Diário de Bordo

  • Juliana Reis

O diário de bordo é a chance de expressar nossas histórias de viajante. É também um meio de não esquecer por que, afinal, viajamos

Na minha casa tenho poucas coisas. E elas ficam ordenadas para eu estar pronta para partir se uma oportunidade de aventura aparecer.

Só tenho verdadeiro apego pelo meu baú de destinos: uma caixa cheia de mapas em papel, National Geographics e revistas de viagem. É nessa “lama” que me afundo quando quero sonhar. Sempre que faço isso, me recordo de Liz Gilbert, autora de Comer, Rezar, Amar e sua caixa de reportagens sobre lugares para conhecer antes de morrer. Da última vez que banquei a Liz, um pedaço de papel se desprendeu de algum dos mapas e caiu no meu colo. Nele estava escrito “Venancio”.

Quem é Venancio? Quem foi Venancio? De que mapa ele se desprendeu e por quê? Que diabos fazia esse Venâncio na minha “lama de sonhos”?

A escrita como resgate das histórias de viagem

Uma vez li que o simples ato de escrever pode nos ajudar a encontrar o que há de mais essencial dentro da gente. De fato, quando fui colaboradora de um livro-guia de viagens, era nas afetuosas páginas apelidadas “Diário de Bordo” que eu extravasava a emoção que reprimia nas burocráticas seções sobre onde dormir, onde comer, como chegar, o que ver, o que pensar, blá, blá, blá…

O Diário de Bordo era a chance de expressar nossas histórias de viajante. Era também um meio de não esquecer por que, afinal, viajamos.

Mas eu não tinha um diário de bordo sobre esse tal de Venâncio!

Revirando as caixas – levantando um pó danado – fui juntando as peças. Venâncio era a folha solta de um bloco de papel que continha anotações sobre ondas boas para surfar e um cartão da tela Guernica de Pablo Picasso. Na obra, Picasso expõe os horrores do bombardeio sobre a cidade basca de Guernica em 1937 durante a Guerra Civil Espanhola.

O que tinham em comum surfistas e uma das mais desprezíveis tragédias humanitárias do século 20? E o que algum Venâncio tinha a ver com a dobradinha?

Descobri a foto de uma imensa estrutura prateada colada na contracapa do bloco e juntei o quebra-cabeça: o diário nunca escrito – e que me levaria a Venâncio – tinha origem ali, no museu Guggenheim em Bilbao, a maior cidade do País Basco, na Espanha. O gigante de titânio inaugurado no final dos anos 1990, reerguera uma Bilbao então decadente.

Com a foto do “Guggen” prateado nas mãos, imediatamente pincei na memória um cenário do passado. Soube que se deixasse a viagem mental prosseguir, encontraria Venâncio. Fechei os olhos e fui.

Foi há muito tempo.

diário de bordo

Naquele dia eu concluía a última tarefa de um trabalho de 12 semanas percorrendo todos os cantos da Espanha. A visita às exposições de arte contemporânea no Guggenheim de Bilbao fechava a missão. A próxima etapa era encontrar um lar temporário em algum vilarejo silencioso. Exausta, eu queria paz para me restabelecer e redigir o guia de viagens. Não queria aprender mais nada. Não queria mais assunto com ninguém.

Uma jornada inesperada

Saindo do Guggen, escolhi o destino por intuição embarcando num ônibus com um letreiro que dizia Costa Basca via Gernika-Lumo.

O pinga-pinga se embrenhou num horizonte de vilarejos antigos pontilhados por casas e igrejas de pedra, colinas alfinetadas com ovelhas, pântanos e muito verde. Tudo indicava que lá na frente haveria a paz e o silêncio que eu buscava. E por ela, eu iria até o fim da linha.

Acontece que quando o ônibus diminuiu a velocidade entrando numa cidadezinha, reconheci algo fascinante lá fora: um mural de azulejos pintados reproduzindo a Guernica de Picasso. Olhando bem, a dimensão era outra, mas o conceito, a denúncia e o espírito da obra original estavam lá.

Subitamente, me localizei! Juntei meus pertences com uma pressa desajeitada e desembarquei.

A Gernika-Lumo do letreiro do ônibus era “A” Guernica. A do bombardeio hediondo. E eu estava dentro dela.

Troquei a calma que eu buscava, por uma tensão que me corroeu quando caminhei pela cidade e entrei no Museu da Paz. Lá fui recebida pelo bombardeio simulado. Em um salão escuro, revivi o horror do ataque em sons perturbadores e imagens – incluindo os personagens da tela de Picasso, que se moviam – reproduzindo cada ângulo da catástrofe.

A cidade ainda conserva num jardim o tronco de um carvalho sob o qual representantes do povo basco se reuniram por séculos. Gernika tem mesmo uma certa dimensão sentimental que paira densa no ar, embora nada, nada mesmo, tenha restado da velha cidade ou das vidas interrompidas naquela tarde infernal de 1937.

