Filme narra a viagem de um psiquiatra em busca da felicidade

  • Juliana Reis
  • FOTOGRAFIA: Mantas Hesthaven | Unsplash

Que tal não nos preocuparmos tanto com a busca da felicidade, mas sim com a felicidade da busca?

Quantos de nós conseguimos nos lembrar daquele momento da infância em que vivenciamos a felicidade como um estado de ser? Aquele momento em que tudo em nosso mundo, por dentro e por fora, estava bem. Mas agora nos tornamos adultos e está tudo errado o tempo todo!

A reflexão vem de Hector e a Procura da Felicidade, um filme que conta a história de um psiquiatra desiludido viajando em busca de respostas sobre o que nos faz feliz.

A imagem de um Hector menino aparece repetidamente durante o filme — como um espectro avisando que o estado de plenitude ainda existe, embora o Hector adulto não consiga acessá-lo. Foi na gaveta de meias que talvez ele tenha acessado a felicidade pela última vez. Lá, ele guarda uma foto antiga na qual sorri acompanhado da ex-namorada e de um grande amigo. O trio está dividido agora. Cada um está vivendo sua própria vida num país diferente.

O viajante teórico

Hoje, Hector é um psiquiatra em Londres. E ele tenta e tenta ajudar seus pacientes. Mas não consegue. Por isso está infeliz. Diz que eles se consideram irremediáveis. Vivem apegados à dor — ela parece mais interessante do que o contentamento. Incomodado, arruma as malas e sai pelo mundo em busca de respostas.

— Preciso sair para pesquisar a felicidade. Sinto-me um viajante teórico dando conselhos sobre o mundo!  — explica à namorada, deixando para trás a moça perplexa e o relacionamento “perfeitinho” por um fio.

Ele vai para a China, Tibet, África e Estados Unidos. Fica amigo de um banqueiro rico e sisudo que evita abraços. É sequestrado por guerrilheiros. Ganha a afeição de um traficante. Ajuda uma mulher muito doente durante um voo. Participa de uma ação humanitária. Tem sua paciência testada por um aprendiz de monge que lhe bate a porta do monastério na cara só porque é segunda-feira… E assim por diante.

Além de tudo isso, é instigado por outro velho monge a pensar melhor — “Hector, mais importante do que o que estamos procurando, é o que estamos evitando”, diz ele.

A cada encontro, Hector aprende algo sobre a felicidade e anota a conclusão em um caderninho.

Tomografia da felicidade

Finalmente, ele reencontra o antigo amor em Los Angeles. A ex-namorada — a da foto na gaveta de meias — lhe apresenta um professor da faculdade de Psicologia, Dr. Coreman, autor do livro “Efeitos colaterais podem incluir a felicidade”, e daquela reflexão sobre a infância ser a detentora natural do estado feliz. Ele examina a cabeça de Hector usando uma engenhoca que filma as emoções desencadeadas no cérebro a partir de pensamentos e situações diversas.

O objetivo da “tomografia mágica” é descobrir como e onde a felicidade nasce. Acontece que durante o exame, o telefone de Hector toca e ele atende contrariando as regras e arriscando comprometer o experimento. É a namorada atual, de Londres, avisando que o ama e está grávida. Medo, desejo, saudade, dor, susto e amor são acionados todos ao mesmo tempo na cabeça do viajante buscador.

Fora da cabine, numa tela de vídeo, o professor observa o cérebro de sua cobaia: lá vem a felicidade chegando… Ela está lá, sim, pulsando dentro de Hector, crescendo e crescendo a partir da movimentação de todas as emoções acionadas de uma vez só.

É o estado da infância mencionado por Dr. Coreman, é o que o monge tibetano tentou explicar a Hector. É a condição de entregar-se à busca e ao que a vida nos apresenta. Essa circunstância gera toda a sorte de sentimentos e emoções, e seu efeito colateral é a felicidade.

