Depressão tem cura?

  • Diogo Rodriguez
  • FOTOGRAFIA: Christin Hume | Unsplash

Vender a ilusão de uma cura rápida, simples e fácil é iludir as pessoas. Dar a impressão de que “basta escolher ser feliz” para superar uma condição coloca a vida de muitos em risco

 

Na coluna da semana passada, relatei minha experiência com remédios. Escrevi o texto porque sei que muitas pessoas ficam receosas quando ouvem do médico que é necessário fazer tratamento com medicamentos. Por experiência própria, sei que pode parecer um fracasso ouvir de um profissional da saúde que você precisa de ajuda externa para cuidar da sua mente. Mas não é. 

Remédios despertam grande desconfiança. Faz sentido. Trata-se um produto que, teoricamente, pode mexer tanto com seu cérebro ao ponto de aliviar os tão sofridos sintomas de transtornos mentais capazes de nos debilitar. Ao mesmo tempo, existe a chance de que apareçam os tão temidos efeitos colaterais. 

Os mais leves são sonolência, dor de cabeça, ganho ou perda de apetite. Alguns medicamentos podem aumentar a propensão para o suicídio, causar sonhos assustadores, prejudicar a libido. Remédios podem ser grandes aliados no tratamento, mas têm seus problemas, claro. E, como eu disse na semana passada, nem sempre seu corpo se adapta à primeira receita do médico. Paciência é um dos mantras de quem trata da depressão. 

Faz sentido, portanto, que as pessoas fiquem bastante receosas quando o assunto é tomar remédios. Eu mesmo fiquei. Antes de aceitar o conselho da minha analista e marcar uma consulta com um psiquiatra, tentei controlar minha ansiedade e depressão fazendo exercícios, meditando, mudando um pouco a rotina de trabalho. Não tive sucesso e, um ano depois, estava saindo do consultório com uma receita nas mãos. 

Nas primeiras semanas tomando a medicação, fiquei lento, sonolento, incomodado. Estava bastante infeliz, embora percebesse que a ansiedade diminuía consideravelmente. Confesso que vários meses se passaram até que meu médico encontrasse o equilíbrio ideal das minhas medicações –o que incluiu introduzir um segundo remédio.

Tenho consciência de que este relato não ajuda muito a convencer quem está reticente. Acredito ser por isso que vejo um grande número de “tratamentos” que supostamente curam a depressão. Eles alegam ser capazes de acabar com esse sofrimento usando uma variedade de alegadas técnicas capazes, dizem, de ir direto ao ponto e extirpar o problema pela raiz.

Tem gente por aí prometendo acabar com a depressão em um mês, um dia, algumas horas, três minutos. Dizem que tal transtorno mental é causado por falta de fé, traumas de vidas passadas, ressentimentos específicos. Ignoro a quantidade de pessoas que procura tais métodos, mas a julgar pela quantidade de anúncios e promessas nas redes sociais, desconfio que o número seja grande. 

Vejam bem: não estou dizendo que a fé e outros tratamentos ditos alternativos não possam ajudar as pessoas que estão sofrendo de depressão. Pesquisas mostram que a doença tem diversos aspectos operando ao mesmo tempo, não se trata apenas de uma disfunção química do cérebro. Meu alerta se direciona às falsas promessas de que é possível curar a depressão com uma bala de prata. A ciência nos mostra que isso não existe. 

Os médicos e cientistas não falam em “cura” para depressão. O termo usado é “remissão”, que significa que o paciente não tem os sintomas da doença e está estável. Não sei se meu psiquiatra usaria esse termo para falar de mim, mas creio estar nesse processo. Já faz algum tempo que, felizmente, não apresento os sintomas da depressão. 

Isso não quer dizer, no entanto, que não exista a possibilidade de superar a depressão. Em alguns casos, indivíduos passam pelo tratamento e não têm mais recaídas. Mas é preciso saber que, uma vez que você tem depressão uma vez, a chance de que tenha um segundo episódio é bastante alta de acordo com os dados: 50%

É justamente por isso que precisamos tomar cuidado com a linguagem usada para conversar sobre essa doença. Falar em uma “cura” é perigoso porque transmite a ideia de que existe uma única coisa que podemos fazer para fazer o problema sumir de uma vez por todas. Se eu escolher me “curar”, verei o resultado e nunca mais terei de me preocupar com isso. Infelizmente, não é assim que funciona. 

Mesmo fazendo tudo certo, seguindo os conselhos do médico, tomando remédios, fazendo exercícios, etc, é possível ter uma recaída. Isso não é uma falha de caráter. Em casos raros, é necessário fazer tratamento pelo resto da vida.  A tal da cura não é uma opção. O que se pode fazer é reduzir e controlar os sintomas. 

Vender a ilusão de uma cura rápida, simples e fácil é iludir as pessoas. Dar a impressão de que “basta escolher ser feliz” para superar uma condição tão séria coloca a vida de muitos em risco, especialmente de quem já está vulnerável psicologicamente e, não raro, economicamente. Tratamentos, terapias, remédios, mudanças de estilo de vida ainda são privilégios de uma elite (da qual faço parte). 

Existem, claro, instituições públicas sérias oferecendo opções a quem não pode pagar. Contudo, o acesso a elas é limitado e muito concorrido. Nem todo mundo pode se ausentar do trabalho para cuidar da saúde de maneira apropriada. Justamente por isso as soluções “milagrosas” são tão atraentes para um público menos privilegiado ou por quem simplesmente está angustiado demais para esperar. 

Sou crítico dos charlatães, mas eles são sintoma de algo mais grave: de uma sociedade que não cuida de seus doentes. Encurraladas, as pessoas que sofrem procuram a saída aparentemente mais fácil porque não podem se dar ao luxo de não se curarem.

 

Diogo Rodriguez é jornalista e foi diagnosticado com depressão há cinco anos. Desde então, vem estudando o assunto. Escreve neste espaço às quintas-feiras –e divide mais sobre o tema no perfil @falandodepressao. Para conversar com ele e compartilhar sua experiência com saúde mental, mande um e-mail para [email protected]

 


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