“Conhece-te a ti mesmo”: a conquista do seu lugar no mundo

  • Margot Cardoso
  • FOTOGRAFIA: Mathieu Stern | Unsplash

Ao invés de buscar na nossa essência quem somos e o que temos para oferecer ao mundo, gastamos tempo e energia imitando ou se comparando com os outros.

Somos ensinados desde cedo a conhecer e aprender com o mundo. O resultado dessa crença é que a imensa maioria das pessoas não vive exatamente no mundo, reage a ele. É o que Nietzsche chama de niilista reativo.

No sentido mais alargado é o individuo que não cria, não tem iniciativa, não tem capacidade de reflexão… Os efeitos perversos desse ensinamento aparece em todas as fases da vida.

Na infância, o reativo é aquele que critica. É a criança que na escola ri da roupa do outro, humilha os diferentes, faz bullying.

Na vida adulta, é o que se ocupa da vida alheia, o delator, o fofoqueiro, o manipulador, o que fiscaliza, o que controla…

O reativo pensa pouco sobre si. Sem conteúdo, não há sobre o que refletir. O nosso repertório interno precisa ser cultivado, ele não se faz sozinho.

Mas o reativo não tem tempo. Ele está ocupado demais confrontando o mundo. Toda a sua energia está direcionada para a reação.

Por trás de quase todo o mal na sociedade, há um reativo. Qual é a característica dominante do agressor, do contraventor, do adicto, do fundamentalista religioso? São reativos.

São indivíduos que reagem ao mundo que se apresenta. Os seus impulsos — sem controle e sem filtro —  estão no comando. Vivem no nível da semianimalidade.

Comem quando tem fome, agridem quando são ameaçados… Esse é o modelo em vigor. Diz-se que o mundo está ai e você tem de fazer um ajuste, um alinhamento para acompanhá-lo. A tarefa é seguir a manada. Esse modelo diz: use a cabeça (a razão) para conhecer o mundo. “O mundo te dará as respostas”. 

Ora, não seria assim se a filosofia fizesse parte da educação, porque ela diz exatamente o contrário. Desde Sócrates — passando por Spinoza, Nietzsche e Freud — o fundamento básico é: conheça você primeiro. O mundo só será importante quando ele contribuir para essa tarefa.

Não é por acaso que essa é a primeira e mais importante máxima da história do pensamento ocidental. Está lá, ainda hoje, nas ruínas gregas, o Templo de Apolo, o oráculo de Delfos com a inscrição “conhece-te a ti mesmo”.

Num tempo em que os homens buscavam antecipar o encontro com o mundo através da consulta aos oráculos  — havia dezenas deles espalhados pela Grécia, sendo Delfos o mais famoso — deparavam-se com esse aviso logo à entrada.

Foucault vai mais fundo e afirma que a tradução mais completa desse aviso é  “saiba bem qual é a natureza da tua pergunta antes de consultar o oráculo”. Antes de se dirigir ao mundo e interrogá-lo, saiba primeiro quem você é.  

Enquanto a cultura diz “o mundo é o mais importante”,  “esteja atento ao que o mundo espera de você”; a filosofia diz “é você primeiro”, “você tem a preferência”, “o mundo é instrumento, use o mundo para construir a si próprio”.

O mundo é um espelho que serve ao autoconhecimento. É através do que ele mostra que você identifica os seus talentos, suas inclinações, suas fragilidades, suas alegrias. E não se trata de menosprezar o mundo, é uma questão de primazia. Até porque há coisas que você só sabe, se o mundo te mostra. 

A vida autêntica só é possível quando eu presencio o diálogo entre o que eu sou e o mundo que se apresenta. Essa é a premissa de Sócrates, a vida que vale a pena é a vida examinada, é a autoanálise. 

O mundo só será importante quando ele permitir que você saiba quem você é. Não é por acaso que, de todos os hábitos do ser humano, o mais comum e o que traz mais sofrimento, é o querer  ser diferente do que se é. 

Gastamos tempo e energia imitando ou se comparando com os outros, ao invés de buscar na nossa essência quem e como somos e o que temos para oferecer ao mundo.  

A questão que se segue é: como se faz isso?  Seja um observador atento! Separe com precisão o seu “eu” e o mundo que está lá fora. 

A falta de divisão entre um e outro é fonte de engano e perdição. E pode ser um desastre. Afinal,  definitivamente, o mundo não é um lugar seguro (atenção: essa não é uma afirmação politicamente incorreta). Encare o mundo olho no olho, mas que o olhar seja clínico. E desconfie de quase tudo.  

Desconfiar… desconfiar… Pode não dar em nada. Pode não ser necessário. Mas é útil para o necessário estado de alerta, contribui para uma parada estratégica e pode funcionar como uma barreira. A desconfiança te situa, faz você pensar: “eu estou aqui e aquilo está lá. Eu quero aquilo para mim? Vai me edificar? Vai contribuir com o meu caminho? Eu quero isso? Isso me convém”. 

Conheça muito bem quais são os seus desejos a ponto de julgá-los: “quero isso e isso é bom, portanto vou trabalhar para obter”, “desejo aquilo, mas não é bom, não quero”.  

Para além dos efeitos no individuo singular, o “conhece-te a ti mesmo” é o caminho do bem praticado no mundo. Sócrates afirma que nenhum homem é capaz de praticar o mal conscientemente, pois o mal é o resultado da ignorância e da falta de autoconhecimento. 

Além de pavimentador do bem, é um escudo protetor: quem sabe quem realmente é, dá pouca importância à crítica e ao ataque dos outros. 

O mundo é voraz e embrulha tudo. Esquenta e esfria, aperta e solta, acelera e abranda, escraviza e liberta, agita e sossega, acolhe e hostiliza, alegra e entristece… 

Defina os seus próprios critérios e faça escolhas porque é impossível viver ao sabor de tudo o que ele oferece. Analise e mantenha uma reflexão permanente sobre como ele te afeta. 

É tarefa fácil? Não. Benjamin Franklin observou que “há três coisas extremamente duras: o aço, o diamante e conhecer a si mesmo”. Mas é o único caminho para sermos senhores na nossa própria história.

 

Margot Cardoso (@margotcardoso) é jornalista e pós-graduada em filosofia. Mora em Portugal há 16 anos, mas não perdeu seu adorável sotaque paulistano. Nesta coluna, semanalmente, conta histórias de vida e experiências sempre à luz dos grandes pensadores.


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