Eu tenho depressão

  • Diogo Rodriguez
  • FOTOGRAFIA: Rawpixel | iStock

Minha esperança é que falar sobre a depressão de uma maneira clara, precisa e humana vai ajudar a sociedade a entender essa doença, minimizando os impactos que ela causa em todos

Olá, meu nome é Diogo Rodriguez. Sou jornalista há mais de 10 anos e fui diagnosticado como depressivo há quatro. Desconfio que tenho depressão há mais tempo do que isso, mas o carimbo do médico só veio em 2015. Desde então, venho me tratando com terapia, remédios e outras técnicas, principalmente a meditação.

O primeiro impulso em direção à uma compreensão maior a respeito desta condição veio justamente a partir de uma matéria que fiz para a Vida Simples há alguns anos. O texto falava sobre a ansiedade e maneiras de lidar com ela. Durante a pesquisa, li “O Estilo Emocional do Cérebro”, de Richard Davidson. Comecei a compreender que a saúde mental é um assunto muito complexo –e precisa ser discutido em público. 

Decidi começar a escrever sobre esse assunto porque sinto falta de uma boa cobertura a respeito da depressão na imprensa. Jornais, revistas e sites publicam artigos esparsos sobre o assunto, mas raramente a gente tem uma boa visão geral a respeito dessa doença mental. Na internet, existe muito conteúdo de baixa qualidade. 

Estudo a depressão e a ansiedade desde que fui diagnosticado. Decidi que era hora de criar uma cobertura séria e humana. Minha ideia é dar um panorama completo do que é verdade ou mito, do que a gente sabe de fato sobre a depressão e o que é apenas especulação. Por isso, é essencial usar a ciência como base. 

Todos os conteúdos serão rigorosamente chancelados por pesquisas científicas sérias do Brasil e do mundo. Não quero dar falsas esperanças a quem sofre diariamente com essa doença. Esse é um compromisso inegociável. 

Para ter certeza de que estou falando de assuntos relevantes e úteis, estarei em contato direto com a comunidade de portadores de depressão. Essas pessoas são ativas no WhatsApp, no Facebook e em grupos de apoio. Conhecem melhor do que ninguém a epopeia que é procurar o melhor tratamento para minimizar o sofrimento. 

É para ajudar essas pessoas que vou começar a escrever sobre o assunto: essa é a minha missão. 

Sei, no entanto, que a depressão é uma doença que não tem impacto apenas no indivíduo. Quem está próximo do portador tem de lidar com uma condição misteriosa, que se manifesta de maneiras diferentes e pode mudar (muito) ao longo dos anos. Amigos, parceiros e familiares não têm a quem recorrer quando precisam entender o que fazer para ajudar alguém próximo que tem depressão. 

Por isso, minha outra missão é fornecer informações para quem está próximo de nós, os portadores de depressão, e para o resto da comunidade estendida (colegas, chefes, etc). Creio que assim será possível desfazer alguns dos mitos relativos à doença e oferecer informações que podem ser muito úteis. 

Minha esperança é que falar sobre a depressão de uma maneira clara, precisa e humana vai ajudar a sociedade a entender essa doença, minimizando os impactos que ela causa em todos. Eu mesmo aprendi a duras penas que um dos melhores remédios contra essa condição assustadora é falar abertamente sobre ela. 

Quanto mais explico, estudo e compartilho sobre minha depressão, mais sinto que sou acolhido por meus amigos, familiares e colegas. E espero que esta coluna ajude mais gente a fazer o mesmo. 

Quero sempre estar aberto a dúvidas, sugestões, críticas e desabafos. Assim, creio eu, sempre estarei conectado com as necessidades dos meus leitores. Então, sintam-se à vontade para conversar comigo. Meus contatos estão no fim desta página. 

Essa é a primeira vez em que falo publicamente sobre minha depressão. Apesar do receio estou sentindo, acredito firmemente na necessidade de falar abertamente sobre ela. E tenho fé de que vou poder ajudar mais gente a não ter vergonha de admitir, nem que seja em frente ao espelho: “Eu tenho depressão”.

 

Diogo Rodriguez é jornalista e foi diagnosticado com depressão há cinco anos. Desde então, vem estudando o assunto. Escreve neste espaço às quintas-feiras –e divide mais sobre o tema no perfil @falandodepressao. Para conversar com ele e compartilhar sua experiência com saúde mental, mande um e-mail para [email protected]


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COMENTÁRIOS

  • André Freir

    Que ótima notícia ter o Diogo escrevendo sobre um tema tão relevante quanto esse. Parabéns pelo texto e pela coragem de puxar um assunto tão relevante! Precisamos falar sobre depressão abertamente!

