Emicida: AmarElo – É Tudo Pra Ontem, de Fred Ouro Preto

  • Suzana Vidigal

Embarque por inteiro

Eu já tinha espiado, mas não tinha visto inteiro. Não estava por inteiro. É disso que o documentário Emicida: AmarElo fala: da urgência de mergulharmos por completo, lá no fundo, na questão do negro no Brasil. Já passou da hora. Ouvir a letra da música e refletir sobre a herança e a presença negras no Brasil, de onde viemos e pra onde temos a intenção de ir.

Propõe esse mergulho e som na caixa!

Emicida é poeta que registra a potência da negritude na vida e na história brasileiras. Em negrito – como ele mesmo diz. AmarElo, o título, já é uma poesia só. Como ele mesmo diz, “usar a força do amar, que é uma coisa que todos os seres humanos são capazes de fazer, pra construir esse elo”. Juntar causas, unir forças, trazer o desejo do que se quer pro âmbito maior da sociedade, independente de gênero, raça, condição social, tribo, espaço urbano.

Na ocupação

O documentário é um passeio – alegre, musical, colirido, mas, ao mesmo tempo, amargo – pela história da presença do negro no Brasil. Desde a escravidão até os dias atuais. Com ajuda da arte gráfica, de imagens de época, de fotografias, de obras de arte, o diretor Fred Ouro Preto vai ilustrando a fala de Emicida com imagens repletas de significado sobre a trajetória negra no trabalho escravo, na sociedade, na música, na arte da representação, intercaladas com as cenas emocionantes do seu show no Teatro Municipal de São Paulo, em 2019. E por que o Municipal? Resposta: “porque não tem uma viga, não tem uma ponte, não tem uma rua, não tem um escritório, não tem um prédio importante que não tenha tido uma mão negra trabalhando pra ele estar de pé hoje”. Fato.

É urgente a consciência. “Firmar um lugar físico”, como o Municipal, é fala dele. Sair do digital, ocupar o Municipal como lugar também de pertencimento de todos e de qualquer um, sem discriminação. Emicida vai tecendo o raciocínio claro, lógico e bastante didático de como é sentida a ausência negra nos espaços urbanos que foram construídos por eles, mas não ocupados.

Porque o entendimento é pra ontem

Emicida, nascido Leandro, é um poeta. Não só na música, mas também no verbo. Na maneira de se expressar, na lucidez, na genialidade dessa iniciativa vinculada à música, à arte – essa linguagem universal capaz de unir, protestar, juntar forças.
AmarElo vale cada minuto – inclusive pra conhecer canções que ainda não conhecemos e cantar junto naquelas que já são parte do nosso repertório.


Onde assistir: Netflix


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