial hídrico de nosso país  – o maior e melhor do mundo – mas está preocupado com as mudanças provocadas pelo desrespeito à verdade lógica e cristalina de que tudo está ligado a tudo. Outra pessoa especial com quem tive o prazer de conviver é o físico austríaco Fritjof Capra. Seus livros, especialmente O Ponto de Mutação e O Tao da Física, estimularam minha curiosidade. Estivemos juntos em Berkeley (EUA) e no Mato Grosso, quando navegamos pelo rio Cuiabá.

– A falta de percepção das interdependências está matando nosso planeta – me disse ele, que deixa isso cientificamente claro em seu livro A Teia da Vida.

O que me intriga é que ele fala calmo, sorrindo, enquanto me serve vinho no restaurante de tapas próximo à universidade. Tem um ar de condescendência com a ignorância, mas não se acomoda. É um paladino da ecological literacy ? a alfabetização ecológica, a habilidade para entender os fenômenos naturais da qual nós fazemos parte.

Sua obra mais conhecida é O Ponto de Mutação, no qual defende que devemos desenvolver um pensamento holístico, em oposição ao pensamento cartesiano, reducionista e fragmentário vigente. Nele, três pessoas conversam durante uma visita à ilha de Saint Michel, na França: um senador americano, uma física nuclear e um poeta. O diálogo é maravilhoso. Em uma passagem, o senador Jack Edwards diz que precisa ver as partes para entender o todo, que não consegue descrever uma árvore sem falar do tronco, dos galhos, raízes e folhas. É quando a cientista Sonia Hoffman alega que isso é muito pouco, que é melhor ver a árvore em função de suas interdependências, sem falar de suas partes. Diz ela:

– Há trocas sazonais entre a árvore e a terra, entre a terra e o céu. Uma gigantesca respiração que a Terra realiza com suas florestas dando-nos oxigênio. O sopro da vida, ligando a Terra ao céu e nós ao Universo. Uma árvore é o habitat de pássaros, o lar de insetos. Dos frutos que ela produz, só um ou dois resultarão em novas árvores; entretanto, centenas de aves e outros animais sobreviverão graças a eles. A árvore também não sobrevive sozinha. Para tirar água do solo depende dos fungos que vivem em suas raízes. O fungo precisa da raiz e a raiz precisa do fungo. A isso chamamos de interdependência.

Definitivamente, entender a teia da vida, as relações de causalidade, a interdependência dos homens entre si, com a sociedade e com a natureza é mais do que cultura geral, é consciência, abertura de mente e lucidez. E é, também, uma questão de sobrevivência. Para pensar.

EUGENIO MUSSAK foi professor de biologia por 20 anos e costuma colocar em seus textos a ecologia das relações.


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