    Responder
  • Flavio Lamas

    acho muito salutar sua posição de falar mais da depressão, as pessoas tem q entender que eh uma doenca cronica como outra qualquer, que nao escolhe o alvo e que a pessoa nao tem culpa de ter adquirido.

    o proprio paciente muitas vezes nao segue recomendações medicas ou sequer vai no medico por preconceito que a sociedade tem imputado nos psiquiatras e psicologos como medicos exclusivos para loucos e, fazendo isso, pioram a condição de tratamento do paciente.

    eu sofro de depressao desde 2009, minhas crises cronificaram ao longo do tempo após virar docente no instituto federal. tomei meus remedios(apos tentar tres combinacoes diferentes, o q funcionou foi zoloft 200mg e e diazepan a noite ou pra crises) fiz diversas linhas de terapias( a q funcionou pra mim foi psicodrama).

    tive alta apos um ano de remedios , e voltei a ter crises apos um ano, voltei aos remedios por 2 anos(trocando diazepan por rivotril 2mg por 6 meses e tirando ele depois pra entrar com donarem 50mg a noite pra dormir sem ficar viciado em rivotril) , tive nova alta, e recai um ano depois.

    essa ultima crise foi tao forte q tentei mais umas 4 combinações de remédios e nada , tive que ficar 6 meses afastado do servico, fui recomendado a fazer estimulação magnética transcraniana (EMT) por 2 meses(devo dizer q foi o procedimento mais milagroso q eu tive ate hoje) ate que encontramos uma nova combinação, Imense 100mg pela manha e Quet 100mg a noite.

    Meu psiquiatra ja recomendou tomar remedios pra sempre, e eu nao achei ruim nao, se for pra controlar depressao como uma diabetes, que tb eh cronica e ainda nao acharam cura, sou 100% a favor, o triste eh que mesmo com os remedios e terapia(hoje faco hipnose tb alem do psicodrama mensal) a gente ainda pode ter algum dia meio pra baixo e ficar com medo de ser depressão. aquela coisa de q gato escaldado tem medo de agua fria ne?

    sobre tratamentos e terapias inovadoras, temos a EMT como ja disse, agora existe a tratamento offlabel nos eua e no brasil de infusao de ketamina para casos mais resistentes tendo otimos resultados com grande velocidade inclusive pra casos de suicidas , tambem temos o sequenciamento de dna pra super personalizacao de tratamento psiquiátrico inclusive sendo oferecido no brasil pela GNTECH (entre outtas empresas) , esse exame ajuda a identificar quais remedios teriam melhores efeitos pro paciente em questão…

    espero ter ajudado de alguma forma e gostaria muito de ter uma forma de subscribe nos seus textos para eu ir vendo novas postagens suas sobre o tema. obrigado por publicar isso e tornar a depressao uma doenca maia conhecida e com menos preconceitos…

    att,
    LAMAS

    Responder
  • Flavio

    Estou em tratamento, ou fugindo dele às vezes, desde 2006. No começo só à base de medicação, e há 4 anos, terapia. Nesse meio tempo fiz muita coisa pra tentar suprimir a sensação horrível de abandono e falta total de vontade de viver. Não tentei o suicídio porque felizmente não tenho coragem pra isso. Mas me afundei no álcool, na cocaína, quando não estava usando estas coisas chegava em casa e tomava doses cavalares de Zolpidem pra dormir instantaneamente e não ter que lidar com meus pensamentos. Hoje estou limpo, passo na média 15 dias bem e 10 dias muito mal. Me acostumei com isso, antes isso me cansava, hoje eu apenas aceitei que vai ser assim pra sempre, apesar da minha psicóloga e psiquiatra não concordar com essa ideia, e dizendo que apenas não encontramos ainda uma solução. Enfim, vou seguindo, aproveito os dias bons, mas sei que os ruins vão vir. E da mesma maneira que os dias bons somem, os ruins também. Não tenho o que reclamar da vida. Tenho um padrão de vida financeiro acima da média, amigos que se preocupam, uma namorada que faz de tudo por mim. Perdi minha mãe com 2 anos, meu pai nunca se importou comigo, a razão de tudo com certeza está aí, mas não sei até que ponto quero mexer nisso, porque justamente quando parei pra pensar como sempre me senti rejeitado por mulheres, e o medo que tinha delas (e que na verdade nunca foi real, nunca fui rejeitado, pelo contrário), e fiz essa ligação com o tratamento que ganhei da minha madrasta na infância foi quando tudo de ruim começou pra mim.

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