Cringe sim, mas também livre

  • Tiago Belotte
  • FOTOGRAFIA: Taylor Hernandez | Unsplash

Uma discussão tomou conta das redes sociais nas últimas semanas. Afinal, a geração Y é cringe? Se é, que bom, porque eu prefiro mesmo ser.

O termo em inglês – que pode ser traduzido como uó, brega, cafona, out, demodê, vergonha alheia, dentre outras expressões – virou hashtag, vídeo, assunto no telejornal e discussão intergeracional. Além disso, a busca pela expressão no Google cresceu 70% nas últimas semanas. Tudo porque pessoas mais jovens, nascidas a partir dos anos 2000 e que são chamadas de Geração Z, resolveram dizer que consideram a geração anterior, conhecida com Millennial ou Y, fora de moda, mas para isso utilizaram esta nova terminologia, atualmente bem popular nos EUA: cringe.

Fui ler quais são os principais pecados que nos tornam cringe aos olhos da nova geração e descobri que amar café, usar emojis, gostar de Friends ou Harry Potter, falar de boletos, falar de gatos, usar calça skinny – tudo isso é cringe. Até perguntar o que é cringe te torna automaticamente muito cringe. E meu autodiagnóstico foi: sou cringe e me orgulho muito disso. Porque cada uma dessas coisas, por mais simples e triviais que pareçam, afirmam minha liberdade de ser quem eu sou, sem me preocupar com as opiniões e as vozes questionando a minha vontade.

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Crédito: Denis Cherkashin | Unsplash

Uma expressão nova e um comportamento antigo

Quando eu era mais jovem, já deixei de dizer que gostava de uma banda e fingi gostar de outras, para agradar. Já tomei bebidas que achava horríveis, para me sentir parte. Vi seriados e filmes e escondi meu gosto por novelas mexicanas das conversas na escola e na faculdade, para não ficar isolado. Deixei de usar uma roupa que gostava, para não ser chamado de cafona pela minha família. Como qualquer outra pessoa, passei pela adolescência e pelo inicio da vida adulta buscando ser aceito, ao mesmo tempo que tentava afirmar meu lugar no mundo e descobrir minha identidade.

A jornada para ser quem eu sou, afirmar em voz alta e em público minhas escolhas e preferências foi longa. Aliás, ela não tem um ponto de chegada, continua sendo. É como se todos os dias eu precisasse, para alguma coisas, confrontar minhas vozes internas e respondê-las: é cringe mesmo. E qual o problema?

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Manja Vitolic | Unsplash

As alegrias da vida adulta são cringe

Também já estive nesse lugar, de achar que os mais velhos eram cafonas ou pura vergonha alheia. Hoje entendo que eles estavam apenas exercendo o direito de serem livres, sem se importarem com opiniões sobre seus gostos. Para além disso, tendo a acreditar que só quando nos permitirmos o brega, o cafona e o cringe é que somos felizes. Declaração de amor é brega. Cantar e dançar na rua, embaixo de chuva, é cafona. Preparar café da manhã é cringe. Mas existe algum momento memorável da vida que não seja?

Se eu tenho escolha – entre ser chamado de cringe ou viver a vida que acredito ser a minha verdade, com a minha assinatura e meus gostos – não vou nem pensar duas vezes. Prefiro ser cringe. Por ora, não sem uma pontinha de incômodo (sim, confesso) por saber bem com que palavra as pessoas mais novas, como sobrinhas e filhos de amigos, vão rotular o que eu faço. Ainda assim, acho melhor que elas vejam o adulto-geração-y-cringe de hoje que tem coragem e faz, do que o adolescente-jovem-inseguro de ontem, que precisava se afirmar e ficava apenas na vontade de ser ele mesmo.

Então, como diria o Emicida em seus versos: Topar qualquer luta / Pelas pequenas alegrias da vida adulta / Eu vou.


Tiago Belote é fundador e curador de conhecimento no CoolHow – laboratório de educação corporativa que auxilia pessoas e negócios a se conectarem com as novas habilidades da Nova Economia. É também professor de pesquisa e análise de tendências na PUC Minas  e no Uni-BH. Escreve nesta coluna semanalmente, aos sábados.

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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