Falar sem medo sobre Machismo

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  • FOTOGRAFIA: Mubariz Mehdizadeh | Unsplash

O árduo caminho para a desconstrução do machismo.

Não lembro quando foi a primeira vez que ouvi a palavra machismo. Porém, sei que desde que compreendi seu significado eu não queria ser associado a ela. De forma geral, podemos definir machismo como um preconceito que se expressa por ações contrárias à igualdade de direitos entre homens e mulheres, privilegiando aqueles em detrimento delas. E eu, buscando ser um bom rapaz e depois um bom homem, não queria ser visto como alguém que pensa ou age assim.

Lembro de uma vez quando estava na faculdade conversando com colegas. Em um determinado momento, fiz um comentário sobre a suposta diferença entre mulheres com quem gostaria de me relacionar de forma séria e aquelas com quem gostaria apenas de me divertir. Durante a conversa, não notei nenhum incômodo na roda e a conversa seguiu. No entanto, algum tempo depois, uma das minhas amigas que estava naquele dia veio falar individualmente comigo sobre como aquele comentário era machista. Pois poderia implicar em um julgamento e controle de como as mulheres deveriam ser ou se comportar, e de como o olhar masculino deveria ditar esse comportamento.

Machismo sutil

Não foi fácil ouvir aquilo. Além de ser uma grande amiga e eu não querer que ela me associasse ao machismo, eu já tinha iniciado reflexões sobre a minha masculinidade, conversava com as minhas amigas sobre equidade de gênero e me considerava um apoiador dessa causa. Como eu poderia ser machista? Foi a primeira coisa que me veio à mente e minha reação imediata foi tentar argumentar que meu comentário não tinha o sentido que ela entendeu.

Minha amiga persistiu na sua missão de ensinar o que para ela era (e para mim deveria ser) o óbvio. Foi então que eu fiquei quieto e resolvi receber aquele comentário como mais um aprendizado fundamental nessa árdua e reveladora caminhada de desconstrução do machismo. Esse episódio foi marcante na minha vida e acredito que ele traz diversos pontos importantes que merecem destaque.

machismo hoje

Crédito: Rana Sawalha | Unsplash

Sem medo da palavra

Um passo importante para começarmos uma verdadeira transformação é nomearmos o que está acontecendo e sermos capazes de ficar com aquilo, sem negar e sem querer já apresentar uma solução. Não termos medo de falar abertamente sobre machismo ou qualquer outra forma de preconceito ou discriminação, como racismo ou lgbtfobia. Dessa forma, é importante tirarmos a carga adicional sobre a palavra e adquirirmos a confiança de que podemos agir diferente.

É importante ficar claro que o machismo não se manifesta apenas na violência física contra a mulher, em abusos sexuais ou em agressões verbais. Mas também na divisão desigual de tarefas domésticas, nas diferenças salariais e, claro, no controle do comportamento das mulheres.

Atos machistas

O medo que eu sentia de ser associado ao machismo fez com que imediatamente me sentisse ofendido quando minha amiga me chamou a atenção. E a minha primeira reação foi negar, tentando justificar a minha intenção. Ter a capacidade de ouvir que praticamos atos machistas e ficar com aquilo, refletir sobre nossa ação, sem querer imediatamente contra argumentar. Ou já querer fazer algo a respeito, pode nos ajudar a diminuir o peso desnecessário que muitas vezes colocamos na palavra.

Para conseguirmos falar mais abertamente sobre o assunto, pode nos ajudar o reconhecimento de que todas as pessoas estão sujeitas a praticar atos machistas.

Todos somos machistas

Assim, uns anos depois daquele acontecimento na faculdade, quando eu já estava imerso nas reflexões sobre masculinidades, ouvi de um amigo que conheci nos encontros do Brotherhood  que “o primeiro machista que eu encontro todo dia, sou eu mesmo, quando me olho no espelho”. Ele repetia essa frase muitas vezes e eu acho que é um bom lembrete.

Nós vivemos em uma sociedade profundamente machista em que homens ainda ocupam majoritariamente as principais posições de poder. Apesar de significativos avanços conquistados pelas mulheres, a cultura, a educação e os valores que recebemos desde crianças reforçam essa estrutura social que não promove a igualdade de direitos entre as pessoas.

Todos somos machistas porque vivemos nessa sociedade que se mantém através de nós, mesmo que não queiramos. Eu não sou em essência machista, mas devo vigiar meus atos e ser capaz de escutar e aprender quando me apontam falhas.

machismo

Crédito: Karl Fredrickson | Unsplash

Nossas ações individuais importam

Reconhecer que todas as pessoas estão sujeitas a praticar atos machistas. E, que, portanto, o machismo não é um problema individual, faz com que percebamos que ninguém está inocente e todo mundo tem responsabilidade. O fato da minha amiga ter me chamado para uma conversa e dito que o que eu fiz foi machista, não que eu era machista contribui para isso. Eu deixo de ver o indivíduo homem de carne e osso como inimigo. E dessa forma, também não me sinto ofendido quando ela ou qualquer outra mulher aponta um ato machista que cometi.

Por outro lado, reconhecer que o problema é estrutural, não faz com que eu seja condescendente com meus atos. Eu sigo buscando melhorar e observar minhas ações porque estou imerso nessa cultura e estou sujeito a escorregar e cometer atos preconceituosos. As minhas ações importam, como importou na conversa com meus amigos na faculdade, elas moldam o homem que me torno a cada dia e contribuem ou não para a desconstrução do machismo na sociedade.

Dizendo que ato foi machista

Um último ponto que gostaria de explorar nesse episódio foi o fato da minha amiga e não um amigo, ter tido a coragem e paciência de vir me apontar que cometi um ato machista e como aquilo a impactou. Eu me importo com ela e não quero que meus atos causem danos a ela ou a qualquer pessoa. No entanto, se todos somos parte do problema do machismo, nós homens devemos também assumir a responsabilidade de contribuir para sua solução.

Uma pesquisa do Instituto Avon de 2016 intitulada “O papel do Homem na desconstrução do machismo” identificou que 35% dos homens que pararam de ter atitudes machistas mudaram seu comportamento porque algum amigo ou parente chamou sua atenção.

Ao perdermos o medo de falarmos abertamente sobre machismo, tomamos consciência de que há pessoas que são ofendidas por nossos atos. Com isso, podemos não apenas mudar nossa atitude. Mas também conversar com colegas, amigos e parentes para que deixem de praticar atos machistas.


Luiz Eduardo Alcantara, atua na área da justiça, é um dos guardiões do Brotherhood Brasil e um curioso sobre os papéis dos homens na sociedade

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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