Exaustão não é procrastinação

  • Thais Basile
  • FOTOGRAFIA: Ivan Aleksic | Unsplash

Quando somos levados a confundir cansaço com preguiça, podemos nos culpar e esse autojulgamento não nos ajuda a sair do lugar.

Algum tempo depois que Lorena nasceu, eu parei de trabalhar para empresas e virei autônoma, trabalhando na maior parte do tempo de casa. O pai da Lorena ficou um tempo desempregado, e dividia comigo as tarefas em casa e o cuidado dela.

Assim, quando ele arrumou emprego eu fiquei com o cuidado da Lorena, da casa, comida, roupas, faxina… E MAIS o meu trabalho formal: atendimentos e gerenciamento da página. Muitos dias eu olhei para outras profissionais que a todo mês lançavam mentorias, rodas terapêuticas, cursos, pessoas que colocavam cinco cores de comida no prato todos os dias (e eu três dias no mesmo arroz e feijão, só mudando a “mistura”) e me perguntei o que tinha de errado comigo que não conseguia produzir igual.

É só querer

Para vocês verem que mesmo sabendo do processo neoliberal/patriarcal perverso que nos faz culpar a nós mesmas pela sobrecarga imposta estruturalmente, não estamos salvas de cair nas garras dele. Uma mentira, quando repetida à exaustão, pode nos fazer acreditar que é verdade, quando não é. É o caso do famoso “é só querer”.

Hoje com marido de volta em casa, dividindo trabalho formal e de cuidado comigo, eu me pego dizendo “ah então é assim que se parece cozinhar sem tanta pressa”, “Ah então isso que é trabalhar com apoio, sem sentir tanta angústia por não saber resolver tudo sozinha”.

exaustão

Crédito: Naomi August | Unsplash

Cuidados com crenças

Por fim, é preciso parar de nos responsabilizar pessoalmente por problemas que são maiores que nós, e parar de direcionar para nós mesmas a raiva que sentimos por “não dar conta”. Existe procrastinação feminina? Claro.

Afinal, todas nós sentimos um pouco de medo do sucesso, porque por muitos anos nos disseram que éramos somente apoio do sucesso alheio (masculino, em geral), e muito medo do fracasso. Por isso, muitas vezes nem começamos. Entretanto,  precisamos ter muito cuidado para não chamar exaustão de procrastinação. Porque nosso olhar está colonizado para ir exatamente por esse caminho.


THAIS BASILE é mãe da Lorena, psicanalista, escritora, palestrante, especialista em psicopedagogia e educadora parental. Eterna estudante e apaixonada por relações humanas e por tudo que a infância tem a ensinar. Compartilha seu conhecimento para uma educação mais respeitosa no Educação para a paz.

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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