Força nas pernas

  • Eugenio Mussak

Precisamos criar lucidez para interpretar emoções negativas e também capacidade de desenvolver as positivas

 

O avião já está em seu procedimento de descida, momento em que algumas turbulências são comuns. Eu viajo muito e estou acostumado. Só que hoje estou prestes a pousar em um aeroporto novo para mim, localizado naquela pontinha do continente que separa o Mar do Caribe do Golfo do México. E, claro, como os pensamentos têm vida própria, e as lembranças também, me vem à cabeça que estamos perto do Triângulo das Bermudas, com todos seus mistérios. Ai, que medo…

Bobagem, eu sei. Primeiro porque estamos longe do triângulo misterioso. Segundo porque estou a bordo de um avião de última geração, o dia está lindo e a viagem foi ótima até aqui. Além disso, o perigo de tal triângulo é mais lenda do que fato. Por que o medinho bobo, então? Essa é a questão. Por que sofremos, às vezes intencionalmente, considerando que temos à nossa disposição elementos que permitiriam que vivêssemos melhor se nos dispuséssemos a utilizá-los?

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Por acaso minha leitura de bordo foi exatamente sobre esse assunto: os sentimentos e nossa capacidade de influenciá-los. Acontece que nós, os humanos, além de respirar, comer, andar, reproduzir e pensar, também sentimos. Faz parte de nossa fisiologia ter sentimentos, para isso desenvolvemos o sistema límbico, há sabe-se lá quanto tempo. E, entre os sentimentos que nos habitam, existem os que nos dão prazer e alegria, e outros que fazem o oposto disso, os chamados sentimentos ruins. Mas será que são mesmo ruins?

Emoções negativas

O autor coloca três emoções negativas a partir das quais todas as outras seriam construídas: o medo, a tristeza e a raiva. O medo é a reação a um perigo iminente. A tristeza vem da sensação de perda. A raiva é a resposta a uma invasão que estamos sofrendo. Perigo, perda e invasão. Três coisas que nem sempre conseguimos evitar,
pois são ações que vêm de fora de nós, por vezes inesperadas e incontroláveis. Por isso sentimos o que sentimos. E, ao sentir, reagimos. As emoções negativas são sinais de alerta que nos tiram de uma posição de passiva tranquilidade e nos colocam no campo de batalha. Na verdade, é altamente positivo sentir, avaliar os motivos de tais sentimentos, e então agir. Só que nem sempre é fácil assim…

Tais emoções são desconfortáveis, daí terem sido chamadas de negativas. Definitivamente não é agradável sentir medo, tristeza ou raiva. Preferimos mil vezes sentir calma, alegria e amorosidade, por exemplo. Mas a vida é feita dessa miríade de emoções que se alternam como crianças em uma gangorra. Precisamos é ter força nas pernas emocionais para impulsionar a gangorra para cima quando a ponta que nos faz sofrer teima em ficar no alto.

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E a tal força pode ser treinada, sim. Uma personalidade estruturada sinaliza um caminho interessante: enquanto muitos tentam evitar os motivos que geram emoções negativas, outros constroem as razões para desencadear sentimentos positivos. Esse é, atualmente, o tema central da psicologia positiva, que defende que o psicólogo não deve só atenuar o sofrimento, mas também dotar a pessoa de instrumentos a serem usados na construção de uma vida melhor, com mais serenidade e equilíbrio.

Processo natural de evolução

Na verdade, as chamadas emoções negativas são resultado de nosso processo natural de evolução, já percebido e explicado pelo inglês mais curioso que já existiu: Charles Darwin. Segundo ele, aqueles que tivessem mais rapidamente a percepção do medo, da tristeza e da raiva, e que mais rapidamente reagissem a eles, teriam mais chance de sobreviver e de legar seus genes para novas gerações.

Ponto de equilíbrio

A análise darwiniana foi feita sobre a natureza, a respeito da vida de animais em ambientes inóspitos. A natureza é bela, sim, mas ela encerra a crueldade própria da luta pela sobrevivência. Só que o estágio em que a humanidade se encontra é bem diferente. Nossa sobrevivência física está infinitamente menos ameaçada do que a de nossos ancestrais. Por outro lado, não se pode dizer o mesmo sobre nossa sobrevivência emocional: há mais agressão ao ego, ao orgulho e à autoestima. Até parece que gostamos de nos manter em sofrimento. Quando não há causa real de ameaça, tratamos de procurar uma que justifique a preocupação, o estresse e a angústia.

É evidente que existem causas concretas para o sofrimento. O ponto central é criar lucidez para perceber quando essa agressão é real, e quando não passa de fruto do lado negro de nossa imaginação – como o Triângulo das Bermudas, por exemplo.

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O caminho (simples, mas não fácil) parece contar com dois elementos: lucidez para interpretar as causas das emoções negativas e capacidade de desenvolver as positivas, fontes de energia para que as pernas emocionais deem o impulso necessário para que a gangorra reverta a posição – ou, pelo menos, atinja o ponto de equilíbrio.

 

Eugenio Mussak lia, durante a viagem, Felicidade Autêntica, do psicólogo Martin Seligman. @eugeniomussak


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Ao olhar para nossas emoções, compreendemos que a estabilidade é um empenho permanente. O caminho para harmonia surge quando estamos bem com nós mesmos.



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