Cuidado com a solução rápida para a depressão

  • Diogo Rodriguez

Não há fórmula mágica que crie uma solução rápida para a depressão. A ciência ainda não conhece técnicas capazes de extirpar essas doenças com poucos golpes. Esse processo de superação envolve tempo, paciência e esforço.

 

Já faz algum tempo que acompanho e participo de comunidades de apoio para quem tem depressão e ansiedade. Nesses espaços virtuais, pessoas trocam experiências, compartilham dúvidas e, às vezes, até conseguem ajuda de voluntários durante uma crise. Aprendi muito nesses espaços. Percebi quantos privilégios tenho, do acesso a tratamentos de qualidade às informações abundantes.

A impressão que tenho ao acompanhar os posts é que a maioria das pessoas, quando precisa tratar de sua saúde mental, entra numa terra estrangeira. Navegar pelo mar de possibilidades é uma tarefa árdua. É difícil saber por onde começar: como buscar ajuda, com que profissional devo falar, onde eles estão, quais são as opções de tratamento, a depressão é culpa minha, o que eu devo fazer… essas são dúvidas que tive quando decidi que precisava de ajuda e, imagino, devem ser bem comuns.

A internet, os remédios e ansiedade de uma solução rápida para a depressão

Ao invés vez de ajudar, a internet pode ser um campo minado. Não recomendo a ninguém fazer buscas no Google para aprender sobre depressão e ansiedade. Muitos links são de má qualidade, outros beiram o charlatanismo e a irresponsabilidade. Nos grupos, embora haja muita boa vontade, também há diversos enganos. Vejo o esforço daqueles que tentam manter certas regras em vigência. Mas, para cada voluntário consciente há dezenas de pessoas dando conselhos problemáticos.

Um tema recorrente é o uso de remédios. Quando o psiquiatra receita alguma substância, é normal ficar apreensivo. Já leram a bula de um antidepressivo? É como um filme de terror. São tantos efeitos colaterais que você se pergunta se não é melhor deixar tudo como está. E, de fato, os remédios podem deixar você com sono, libido menor, dor de cabeça, tontura… e só estou falando dos mais leves. Outro efeito adverso é o ganho de peso. Eu mesmo engordei muito depois de começar o tratamento. Muito.

Por isso, não é surpreendente perceber a disposição de pacientes em deixar os remédios de lado. O tratamento com os medicamentos é demorado e complicado: exige paciência, algo que muitos de nós não temos de sobra quando decidimos pedir ajuda. Imagino também que os médicos não expliquem isso de uma maneira muito clara.

O que dizem sobre antidepressivos?

solução rápida para a depressão remédios

Uma grande pesquisa feita pela Universidade de Oxford sobre antidepressivos mostrou que esse tipo de medicamento funciona, mas de maneira limitada. Além disso, há uma grande variação entre os diferentes tipos de remédios. Alguns são melhores, outros piores. Mas, de maneira geral, os antidepressivos sozinhos não são capazes de resolver o problema.

Algo que precisa ficar claro é que os antidepressivos não necessariamente funcionam para todo mundo. Mesmo quando funcionam, como no meu caso, existe um período de adaptação até achar o medicamento e a dosagem. Ainda assim, existe a chance de haver dias melhores e piores. O remédio não resolve os problemas, ele nos dá estabilidade para que possamos cuidar melhor da saúde mental e física.

Não sei como agem outros psiquiatras, mas o meu nunca permite que eu me acostume muito com o remédio. Quando passo algum tempo estável – geralmente dois meses -, ele já me orienta a diminuir a dose. A ideia é dar tempo para que eu seja capaz de me reestruturar (com ajuda também da terapia) e criar outros mecanismos para lidar com a ansiedade e as ruminações. Ele supervisiona tudo bem de perto, pedindo que quaisquer problemas ou alterações sejam informadas rapidamente.

Cuidado ao parar com medicamentos sem solicitação médica

Por isso, me preocupo muito quando vejo relatos de pessoas deixando de tomar remédios por conta própria. Não foram poucas as vezes em que li a respeito de casos assim. Eles estão nos grupos virtuais que frequento, mas também em livros, pesquisas, no dia a dia dos profissionais da saúde. Impacientes, decepcionadas e assustadas, as pessoas pensam ser melhor ficar sem a medicação do que pagar para ver.

Há um grande perigo nisso porque, como eu já disse, remédios têm efeitos colaterais que podem ser sérios. Tentar se livrar da substância sem supervisão é um risco para a saúde mental e física do indivíduo. Tomar os comprimidos sem seguir à risca o que o médico orientou é outro comportamento arriscado. Mais alarmante ainda é ver pessoas oferecendo tratamentos supostamente milagrosos contra a depressão, a ansiedade e outros transtornos.

Não tenha pressa. Não há fórmula, nem solução rápida para a depressão

solução rápida para a depressão felicidade

Quero ser bem claro: não há como superar transtornos de saúde mental com “apenas cinco sessões”. É irresponsável sugerir a alguém deixar de tomar remédios sem o conhecimento de um médico, de preferência um psiquiatra.

Já faço tratamento há cinco anos. Troquei de remédio algumas vezes. Nunca foi fácil, rápido ou agradável. Sempre há períodos de adaptação, assim como os de “desadaptação”. Sei muito bem dos privilégios de ter acesso a ajuda especializada. Mas também creio ser necessário mostrar aos meus companheiros e companheiras com depressão e ansiedade que precisamos ter muito cuidado.

Infelizmente, não há solução rápida para a depressão e para o que nos aflige. Saber disso é melhor do que ser enganado por aqueles que querem tirar proveito da nossa fragilidade.

Diogo Rodriguez é jornalista e foi diagnosticado com depressão há cinco anos. Desde então, vem estudando o assunto. Escreve neste espaço às quintas-feiras – e divide mais sobre o tema no perfil @falandodepressao. Para conversar com ele e compartilhar sua experiência com saúde mental, mande um e-mail para [email protected]


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