Criticar e julgar faz um mal danado

  • Keila Bis

Como o olhar acusatório e a intolerância prejudicam as relações, tiram o prazer de viver e provocam um grande estresse mental

 

*O uso do x em algumas palavras faz referência ao masculino e o feminino.

 

Elx gostaria que x namoradx fosse diferente em algumas coisas. Tinha um script na sua cabeça de como elx deveria ser. E elx correspondia a muitas coisas dessa lista. Mas, não era animadx e nem tão românticx como elx gostaria. Por esse motivo, as brigas e discussões só aumentam e a relação vai se desgastando.

Elx gostava muito dx amigx. Eram muito íntimxs, compartilhavam segredos, se ajudavam nos momentos difíceis. Uma amizade que tinha tudo para continuar, porém, mas elx encasquetou com um comportamento dx amigx. Elx não respondia as mensagens rapidamente e, muitas vezes, somente no dia seguinte. No começo, isso incomodava um pouco, depois um poucão e agora era um incômodo gigante que tirava toda a cumplicidade da amizade.

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Elx desejava que a mãe lhe desse mais carinho. Na verdade, que fosse carinhosa como era com x irmãx. Elx era mimadx, recebia uma atenção que elx não recebia. Sim, sabia que a mãe x amava, que podia contar com ela para tudo. Mas, aquele carinho, não recebia. O que era um desejo virou mágoa, raiva, ressentimento e elx nem conseguia mais ver as coisas boas que a mãe lhe dava.

Elx não suportava mais os colegas do trabalho. Eram tão diferentes delx. Sempre com os mesmos assuntos, as mesmas brincadeiras, não pensavam no futuro como elx, não gostavam de arte. No começo, aquilo que era somente uma diferença de estilo de vida e de gostos diversos. Depois, virou uma crítica feroz a ponto delx já nem querer mais ouvir a voz deles.

Ver o outro como um todo

Todos esses exemplos, bem comuns nas relações, guardam algumas características que uma vez olhadas e transmutadas podem trazer uma deliciosa paz mental. Perceba que estamos falando de julgamento, de crítica, de comparação. De pedir e esperar mais do outro. De querer ser atendido em toda as suas vontades e desejos e de querer que o outro fosse diferente. E de achar que é o certo e o outro é errado e de ser o dono da verdade.

Quando isso acontece, criamos uma espécie de estresse no aparelho psíquico. A mente começa a trabalhar a partir desse viés, gerando pensamentos e diálogos hostis que acabam por resultar em: raiva, irritação, ressentimento e, em níveis mais altos, à fúria e ódio. Nos tornamos pesados de tantas insatisfações porque estar com as outras pessoas será um estar carregado de cobranças e de expectativas.

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No relacionamento afetivo, muitos casais se machucam porque querem que x parceirx mude uma ou mais características. Mas, elx não vai mudar, simplesmente porque é desse jeito. Você é capaz de amá-lx mesmo assim? Essa característica realmente faz diferença na qualidade da relação de vocês? Elx não gostar de sair tanto quanto você traz algum dano à sua vida?

Muitas relações terminam – literalmente falando ou quando os casais se separam mesmo estando juntos – a partir deste momento: quando a pessoa fica obcecadx em só olhar para aquilo que não gosta no outro e deixa de vê-lo como um todo. Porque tem coisas que você realmente gosta nelx, não é mesmo? É preciso muita maturidade para amar. Amar nas diferenças.

O que se perde julgando

Na relação fraterna, é a mesma coisa. É essencial compreender que x amigx vai te oferecer algumas coisas e outras coisas não. Nem mais nem menos. Se você gosta que as pessoas te respondam prontamente, ok. Mas compreenda que não é todo mundo que tem esse hábito. Não espere do outro o que o outro não pode te dar. Usufrua quando alguém te dá o que você quer e invista na sua maturidade suportando as frustrações.

Nas relações parentais, então, esse assunto se torna ainda mais pulsante e, por isso mesmo, importante de ser olhado. Existem tantas e inúmeras formas de dar e expressar amor. Aos pais é cobrado um amor incondicional, que é uma bela fantasia. Na realidade, isso não existe. Eles são pessoas, antes dessa função mãe e pai. E, por isso, não podem nos dar tudo. Se você se sente amado, mas fica comparando o amor que eles te dão com outras pessoas, vai viver eternamente em sofrimento, carente, se vitimizando, com ciúme…

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E nas relações profissionais, idem. O outro é do jeito que é. Vive a vida do jeito que gosta e sabe viver. Por que criticar? Por que julgar? Ele está te fazendo algum mal? Se não está, por que ficar com tanta raiva? Muito provavelmente, você caiu na armadilha de achar que é melhor ou sabe mais do que ele. Ou extremamente rígido e controlador querendo que todos sejam iguaizinhos a você. Aquela armadilha onde não existe a pluralidade, a diversidade de pensamentos, opiniões, estilos, sabedorias, conhecimentos…

Observe-se

Se puder, primeiramente experimente se observar e ver a quantas andam o seu lado julgador e crítico. Observe a aceleração mental que isso te traz. Os tipos de pensamentos que isso provoca. O quanto fica agitado, ansioso, nervoso, intolerante. O quanto perde em conhecer o universo que é o outro. Tão diferente de você e, por isso mesmo, tão belo. O quanto perde com a própria vida, que poderia estar sendo mais bem olhada e cuidada, enquanto você está gastando seu tempo em focar na vida alheia. Além, claro, de todo o estresse mental.

 

Keila Bis é jornalista de bem-estar, terapeuta floral e psicanalista. Há alguns anos vem se dedicando a estar mais próxima do seu mundo interior. Além disso, escreve na primeira terça-feira de cada mês aqui no Portal. Para entrar em contato, mande seu e-mail para: [email protected]

 

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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