Empatia: você me compreende?

  • Margot Cardoso

Somos mais sensíveis àquilo que compreendemos — assim como tememos o desconhecido. Somos tendenciosos quando se trata de empatia. 

Quando um dilema nos aflige, questionamos “você me entende?” Se somos testemunhas da dor extrema de alguém dizemos “os meus sentimentos”. Diante de uma incompreensão, pedimos “por favor, coloque-se no meu lugar”. Em todas essas situações o que está em jogo é a empatia. Se considerarmos que a relação com o outro é condição da nossa humanidade, a empatia é o seu motor. Ela é a chave para a qualidade, a harmonia e a paz nas relações e, por isso, a sua ausência é duramente sentida. E ela é necessária em todas as esferas humanas — da relação amorosa à liderança política.

Não foram apenas os franceses que não perdoaram a falta de empatia de Maria Antonieta diante do povo que passava fome. O mundo também indignou-se com a célebre frase proferida pela última rainha da França: “se não tem pão, que comam brioches”. Às vezes, nem mesmo um soberano está dispensado da prática da empatia.

A prova mais recente de que a empatia também é um assunto de estado, vem da Dinamarca contemporânea. O pais escandinavo — considerado um dos mais felizes do mundo (5º lugar) — desde 1993 tem a empatia como disciplina escolar obrigatória para estudantes dos 6 aos 16 anos.  Os dinamarqueses reconheceram que a sua importância é de longo alcance: do bullying nas escolas à guerra. Só para exemplificar algumas das origens na ausência de empatia.

No entanto, a pergunta que segue é: e o Brasil? Não vou fazer suspense. Em um estudo global que mensurou o índice de empatia de 63 países, o Brasil ficou em 51º lugar. Aqui mais uma prova de que o autoproclamado “povo cordial” — como todos os autoelogios — são enganosos.

Como se ensina a empatia?

A opção do país escandinavo não é apenas pela importância da empatia na vida pessoal, social e política, mas também pelo desafio do seu exercício: não é uma prática fácil. Sofisticada e plural, a empatia pode ser definida como um conjunto complexo de atividades cerebrais que faz com que alguém experimente e interprete as ações, comportamentos, emoções e expectativas do outro. E, além disso, a partir desse conhecimento, ela exige uma ação, uma resposta atenciosa e preocupada com o outro. Esse combo conhecimento com a adição da ação é o que difere a empatia da bondade e da compaixão, por exemplo.

Os blocos de construção da empatia começam a ser construídos na infância e se desenvolvem pela vida afora — daí a importância de começar cedo. Em primeiro lugar, o exercício desse aprendizado é o “colocar-se no lugar do outro”. Só compreendemos uma experiência na sua totalidade quando a vivenciamos. O que ocorre é que nem sempre temos repertórios semelhantes. Nesse caso, o máximo que podemos fazer é ouvir atentamente o outro e exercitar a imaginação.

Não há para onde fugir, estamos sempre — quase de forma automática — esperando a empatia dos outros. Quando reclamamos o “coloque-se no meu lugar”, “se você estivesse na minha pele”, ou  “queria ver se fosse com você” estamos apelando à empatia do outro. Em inglês há a expressão muito ilustrativa, o correspondente “coloque-se no meu lugar” é “put yourself in my shoes”. Algo como  “quer saber como eu me sinto? Calce os meus sapatos”.

A biologia no comando

E não é apenas um aprendizado cognitivo, neurocientistas afirmam que o aprendizado da empatia tem uma base fisiológica, denominada de habilidade de espelhamento. Sim, a biologia também comanda a empatia. É o mesmo mecanismo que faz com que você boceje quando vê alguém bocejar. Nunca conseguimos ser indiferente ao sofrimento do outro, nem mesmo no cinema. Você já parou para pensar porque você chora no cinema — mesmo sabendo que aquele drama não é verdadeiro? É o espelhamento em ação.

A empatia é um bem para o mundo

empatia

Outro item que faz da empatia um assunto de estado é que ela não rege apenas as relações sociais, ela também ajuda a minimizar conflitos sociais e políticos. E aqui chegamos a um exemplo global de empatia. O acolhimento de refugiados só é possível após o exercício de empatia. Ora, só somos capazes de empatia quando compreendemos o outro. E como os refugiados vêm de outras culturas, passam por situações que nunca passamos (geralmente, guerras) a empatia é mais difícil. Como ter empatia por pessoas que não conhecemos pessoalmente e que passaram por experiências que nunca experimentamos? Somos mais sensíveis àquilo que compreendemos — assim como tememos o desconhecido. Somos tendenciosos quando se trata de empatia. Também somos melhores em ler aqueles que são como nós do que pessoas diferentes .

O primatologista holandês Frans de Waal afirma que a empatia é a cola que une a humanidade. Sabe aquela conexão imediata com alguém, os amigos de infância instantâneos? Essas magias da vida é a empatia em estado puro. Ela é a responsável pelas conexões e laços de significados entre as pessoas. Quando sentimentos que amigos, parceiros, colegas de trabalho, até estranhos, nos entendem, nos sentimos afirmados e valiosos. Ela é a ferramenta para reconhecer e valorizar os outros. Por outro lado, quando somos tratados como objetos, nos sentimos diminuídos e feridos. E como chamamos um conjunto enorme de redes de empatia? Civilização.

