Como sei se estou com depressão?

  • Diogo Rodriguez
  • FOTOGRAFIA: Freshh Connection | Unsplash

O estereótipo que se tem de uma pessoa deprimida pelos cantos pode atrapalhar a identificar depressão, ainda que a vida siga aparentemente normal

A imagem que temos de pessoas com depressão é caricata: um indivíduo cabisbaixo, com a cabeça entre as mãos, num quarto escuro, olhos vermelhos de tanto chorar. Basta fazer uma busca no Google Imagens para saber do que estou falando.

Não estou tentando sugerir que pessoas com depressão não se sentem dessa maneira. De fato, quem sofre com esse transtorno muitas vezes fica triste, desanimado ou até desolado. No entanto, esse não é único estado possível para um depressivo. 

imagem identificar depressão

Eu demorei um certo tempo para entender que estava deprimido. Tinha na cabeça as imagens comuns a respeito da doença e não me via nelas. Trabalhava cerca de dez horas por dia, estava sempre procurando novos projetos (sou freelancer) e minha cabeça estava sempre a mil. Sentia que algo estava errado, claro, mas creditava isso ao estresse.

A meu ver, não havia nada de errado: eu levantava da cama todos os dias, fazia o que tinha que fazer, tudo estava aparentemente normal. 

A pegadinha é que a depressão pode ter várias faces. Os clichês visuais contam apenas uma parte da história. Os sinais já estavam presentes, mas meus olhos não haviam sido treinados para percebê-los.

Aos poucos, fui perdendo o interesse por fazer coisas das quais gosto, como tocar violão, ouvir música, acompanhar futebol. Comecei a evitar os compromissos sociais por conta de uma suposta preguiça. Minha alimentação ficou desregulada e passei a buscar alento na comida. 

Olhando assim, daria até para dizer que os sinais estavam bem claros, não é? Na verdade, não. Essas coisas aconteceram aos poucos.

A transição foi sutil o suficiente para que eu não a notasse. Eu sabia que havia algo de errado, mas, no geral, minha energia era alta demais em comparação com as imagens que temos da depressão. Continuei nessa toada por um tempo. 

Até que desenvolvi uma alergia inexplicável. De repente, a pele ficava cheia de placas, minhas mãos e pés inchavam. Mais assustador, às vezes a língua também. Segui a orientação médica e experimentei parar de comer queijos, de usar perfume; ele tentou descobrir o que estava causando a reação intensa. Fiquei assim por seis meses. Perdi o casamento de uma grande amiga porque meus pés, inchados, não entravam nos sapatos. Perdi um show porque a alergia apareceu sem aviso.

Um ano antes, minha analista já desconfiava que eu pudesse estar com depressão. Ela chegou a sugerir que eu procurasse um psiquiatra para talvez me tratar a base de remédios. Achei a ideia exagerada e me comprometi a diminuir o estresse indo na academia e fazendo meditação. Não consegui. A depressão é uma condição dura. Enfim, aceitei o conselho. Em seguida, comecei o tratamento com remédios –e continuo até hoje. 

Quando falamos de saúde mental, entramos em um terreno enganadoramente simples. Afinal, deve ser fácil saber se estamos bem ou não, pensamos. O problema é que nossa mente é complexa demais.

Além disso, o mundo nos leva a achar que é normal estar estressado, sobrecarregado, cansado. Vejo uma grande confusão aí. Eu acreditava que meu problema era perfeitamente controlável: sou uma pessoa ansiosa que está trabalhando muito; basta pegar um pouco mais leve que tudo fica bem. 

Somos incentivados a pensar que deveríamos estar no controle de absolutamente tudo: nosso tempo, nossos desejos, nosso cansaço, nossa mente. Mas, sem perceber, acabamos exigindo demais de nós mesmos e cruzamos a fronteira sem perceber. Passamos a achar que é normal viver o tempo todo estressados, preocupados, ligados, conectados, mas isso raramente faz bem.

Vejo, porém, que demorei demais para perceber como meu dia a dia estava se tornando prejudicial. Claro, eu não ficava sentado num canto chorando com a cabeça entre as mãos. As imagens comuns a respeito da depressão representavam bem como eu me sentia por dentro, mas aquela não era a maneira como eu me comportava. 

Minha história é relativamente comum. Vejo muitos colegas, conhecidos, pessoas próximas, que são extremamente ativas e produtivas, mas que talvez devessem procurar ajuda. Duvido que todas essas pessoa estejam deprimidas, mas talvez a carga emocional em suas vidas precise de um pouco de alívio. Sei que tendemos a achar que devemos ser fortes, autônomos, invencíveis. Mas a verdade é que todo mundo precisa de ajuda. 

Vou repetir um mantra desta coluna: procure ajuda, seja de um psiquiatra ou de um psicólogo. Só os profissionais da saúde podem dizer com certeza se você tem ansiedade generalizada, depressão ou qualquer transtorno de saúde mental. Mas existem alguns sinais de alerta. Geralmente, a perda de interesse por coisas que antes davam prazer, comer ou beber de maneira exagerada, cansaço constante, desânimo, preocupação excessiva, são indícios de que algo pode estar acontecendo. No entanto, só é possível saber com certeza falando com um profissional. 

Por isso, peço aos leitores e leitoras desta coluna que reflitam com carinho a respeito de sua saúde mental. E, caso desconfiem de que algo possa estar errado, procurem ajuda. A depressão tem muitas faces, tantas quantos são as faces humanas. 

 

Diogo Rodriguez é jornalista e foi diagnosticado com depressão há cinco anos. Desde então, vem estudando o assunto. Escreve neste espaço às quintas-feiras –e divide mais sobre o tema no perfil @falandodepressao. Para conversar com ele e compartilhar sua experiência com saúde mental, mande um e-mail para [email protected]


POSTS RELACIONADOS

EDIÇÃO DO MÊS

Edição 215, janeiro de 2020 ASSINAR
COMPRAR A EDIÇÃO

NESTA EDIÇÃO

Como ser feliz no trabalho: Para encontrar satisfação em um emprego, é preciso resgatar talentos e renovar o nosso jeito de olhar a vida



TAMBÉM QUERO COMENTAR

 

Campos obrigatórios*