Homens em luto

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  • FOTOGRAFIA: Srdjanns | Istock

Para os homens, encarar a morte pode ser ainda mais desafiador, pois o patriarcado e o machismo ensinam que os homens devem ser autossuficientes, fortes, não demonstrar emoções, nem vulnerabilidade.

Vivemos há quase dois anos uma experiência que afetou nossas vidas radicalmente, a pandemia do novo coronavírus. A cada dia, semana, mês, fomos vendo o número de mortes crescer no Brasil e no mundo. Chegamos a quase 590 mil mortos no Brasil, uma cidade grande que sumiu inteiramente do mapa. Tornou-se inevitável falar de um tema que nossa sociedade insiste em evitar: a morte.

Em geral, não há incentivo para falarmos sobre o assunto. Não lembro de ter tido nenhuma conversa com meus pais ou na escola sobre o que fazer no caso de perda de um ente querido. Meu avô materno morreu no dia do meu aniversário de 7 anos e não tive ninguém para me ajudar a elaborar as emoções e o processo de luto. A morte segue sendo um tabu.

Para os homens, encarar a morte pode ser ainda mais desafiador, pois o patriarcado e o machismo nos ensinaram que devemos ser autossuficientes, fortes, não demonstrar nossas emoções, não demonstrar vulnerabilidade. Assim fica muito difícil falar abertamente sobre a finitude e ter uma vivência mais saudável com o sofrimento que todos sentimos quando perdemos alguma pessoa querida.

Perda do pai

No entanto, não precisamos seguir assim. Há coisas que podemos fazer para mudar essa situação. Isso pode começar por termos mais coragem de trazer o assunto da morte a nossas rodas de conversa e de escutar de maneira empática os nossos amigos que estão passando por situações de luto.

Recentemente, um dos guardiões do Brotherhood, o querido Thiago Tedros, passou pela experiência de perda de seu pai. O Thiago é conhecido por ser um cara muito alegre e ter um coração enorme e sensível. Às vezes, até é comparado a um cão labrador, que costuma ser muito animado e companheiro. No entanto, o câncer de próstata descoberto pelo seu pai há quatro anos voltou a atacar e o sorriso do Thiago em nossos encontros foi muitas vezes substituído por momentos de choro.

homens

Crédito: Tom Pumford | Unsplash

Neste ano, após uma operação para tentar combater o tumor, houve metástase óssea na bacia e o pai do Thiago passou 45 dias internado até vir a falecer no último dia 18 de julho. Nesse período, ele ainda contraiu a Covid-19, o que provavelmente acelerou a sua partida. Desde então, o Thiago vem lidando com o processo de luto e eu e os demais homens que participam da nossa comunidade temos tentado apoiá-lo.

“Meu pai não ia querer me ver chorando”

Em uma conversa recente, eu perguntei ao Thiago se ele estava tendo dificuldade por ser homem para lidar com a morte de seu pai. Ele iniciou a resposta me contando sobre a conversa que teve com um outro amigo que também havia perdido o pai recentemente. Ao ser perguntado como estava, esse amigo não falou muito, mostrava-se como uma fortaleza. Antes de tudo, tentava  aparentar força,  evitar transparecer o que estava sentindo. Apesar disso, o Thiago notou um choro contido e uma voz contidamente trêmula.

Isso não foi novidade para ele. Durante quase um mês após a morte do seu pai — com a família sofrendo e as atividades pós-morte a serem cuidadas — o Thiago vestiu a máscara da força e da firmeza e aparentou estar bem para as pessoas. Quando lembrava de seu pai e do modelo de homem que ele foi, Thiago pensava “meu pai não ia querer me ver chorando”.

Esse represamento do que estava sentindo uma hora veio à tona. Thiago me contou que se lembrou de uma das últimas conversas que teve com seu pai no hospital. Falaram sobre sentimentos. Seu pai lhe disse que nunca soube como falar sobre isso e que admirava quando via o filho se expressando abertamente. Via força quando o filho falava das emoções e disse que acreditava ter feito a coisa certa por ter um filho assim. Após essa conversa, Thiago tirou a máscara da firmeza e da força. Por fim,  após todo o choro represado, sentiu um enorme alívio ao se permitir dar vazão ao que estava sentindo.

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Crédito: Ben Hershey | Uunsplash

Apoio dos amigos

Alguns dias após ter se permitido entrar em contato com suas emoções, o Thiago fez uma fala emocionada no encontro do Brotherhood sobre relação com pai e paternidade no mês de agosto. Um dos outros participantes compartilhou que seu pai estava enfrentando um câncer. Ao ouvir isso, o Thiago me contou que foi como uma permissão para trazer ao grupo tudo que estava sentindo. Sua fala foi muito tocante e o choro foi livre. Depois, ele me disse que não estava mal. Estava triste, sim, mas, ao ter criado o espaço para poder chorar e ser acolhido enquanto o fazia, o fez se sentir bem e ter uma sensação diferente de força.

Antes desse encontro inesquecível, o Thiago já vinha compartilhando sobre o que estava passando desde o início do ano nas nossas reuniões de trabalho dos guardiões, um grupo menor de seis homens. Quando conversei com ele sobre este texto, ele me contou que essas conversas foram fundamentais durante todo o processo do seu pai —  do câncer até a morte. Simplesmente poder se expressar e receber escuta e apoio antes de nossas reuniões de trabalho já lhe dava mais energia para seguir com o dia e os desafios que enfrentava.

Luto é um processo

O Thiago ainda está no processo de luto. Ainda lida com a saudade do pai e também com a raiva por atos que o pai cometeu em vida. Segue buscando amar seu pai como ele foi para seguir caminhando pela vida. Assim, ele é um exemplo para mim de um homem que está se permitindo viver o momento de luto de uma maneira mais integral.

Como o Thiago me disse em um momento nesse processo, a vida não é um conto de fadas. A morte é parte integrante da vida, viver é morrer. E se soubermos lidar com a morte com mais sabedoria a nossa vida se tornará melhor, pois não negaremos e não agiremos como se ela não fosse acontecer com nós mesmos e com as pessoas que amamos. E será muito benéfico se nós homens nos permitirmos sentir mais o que enfrentamos nesses momentos.

Em tempo: se você está passando por um processo de luto, pode te ajudar conhecer os projetos Luto do Homem e Death Café.


Luiz Eduardo Alcantara, atua na área da justiça, é um dos guardiões do Brotherhood Brasil e um curioso sobre os papéis dos homens na sociedade

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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