Dá-me um abraço!

  • Margot Cardoso

A ausência de contato físico tem um grande impacto sobre a nossa saúde física e mental. É pelo toque, no nível da pele, que construímos os nossos afetos e  interagimos com o mundo

 

A pandemia trouxe danos em vários níveis. Para além das mortes e do caos econômico, há outros. A Organização Mundial da Saúde já deu o alerta: além de ajuda financeira, muitos precisam de apoio psicológico. No Brasil, o consumo de Rivotril (ou o seu genérico clonazepam) — entre março e abril desse ano —  saltou de 4.6 milhões de caixas (registrados o ano passado) para 5,6 milhões. Na conta estão a incerteza, o medo e os efeitos do isolamento social. Apesar de todo o aparato tecnológico —  conversas online, lives e os fofos emojis e GIFs — nada substitui o contato físico. Há muito sabe-se da importância do toque para nós, mamíferos. O recomendado contato pele com pele entre mãe e bebê logo após o nascimento, mais do que interação e cuidado, é uma necessidade. Somos programados para o toque. Sem toque, sem vida.

Toque adulto

Porém, o que é pouco divulgado é que a experiência do toque segue sendo vital. Assim como o alimento, é uma necessidade para a vida inteira. Nas situações de angústia e tensão, é o contato físico que vem ao nosso socorro. O abraço relaxa e acalma, desacelera a frequência cardíaca e a pressão arterial. Um simples aperto de mão dá confiança — e nos tempos primitivos também indicava que o outro estava desarmado (literalmente). O contato físico regula a produção hormonal: um abraço pode diminuir os níveis de cortisol — o hormônio do estresse —  e um simples toque pode desencadear a liberação de oxitocina, também conhecida como “hormônio do amor”. E já há uma espécie de consenso do toque para fins terapêuticos — como a imposição de mãos, massagens e a bioenergética.

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Pele: nosso revestimento

Na belíssima obra Tocar: o Significado Humano da Pele, Ashley Montagu faz uma abordagem multidisciplinar sobre a pele e o ato de tocar. Dos cinco sentidos, o tato é o primeiro a ser formado e diz uma lei da biologia, quanto mais cedo se desenvolve uma função, mais importante ela é.  A pele — é o maior e mais sensível órgão do corpo humano — é o revestimento e o “informante” do sistema nervoso. Todo o nosso corpo é coberto pela pele — até mesmo a córnea transparente dos nossos olhos têm uma camada modificada de pele. Damos pouca importância a pele, mas é com ela que experimentamos o mundo. É ela que informa se está frio ou quente, se existe incômodo, se a sensação é boa ou ruim.

Como você confirma algo que os seus olhos mostram? Com o toque. Quando duvidamos da realidade e queremos ter certeza de que não estamos sonhando, pedimos “me belisca”.  O toque é o que confirma os outros sentidos. E mais do que isso, a pele é o limite do nosso eu, o nosso contorno, a nossa embalagem, é o que nos contém e nos abriga.

Toca-me!

Com um olhar mais atento, constatamos que o toque permeia toda as esferas da vida humana e essa importância é traduzida na linguagem. Ficamos com os “sentidos à flor da pele”, há experiências que nos deixam arrepiados, suando frio, com estremecimentos e calafrios. E a alusão a experiência dérmica ganha o terreno das metáforas. Prometemos “dar um toque”; “manter contato”;  dar “um toque pessoal”;  fulano é cheio de “não-me-toques”, há quem não “tenha tato”(inábil);  as ideias são “palpáveis”; o enlouquecido “perdeu o contato” com a realidade; na rejeição “mantemos distância”; emocionamos “ficamos tocados”; alguém que julgamos atraente “tem pegada”…

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Mantenha distância!

E aqui percebe-se o longo alcance dos prejuízos do isolamento social. A primeira medida foi a imposição da distância física. Nada de beijo, abraço ou aperto de mão. E justamente quando — inseguros e perdidos — era o que mais precisávamos. Muitos se deram conta da falta e fizeram lista para encontros pós-pandemia. Outros desatinaram e não cumpriram as recomendações. Mas também vi, com grande espanto, a indiferença de alguns diante do isolamento social. “Minha vida não mudou muito com o confinamento”. Outros, levaram mesmo para o humor — negro — “Ah! Não sabia que o meu estilo de vida se chamava quarentena”. Um indicador do grande número de solitários. E, nesse universo, os idosos perderam duplamente. Além da saúde frágil, a maioria vive numa semi reclusão, sem vida social e com um círculo de afetos muito restrito.

Vê-se mudanças

Mas há boas notícias. O reconhecimento da importância do toque físico está em ascensão. Há estudos que comprovam que os treinamentos que envolvem jogos com contato físico, minimizam os conflitos nas grandes corporações. No mundo do esporte, as equipes onde os jogadores se tocam com mais frequencia ganham mais jogos. Na esfera privada, estudiosos apontam a distinção entre a necessidade de ser abraçado e o desejo sexual. Uma criança com deficit de contato físico, será um adulto onde a necessidade do abraço será quase sempre a principal motivação para o sexo. Numa pesquisa recente, adolescentes grávidas afirmam preferir o que antecede ao sexo, enquanto que o coito em si é apenas tolerado.

E o futuro?

Por conta da globalização, as epidemias vieram para ficar. Nesse cenário, já se vislumbra problemas para as próximas gerações se essas forem encorajadas ao não toque físico. Há o receio de que teremos crianças — e adultos — menos empáticos, mais agressivos, mais obsessivos e com mais dificuldade na relação com o outro.  Muito se diz sobre os aprendizados positivos trazidos pela pandemia. Se houver algum, certamente é o despertar da consciência de que nós não podemos ser felizes sem contato físico. Então, aqui, há esperança. E como brasileiros levamos vantagem (pelo menos nisso!). Navegamos bem no terreno dos afetos. E agora, na falta, temos mais consciência ainda de que o toque deve ser acrescentado ao repertório das nossas necessidades básicas.

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Quando você, inexplicavelmente, sentir dor, raiva, angústia, desamparo ou medo… Faça as contas. Certifique-se se você abraça e é abraçado o suficiente. Precisamos ser mimados e acarinhados, precisamos mimar e acarinhar os outros. Precisamos dos abraços, do apertar de mãos, do toque vivo e do aconchegado da nossa pele com outra pele. E precisamos apertar contra o peito aqueles que amamos.

 

Margot Cardoso (@margotcardoso) é jornalista e pós-graduada em filosofia. Mora em Portugal há 16 anos, mas não perdeu seu adorável sotaque paulistano. Nesta coluna, semanalmente, conta histórias de vida e experiências sempre à luz dos grandes pensadores.

 

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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