Escolhi seguir em frente e tomei o próximo ônibus até o ponto final. Desci numa aldeia pesqueira tranquila cravada entre mar e montanha, avançando sobre promontórios cobertos da grama verde… Do jeitinho que eu queria.

Era Mundaka, uma vila sem viva alma na rua, que atravessei a pé, observando as bandeiras bascas pendendo em balcões vazios e janelas fechadas. Passei ao longo do pequeno porto, onde o silêncio só foi quebrado pelas marolas esbarrando nas txalupas (embarcações de madeira). Não cruzei com ninguém no caminho. Dei entrada no albergue vazio. Paz.

Viajante invisível

No dia seguinte, me instalei num banco da praça principal, um gramado plano no alto de uma rocha de frente para o mar. De um lado, um surfista resmungão fitava as águas. Juro que ele choramingava. Do outro, papeavam senhores usando txapelas e empunhando makhilas – a simbólica dupla da indumentária basca: boina e bengala. Apesar de um deles pousar os olhos sobre mim inclinando a cabeça, cumprimento que devolvi, ninguém se aproximou. Diferente de como sempre aconteceu na minha condição de forasteira. Ufa! Paz.

Por dois dias percorri trilhas nas montanhas locais e dei licença a cabras e carneirinhos conduzidos por pastores de txapelas. Tomei banho de mar no porto mesmo, onde a água era cristalina. Sempre só, em silêncio, invisível como eu queria.

Também planejei uma aula de surfe que não aconteceu. As ondas não vieram. Fiquei plantada na areia da praia vazia olhando o mar parado. Lembrei do surfista chorão. Que chato… Sem onda, sem gente pra conversar, sem ninguém pra me contar que balaio era esse que misturava surfistas sarados e tradições bascas.

Adeus, solidão!

No quinto dia, madruguei determinada a largar Mundaka enquanto parte dela ainda dormia. Às 6h da manhã alguns bares abriam as portas servindo café, tostadas, churros, suco de laranja… Eu tinha fome, mas também pressa em fugir da solidão. Apertei o passo rumo ao ponto de ônibus que saía da cidade. E assim, como se me aguardasse, lá estava encostado na mureta da paragem, o homem de txapela que cumprimentara a forasteira aqui dias antes, na praça.

Ensaiamos uma aproximação. “Egun on”, arrisquei meu bom dia em basco.

Em cinco minutos eu e Venâncio já éramos melhores amigos. Foi ele quem me contou sobre a mágoa do surfista: a ausência de uma onda especial que só existe em Mundaka. A mesma que me deixou esperando na areia. É que a luta do rochedos com as águas do rio avançando no mar provoca uma onda tubular perfeita que, já nos anos 1960, atraiu gente pra viver só de surfe em Mundaka.

Poderosa, longa, e de rara mão esquerda, a onda andava sumida. Muitos acreditavam que a culpa era de uma draga que abriu caminho para um navio construído num estaleiro local, destruindo o banco de areia que provocava sua formação. Sem a “esquerda dos sonhos”, surfistas andavam cabisbaixos partindo para outras bandas.

Enquanto a gente conversava em portunhol com pitadas de basco, um cheiro gostoso saia do pacote de pães doces frescos e quentes que Venâncio carregava. Eram assados no bar da filha, ali perto. Meu amigo então apanhou dois pães que enrolou num guardanapo e depositou na mureta. E me entregou o pacote com o restante. Pediu que eu esperasse e voltou em segundos trazendo um copo descartável de café com leite quentinho. Era pra mim. Cortesia de Mundaka. Meu ônibus já encostava…

Embarquei equilibrando bagagem, pão e café, sem bilhete nem mão livre para pagar a viagem. O motorista sorriu não se importando, e me aconselhou a sentar e apreciar o trajeto fazendo meu desjejum fresquinho. Venâncio acenou um adeus e continuou lá no ponto. Nem perguntei para onde ele ia. Cheguei a Bilbao duas horas depois, tendo devorado todos os cinco pães doces com café com leite. Pronta para escrever o guia de viagens.

Ps.: Recentemente, eu soube que após meu encontro com Venâncio, dois anos e meio se passaram até a onda voltar a Mundaka. Naquela época, a Liga Mundial do Surfe realizava lá um megaevento todos os anos. Sempre houve um vaivém de episódios de dragagem do local, mas no ano do Venâncio o volume de areia retirado foi um dos maiores de todos os tempos. Sofreram os surfistas bascos e a economia local. Parece que após muito diálogo entre governo, ambientalistas e a comunidade do surfe, novas dragagens estão descontinuadas. Mundaka segue dona da esquerda dos sonhos. Por enquanto.


JULIANA REIS é uma viajante de coração inquieto em  busca de histórias, pessoas, lugares e experiências  que a modifiquem. Escreve mensalmente na edição impressa de Vida Simples


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