Dismorfia de Zoom e a imagem distorcida

  • Tiago Belotte
  • FOTOGRAFIA: Chris Montgomery | Unsplash

Você sabe quais são as consequências negativas de se ver tanto num espelho virtual chamado videoconferência?

Com a pandemia, fomos apresentados ao mundo das videoconferências. O Zoom, de aplicativo desconhecido passou a ser um dos mais importantes nos nossos dispositivos eletrônicos. Em inglês, virou até verbo. O que pouca gente parou para pensar é que esse aplicativo — e todos os outros que nos permitem fazer chamadas de vídeo — também provocou um confronto com nossa autoimagem. E isso vem com consequências.

A primeira delas é uma preocupação excessiva com detalhes do rosto que nem notávamos. Assim, tamanho do nariz, linhas de expressão, bochechas, aquela pele flácida do pescoço. Como um dos sinais desse comportamento, as pesquisas no Google, durante a pandemia, para os termos “acne” e “queda de cabelo” tiveram aumentos expressivos. 

Dessa forma, muita gente fica tão incomodada que vai parar numa clínica de cirurgia plástica. O fenômeno já tem até nome, Dismorfia de Zoom. Uma pesquisa da Harvard Medical School com mais de 7 mil pessoas apontou que, mesmo com a volta do trabalho presencial e a diminuição das videochamadas, os seus efeitos não cessam. Mesmo depois do Zoom, esse transtorno psicológico em que se foca obsessivamente em um defeito – pequeno ou imaginado – na própria aparência não vai desaparecer.

Antes veio a selfie

Contudo, nós já tínhamos visto algo parecido antes. Com o advento das selfies em 2013, houve uma explosão de cirurgias plásticas motivadas pelo nosso confronto direto com nossos rostos repetidas vezes em tantos ângulos diferentes. Instagram e Snapchat foram aplicativos muito associados a esse movimento, potencializado pelos filtros que ainda nos mostravam o quanto nossos rostos poderiam ser “melhores”. O nariz mais fino, o maxilar mais bem desenhado, as bochechas menores, a pele perfeita, etc.

De lá para cá, diversos estudos no Brasil e no mundo apontam para o aumento das intervenções cirúrgicas por motivos estéticos ligadas às selfies, principalmente entre adolescentes e jovens. Em 2019, um estudo da Academia Americana de Cirurgia Plástica e Reconstrutiva Facial apontou que 72% das cirurgias plásticas tinham como justificativa principal a aparência na selfie.

Uma representação falha da realidade

Há, porém, uma diferença importante entre o que aconteceu com as selfies e filtros e o que acontece agora com a Dismorfia de Zoom. Aliás, são duas diferenças. A primeira é que passamos mais tempo nos vendo no espelho. A segunda, e ainda mais importante, é que esse espelho é daqueles tipos de parque de diversão, que distorce nossa imagem. Sabia disso? Pois é, a maioria das pessoas não sabe.

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Crédito: Visuals | Unsplash

O artigo, escrito pelo grupo responsável pela pesquisa da Harvard Medical School, descreve que as câmeras frontais dos nossos computadores distorcem a imagem do rosto. Em geral mais arredondado, com olhos e nariz maiores. Uma distorção criada pela proximidade da lente com o rosto, algo que na vida real não acontece em relação às outras pessoas. Ou seja, ninguém te vê na vida real como você aparece no mundo digital.

Outro ponto importante que o estudo apresenta é que durante uma videoconferência estamos, normalmente, com expressões tensas, concentradas ou entediadas. O que só piora a imagem que enxergamos. E depois de mais de 18 meses assim, pulando de uma reunião para outra durante o dia, passando quase oito horas em frente ao espelho digital, a consequência não poderia ser outra: uma mudança na autopercepção, aumento na ansiedade e diminuição na autoestima. Cerca de 71% das pessoas entrevistadas na pesquisa estavam ansiosas e 64% estava em busca de apoio em saúde mental.

Conscientização e bom senso

Com a volta às atividades presenciais, uma grande preocupação das pessoas que sofrem com a Dismorfia de Zoom é com a aparência no retorno. Ainda de acordo com os números da pesquisa, três a cada dez pessoas pretendem investir na aparência como forma de amenizar o impacto da volta aos eventos presenciais. E tudo que aparece no espelho virtual é item de atenção – rugas, tom da pele e outras imperfeições.

E tem cura? Shadi Kourosh, coordenadora da pesquisa e professora assistente de dermatologia na Harvard Medical School, acredita que sim. Para ela, a melhor forma de combater a Dismorfia de Zoom é conscientização. Saber que aquela imagem não é real e que outras pessoas também passam pelas mesmas situações e emoções. Com essa consciência, diminuirá bastante o grau de descontentamento e a ansiedade provocada pela imagem distorcida. Outra coisa simples que pode contribuir bastante é retirar a opção de se ver na tela. Essa também muito simples, porém mais difícil, já que gostamos muito ver nossa imagem. Neste caso é preciso colocar um post it com um aviso ou sempre se lembrar que aquele espelho é distorcido e que aquela imagem não é real.


TIAGO BELOTTE é fundador e curador de conhecimento no CoolHow – laboratório de educação corporativa que auxilia pessoas e negócios a se conectarem com as novas habilidades da Nova Economia. É também professor de pesquisa e análise de tendências na PUC Minas  e no Uni-BH. Seu Instagram é @tiago_belotte. Escreve nesta coluna semanalmente, aos sábados.

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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