Coragem-covardia: sobre ouvir a voz do coração

  • Myrna Coelho
  • FOTOGRAFIA: Istock

Quando pensamos no binômio coragem-covardia, somos transportados para cenas de enfrentamento de grandes guerreiros, batalhas épicas, animais perigosos ou monstros, grandes travessias e grandes saltos. Essa ideia de coragem como um grande salto, um “desembainhar de espada”, conversa com o conceito de patriarcado que vem sempre nos ajudando a pensar o mundo por aqui.

Conceitos duros, totalitários e que colocam em oposição afetos que se apresentam como contraditórios quando, na verdade, são complementares e necessários. É preciso acolher a coragem-covardia como acontecimento, como dinâmica, ao invés de simplesmente achar que é possível anular a existência de um com o outro, transformando esses afetos num jogo de “bem e mal”.

Em nosso cotidiano, esse binômio toma formas mais tênues e se apresenta com mais frequência do que a dos grandes enfrentamentos. E é nas pequenas coisas, nas pequenas vida-morte do cotidiano, que vamos atualizando nossa relação com nossa coragem-covardia.

Para a psicologia, de modo geral, a covardia fala dessa solicitação, a não se responsabilizar por ser quem se é. Colocar-se no mundo escondendo seu jeito próprio atrás de solicitações do que é o esperado, o bom, o certo, o melhor, enfim, o mais adaptado, é um “canto da sereia” que nos promete adequação, pertencimento e felicidade. Mentira. Não existe felicidade possível sendo quem não se é. Disfarçando a si mesmo.

O convite dessa covardia que estamos criticando aqui é para que a gente se encolha, se apequene diante de nossas próprias possibilidades. Isso vai, fatalmente, nos deixando desempoderados, nos distanciando de nossa intuição, da verdade do nosso coração.

 

Comum ouvirmos relatos nomeados como “depressão” ou “dependências” instituídos por esse processo. E aí a saída desse lugar vira mesmo essa coragem das grandes batalhas, das grandes guerreiras e dos grandes enfrentamentos. Porque depois que a gente se apequena, se encapsula, a gente vai ficando entrevado e endurecido e aí, para alongar novamente, haja trabalho.

 

Por outro lado, uma conexão mais sutil com essa coragem-covardia nos revela pequenos enfrentamentos do cotidiano que vão nos proporcionando estarmos em comunhão com nossa verdade ao invés de nos afastarmos cada vez mais da gente.

Assim, ser corajoso acaba sendo um modo de compromisso consigo mesmo, de  não se submeter às solicitações do mundo para que compremos grandes verdades ou morais, para essa adequação.

 

Podemos ver um exemplo de uma relação empoderada com o binômio coragem-covardia nas crianças. Eu brinco que o mote das crianças é “independência ou morte”, porque elas se lançam no mundo para desbravá-lo com o coração aberto e com toda força que têm.

 

Mas, ao mesmo tempo, estão sempre voltando para checarem a garantia do já conquistado, do familiar e do acolhedor. Elas vão e vêm, se lançam e se recolhem num movimento orquestrado a partir de seu próprio coração. E a função da educação costuma ser, majoritariamente, desconectar a criança para que ela responda às demandas do mundo, em nome da assim chamada “boa educação”.

 

Claro que isso não é fixo, não fica necessariamente claro e nem se dá de modo estático. Por isso escolhi o binômio coragem-covardia. A cada possibilidade que o mundo nos abre, ouvimos um chamado em alto e bom som do que o mundo espera que façamos, e um outro bem baixinho, um sussurro, do que nossa verdade aponta como caminho.

Nesse pulsar da vida, vamos tentando nos conectar com essa “rádio pirata” de modo mais autêntico, lançando mão – sempre – de ajudas, de coletivos, de parcerias que buscam o mesmo objetivo: atravessar as pequenas batalhas do cotidiano com gentileza e autenticidade.

Myrna Coelho é psicóloga clínica, professora e doutora pela USP. Decidiu recomeçar a vida do outro lado do oceano, onde segue atendendo seus pacientes e dando supervisão online. Por aqui, semanalmente, reflete sobre como podemos viver com mais liberdade de ser. Mande sua mensagem para: [email protected].


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COMENTÁRIOS

  • Pedro Pires

    Seus textos tem sido um sopro de alegria e felicidade por aqui. Beijos

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