O efeito transverso de uma viagem

No entanto, quanto mais nos concentramos em nossa própria felicidade pessoal, diz o Dr. Coreman, mais ela foge de nós. Na verdade, só quando estamos pensando em outra coisa, inspirados, concentrados, brincando, descobrindo, dançando algumas vezes — ou sei lá mais o quê que não pareça assim tão importante, urgente ou obrigatório — é que experimentamos a felicidade como um subproduto, um efeito transverso. Como um efeito colateral!

Enquanto assistia ao filme, entendi por que tantas pessoas amam viajar mesmo quando a viagem inclui situações de estranhamento. No meio do turbilhão de emoções, a felicidade surge.

Apesar da viagem ter sido a forma que Hector — e eu, e muitos outros viajantes — escolheu para encontrar a felicidade, ela não tem que ser o único meio.

Recentemente, observei alguns peregrinos debatendo sobre algo que os acomete com frequência: a vontade de nunca mais voltar. Mas de que vale a viagem se ela não nos dá meios para ser alguém mais feliz e mais resiliente quando não estivermos viajando? Tornar-se dependente da estrada também é um tipo de prisão.

A volta

Hector volta para casa trazendo uma bagagem emocional mais robusta, sendo capaz de conduzir melhor seus pacientes. Escolhe se casar. Mas também poderia ter escolhido qualquer outra coisa, sem problemas; agora ele sabe que cada um tem sua própria régua para definir e medir felicidade.

Durante a cerimônia de casamento, a imagem de sua versão criança — aquela que se entrelaça nas cenas durante toda a história — finalmente se funde à imagem do adulto que ele é hoje. Hector está naquele momento em que tudo em seu mundo, por dentro e por fora, está bem.

busca da felicidade

Crédito: Clay Banks | Unsplash

As anotações no caderno de Hector durante a busca da felicidade

  1. Fazer comparações pode estragar sua felicidade.
  2. Muitas pessoas pensam que felicidade significa ser mais rico.
  3. Muitas pessoas só enxergam a felicidade no futuro.
  4. Felicidade pode ser a liberdade de amar mais de uma mulher ao mesmo tempo.
  5. Às vezes, felicidade é não saber toda a história.
  6. Evitar a infelicidade não é o caminho para a felicidade.
  7. A pessoa que te acompanha faz você: A) bem feliz? ou B) bem triste?
  8. Felicidade é responder ao seu chamado.
  9. Felicidade é ser amado por ser quem você é.
  10. (Felicidade é) Ensopado de batata-doce!
  11. O medo é um impedimento para a felicidade.
  12. A felicidade é sentir-se completamente vivo.
  13. Felicidade é saber comemorar.
  14. Ouvir o outro é amar.
  15. A nostalgia não é o que costumava ser. (ou: prender-se a uma fantasia atrasa o encontro com a felicidade)
  16. A verdadeira felicidade não é apenas uma emoção, mas todas juntas.

Se puder, assista à viagem de Hector. O efeito colateral pode incluir…felicidade.

 


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COMENTÁRIOS

  • Eveline Salles

    Adorei o texto da Juliana Reis. Simplesmente sensacional!

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    • Vida Simples

      Ela arrasa, né?! Temos outros textos dela aqui, basta procurar por “Juliana Reis” na busca do site e desfrutar de suas palavras 🙂

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  • Patrícia

    Que relato maravilhoso!!! Amei!

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    • Vida Simples

      Que bom que gostou, Patrícia! Teve alguma parte que te tocou mais? Caso queira compartilhar, iremos adorar 🙂

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  • Maria Cecilia

    Adorei o texto da Juliana!
    Viajar , caminhar, são paixões da minha vida!
    Ele bate de encontro às nossas buscas!

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    • Vida Simples

      Que bom que gostou, Maria Ceciclia! Para ler mais textos dela, basta buscar seu nome no site 🙂
      Sobre suas paixões, fiquei curiosa: você as cultiva com frequência?

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  • Aline

    Ameis seu texto, Juliana. Me deu até vontade de fazer as malas e ir. Parabéns!

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    • Vida Simples

      Compartilho da vontade, viu Aline?! Para ler mais textos da Juliana, basta ir na busca do site, digitar o nome dela e aproveitar 🙂

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