Cozinhar para escutar

  • Ana Holanda

Ir para cozinha, mais do que um ato automático, pode ser um momento para perceber pelo o que a sua alma clama

 

Gosto muito de uma frase que ouvi da monja Jeong Kwan: “eu cozinho para expressar aquilo que carrego dentro”. Kwan é uma monja budista que toca a cozinha do mosteiro onde vive desde que era uma garota recém-saída da adolescência, na Coréia do Sul. A história dela é contada na terceira temporada da série Chef’s Table (disponível no Netflix). Essa frase me marcou demais porque, para mim, o cozinhar nos leva muito para isso: o que carregamos dentro. Ao cortar, temperar, refogar, abrimos uma porta para esse mundo interno.

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No meio da quarentena, que todos nós estamos vivendo juntos – mesmo que separados – cozinhar tem sido, para mim, mais do que nunca, este território de escuta da minha alma. Desde o início, achei que tiraria isso de letra. Gosto desses momentos de reclusão. Mas, veja só, no quarto dia eu estava bastante irritada e mal-humorada. Fui para a cozinha para preparar o almoço, uma das minhas tarefas do dia. Peguei a cebola, a tábua de madeira e comecei a fatia-la com cuidado, porque queria que ficassem finas. Entre descascar, tirar camadas, medir a ação da faca – corta, mede, corta – fui indo para lugares em mim além das aflições externas. E, então, um pensamento nasceu: “para uma pessoa controladora deve ser difícil não ter controle”. Foi então que me dei conta de algo que, agora, parecia tão claro. Minha irritação era sobre isso, sobre não ter controle.

O preparo que mora dentro. Com presença

Nos últimos dias, tudo aquilo que eu estava apegada, meus compromissos, minha rotina, meu planejamento tão cuidadosamente feito, tudo deixou de ser. Desabou. E o certo deu lugar para o incerto. E, então, tive que me habituar a algo novo, desconhecido, como um caminho que eu não sabia onde iria dar, mas que precisava seguir. Minha irritação e meu mau humor naquele dia era sobre isso, sobre a minha ausência de controle. Era a maneira de me sentir desconfortável diante de tudo que ocorria ao redor. E olhar para isso me fez um bem danado. Trouxe a clareza necessária que eu precisava.

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Tem gente que gosta de sentar e meditar. Eu gosto de ir para a cozinhar e preparar algo. Ao bater um bolo, preparar uma carne ou mesmo cortar uma cebola meus pensamentos se acalmam, deixam de gritar todos ao mesmo tempo e fazem com que as palavras internas de revelem. Monja Kwan, em sua suave sabedoria, tem razão: cozinhar é sobre o que mora dentro. Que nesse momento de não estar fora, na rua, com os outros, a cozinha seja um lugar de encontro precioso com a gente mesmo. Independentemente do que você decidir preparar. Pode ser um ovo cozido, um sanduíche, um risoto, uma massa, um singelo arroz com feijão. O cardápio não importa. O que vale, de verdade, é que tudo isso seja feito com presença, a sua presença.



Ana Holanda é editora-chefe da revista Vida Simples, autora dos livros Minha Mãe Fazia e Como se Encontrar na Escrita, ambos da Rocco. Gosta de cozinhar e de escrever, sua maneira de estar no mundo e de lidar com seus sentimentos mais profundos. Escreve mensalmente nesta coluna.


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