Entre-laços, de Naoko Ogigami

  • Suzana Vidigal
  • FOTOGRAFIA: Divulgação

Entre-Laços tem essa simbologia de viver um dia de cada vez – dentro do tão falado entendimento de que é preciso, realmente, dar tempo ao tempo até que as cicatrizes se fechem

 

Ninguém se cura da perda, da tristeza, do luto de uma hora pra outra. Curar-se leva tempo. Exige, primeiramente, persistência, resiliência. Exige recomeçar quando tudo fica difícil demais e pensar em desistir é o caminho mais fácil. E exige reconstrução. Mas antes de tudo, exige tomar a decisão de se curar. E aí começa o caminho.

Melhor seria se tivéssemos um plano para trilhar esse caminho e chegar no destino sãos e salvos, depois do terremoto passar. Um plano para remover os obstáculos que invariavelmente surgem, pra reorganizar nosso interior e exterior, pra se redescobrir, pra se reconhecer de novo. Mas, a verdade é que, quando estamos vulneráveis demais, planejar é tão árduo quanto caminhar. Caminha-se simplesmente, sem pensar muito o que encontraremos depois da próxima curva. O principal é movimentar-se, deixar para trás a paralisia causada pela dor.

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Tudo isso pra dizer que a cura vem nesse caminhar, recheado de momentos de reflexão, alívio e dor. Vem com o tempo e com ajuda preciosa de uma ferramenta que aprendi a cultivar, incorporei no meu dia a dia, e hoje carrego comigo pra onde for: o trabalho manual na forma do crochê. No momento em que minha dor maior já havia silenciado, em que minha calma já havia acordado de um longo sono, o manuseio das linhas me fez sair da razão e do intelecto, pra mergulhar no lugar do reencontro comigo mesma. Era a cura, continuando seu caminho dentro de mim.

Um dia de cada vez

No filme japonês Entre-Laços, da diretora japonesa Naoko Ogigami, não tem crochê, mas tem tricô. Que não é exatamente mesma coisa, mas o princípio é o mesmo. Conta a história da pequena Tomo, de 11 anos, que procura refúgio na casa do tio, Makio, quando a mãe abandona a filha e desaparece por um tempo. Tomo passa algumas semanas morando com ele e sua namorada, Rinko, que é uma mulher trans.

Com estranheza no começo, a relação vai sendo construída com afeto entre as duas e o tricô aparece com a mesma metáfora da cura – cada vez que Rinko sente raiva, tristeza, frustração, ela tricota. Até a raiva passar. Vai tecendo sua resiliência, seu plano de reencontro, seu sonho de se reconhecer de novo. Ensina o tricô pra sobrinha postiça e para o namorado e, juntos, resignificam os momentos de vivência da cura. Aliás, são cenas belíssimas as do tricô no parque, na praia, no sofá de casa.

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Entre-Laços tem essa simbologia de viver um dia de cada vez – dentro do tão falado entendimento de que é preciso, realmente, dar tempo ao tempo até que as cicatrizes se fechem. No tricô, no crochê, na pintura, na marcenaria, na jardinagem é sempre um cuidado depois do outro, um ponto depois do outro, pra poder vislumbrar o produto final. No caminhar é igual – não se chega a lugar nenhum sem um passo de cada vez. O processo de Rinko de se curar, de enterrar a sua masculinidade, de se sentir finalmente mulher, de se descobrir plena e apropriada de si mesma passa pelo poderoso trabalho manual. Inegavelmente, capaz de curar a alma, de verdade.

Onde assistir

Entre-Laços, de Naoko Ogigami (Japão, 2017)

Telecine Play, Oi Play, Vivo Play

 

Suzana Vidigal é tradutora, jornalista e cinéfila. Gosta de pensar que cada filme combina com um estado de espírito, mas gosta ainda mais de compartilhar com as pessoas a experiência que cada filme desperta na mente e na alma. Em 2009 criou o blog Cine Garimpo (www.cinegarimpo.com.br e @cinegarimpo) e traz, quinzenalmente, dicas de filmes pra saborear e refletir. 

 

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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