Tempos nada empáticos

Qual é o maior desafio para o ensino e a prática da empatia? Ora, um traço fundamental da empatia é que o foco é no outro. Em um mundo de pessoas egocêntricas e egoístas, onde as selfies são o prato do dia, como não ser autofocado? A empatia visa sempre o bem-estar do outro. Porém, é preciso alertar que o manipulador, o sociopata pode “ler” bem os outros e entender suas emoções e expectativas, porém, vai usar essa habilidade para manipular ou tirar proveito em benefício próprio.

E, seja como for, esse não é o único entrave moderno da empatia. Quando alguém está com medo, ansioso ou infeliz, tem mais dificuldade em se afastar dos seus sentimentos e por o foco no estado do outro. Porém, após cumprida a missão, vem a recompensa, já que empatia gera empatia. Quanto mais exercitamos a empatia, mais a recebemos de volta.

O que não é empatia

Ok. Você captou. É o clássico “fazer ao outro aquilo que gostaria que ele fizesse a você”, não é. É exatamente o contrário. Na verdade, é  “não faça ao outro o que você gostaria que ele fizesse a você; ele certamente tem gostos diferentes”. E essa é a grande dificuldade da empatia.

Recentemente passei por uma experiência desastrosa. Uma amiga telefonou-me às lágrimas dizendo que ela realmente teria de fazer um cateterismo. Como já havíamos falado sobre essa possibilidade, estranhei muito a reação dela. Bem, se eu estivesse no lugar dela, o que eu esperava de uma amiga? Esperava que ela me ajudasse a desdramatizar a situação, com argumentos de que é um procedimento médico com grande margem de segurança, que ela deveria enfrentar o medo etc. E foi isso que eu fiz. Grande erro. Ela esperava que eu aumentasse o seu drama, que tivesse pena dela, que me oferecesse para ir até a sua casa para, pessoalmente, ela repetir todos os passos até a notícia da prescrição do exame.

Em resumo: a amizade acabou ali. E qual foi o meu erro? Por não conhecê-la bem — era uma amizade recente — agi de acordo com o que eu esperava que ela agisse comigo.

Os 7 exercícios da empatia

Os graus de empatia são diferentes de pessoa para pessoa, mas sempre é possível melhorar, basta um pouco de prática.

1. Não dê conselhos

O ditado popular tem muita sabedoria: se conselho fosse bom, vendia-se. Cada um tem os seus próprios valores e o que serve para você, pode não servir para o outro. Procure entender a realidade e as expectativas do outro e ajude-o a construir uma solução que faça sentido para ele. Seja como for, esteja lá.

2. Aumente a sua capacidade de compreensão

Fale com desconhecidos.  Quando falamos com pessoas no metrô, na lavanderia ou mesmo pessoas fora do nosso círculo social nos deparamos com perspectivas diferentes, ampliamos a nossa visão do mundo e enriquecimentos o nosso repertório de vivências.

3. Livre-se de preconceitos

Eles são como nevoeiro que inviabiliza o acesso ao outro. Na vida, todos nós estamos sempre abaixo ou acima de alguém, dependendo do ângulo que analisamos. Enfrente os seus preconceitos. Todos as culturas tem aspectos positivos e negativos — e também muitos pontos de contato. Identifique-os. Recentemente, fiz uma amiga chinesa e fiquei impressionada como tínhamos coisas em comum.

4. Autocrítica

Só que, aparentemente, apontar o dedo ao outro é o caminho mais fácil. Mas, faça uma autocritica e questione se você não faria o mesmo se estivesse em situação semelhante. Quando engatilhamos uma crítica, pode estar à tona duas situações: uma é a de que o outro mostra algo que não gostamos em nós; a outra é que detestamos quando o outro tem a coragem que não tivemos. Primeiramente, seja generoso.

5. Não julgue! 

Há pessoas que houve um drama e já julga os protagonistas. E pior, parte já para a condenação do suposto responsável. Todas as histórias tem pelo menos duas versões. Respeite todos os envolvidos e ajude a elaborar perspectivas construtivas.

6. Aja! 

Não apenas permaneça na compreensão do outro. Aja! Um exemplo de uma ação empática é o trabalho voluntário. Com o que você se importa? Escolha a sua causa e engaje-se. Só que faça isso com verdade.

7. Seja afetivo 

O ato empático é como um abraço psicológico, sem dúvida. Pode não ter a mesma beleza plástica do abraço físico, mas tem o mesmo poder. Abrace o outro, abrace o mundo, sem dúvida de que está fazendo o bem.

Margot Cardoso (@margotcardoso) é jornalista e pós-graduada em filosofia. Mora em Portugal há 16 anos, mas não perdeu seu adorável sotaque paulistano. Nesta coluna, semanalmente, conta histórias de vida e experiências sempre à luz dos grandes pensadores.


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