“Torna-te quem tu és!” *

  • Margot Cardoso

A primeira e mais importante missão humana é a construção de quem somos.

*Píndaro, poeta grego (518 a.C.)

Desde que surgimos no mundo entra em marcha o nosso processo de autoconstrução. É como se nascêssemos aos pedaços e ao longo da vida fôssemos integrando as partes, como um quebra-cabeças. Se há segredos para a vida boa, grande parte deles certamente estão relacionados com a sabedoria para essa construção.

Carl Jung diz que o maior trabalho social, político e espiritual que podemos fazer é integrar a nossa própria sombra e, assim, parar de projetá-la nos outros. A construção do homem só pode ser feita a partir do seu próprio centro. A pergunta é “como se faz essa construção”? Cada ser humano é único, portanto, o processo da autoconstrução também é único. Não há uma receita pronta. Porém, é possível apontar algumas contraindicações.

A primeira delas talvez seja a nossa predisposição para rejeitar o novo ou o diferente. Às vezes, passamos a vida inteira a evitar um caminho e no fim descobrimos que ele era exatamente o que mais precisávamos. A nossa maior realização pode estar em lugares totalmente desconhecidos para nós. Como descobri-los? Expondo-se a eles ou se relacionando com pessoas que percorreram as tais temidas trajetórias.

O que poderia ser? Uma pessoa que vive uma realidade muito diversa da nossa, que exerce outras profissões, habita outra classe social, outra cultura… Muitos tem preconceito — e por isso medo — do diferente, do que não se compreende. Há quem se maravilhe e sinta uma grande revolução interior quando descobre afinidades com pessoas completamente diferente delas, como uma criança de oito anos ou um personagem de um livro de Dostoievski.

Preste atenção nas suas perguntas

Outro erro capital é não ouvir a própria voz. O primeiro conselho do famoso Oráculo de Delfos era “saiba bem qual é a sua pergunta antes de se dirigir ao oráculo”. Não ter medo ou preconceito dos outros, também serve para nós mesmos. Há pedaços seus que você considera malformados, feios, excessivos? Não finja que eles não existem. Converse com eles, lapide-os, aceite-os e, finalmente, integre-os. Há fantasmas que te assombram? Converse com eles.

“Nada teu renegue ou exclua”, recomenda o poeta Fernando Pessoa. Já ouvi o “não dá! Vou entrar em contradição”. Esse é outro caminho a evitar. A vida é complexa, é impossível ter uma vida sem contradição. Aceite isso!

Há quem envelheça negando ou negligenciando pedaços que julgam contraditórios. Você grita todos os dias “Some porque esse corpo não te pertence!” E eles não saem do lugar, continuam a orbitar à sua volta e vão te atormentar nas horas mais impróprias. É melhor aceitar que eles existem e mantê-los debaixo de olho. No futuro, quando a vida expuser toda a sua complexidade e você se sentir perdido, talvez esse seja o seu único pedaço capaz de te salvar.

Bem ou mal?  

Questões como “quando acontecem coisas más à pessoas boas” deixam-me perplexa. Como menina desconfiei desde cedo dessa dualidade. Todos os dias escutava a recomendação para ser meiga e boazinha. E também todos os dias presenciei a maldade das “amigas” na escola. Como poderia sobreviver sendo boa? Eu precisava do meu lado mau para me defender. Aprendi a desconfiar das “boazinhas”. Como a educação continuava a bater na mesma tecla da “menina meiga”, tive que lutar pelo meu lado mau, conquistá-lo, brigar para tê-lo comigo.

E essa é outra enorme contraindicação. Há pessoas que não aceitam o seu lado mau. Aliás, nem verbalizam. Tenho certeza que nesse momento acendeu uma luz vermelha na sua cabeça e que você pensou que eu peguei pesado, que eu deveria escrever “o seu lado não bom”. Entretanto, na vida de todos os dias, as pessoas seguem exibindo o seu lado mau e cruel. Um momento de fúria?  “Ah! Não conta. Não era eu. Eu estava fora de mim”. A maioria segue se enganando. E as práticas do mal são veladas, como as agressões passivas, por exemplo.

Há pessoas incapazes de assumir o “fiz mesmo por vingança” ou de romper um relacionamento com o “já não sinto nada por você”. Preferem deixar a relação apodrecer sob o filtro da indiferença. O que lhes escapa é que o mal maior está nessa segunda “solução”. O mal disfarçado é muito pior do que o mal óbvio, porque ele, muitas vezes, inviabiliza a defesa. Como combater a falsa bondade, a manipulação, a agressividade encoberta, o egoísmo sutil, a ironia depreciativa?

E porque razão a prática do mal disfarçado é tão comum? E aqui chegamos ao ponto inicial. Porque existe a recusa em assumir que fazemos coisas más. Quem não aceita ser capaz do mal, quando diz “já não sinto nada por você” sofre quase tanto quanto aquele que escuta. Porém, as consequências para os “bonzinhos” podem ser literalmente traumáticas. E aqui, um exemplo concreto. Muitos soldados que estiveram na guerra e desenvolveram o transtorno do estresse pós-traumático não foi porque presenciaram atrocidades ou foram vítimas de violência. A maioria das vezes, o que os traumatizou foi encarar o que eles foram capazes de fazer durante as batalhas. Como nunca olharam o seu lado escuro, não estavam informados e não foram capazes de aceitar o seu potencial destrutivo.

Ok. Eu sei que esse exercício vai contra a venerada psicologia positiva. E aqui reforço o meu reconhecimento sobre as suas técnicas — inclusive sobre a saúde do corpo. A psicologia positiva tem todo o meu apoio, só não tem é a minha cegueira. Não existe nada no mundo que seja dividido entre o bom e o mau — nem as pessoas. Do mais ínfimo ser unicelular até aos organismos mais complexos, todos abrigam o caos e a ordem.

O Yin e o Yang, os símbolos do taoísmo, condensam isso de uma forma belíssima. O ser  — a realidade em si mesma — é formado por princípios contrários. Comumente visto como feminino e masculino, o Yin e o Yang vão além. São o dia e a noite, a novidade e a rotina, o conhecido e o desconhecido, o claro e o escuro, o mundo e o submundo. Simbolizam duas serpentes. A serpente negra, o caos, tem um ponto branco na cabeça. A serpente branca, tem um ponto negro na cabeça. Isso porque o dia e a noite, a ordem e o caos são intercambiáveis, um é a continuação do outro, no eterno círculo do devir.

Alinhe a mente

Já sabemos isso de forma inconsciente, por isso, o nossa atração por histórias estranhas e surreais como a Bela e a Fera e o Pinóquio, com suas paisagens eternas do mundo e do submundo. Muitas coisas começam a se encaixar quando compreendemos conscientemente o mundo sob esses opostos. O polêmico pensador canadense Jordan Peterson afirma que é como se o conhecimento do corpo e da alma se alinhasse com a mente.

É exatamente sobre isso que os estoicos se referem quando dizem “viver conforme a natureza”. É a mesma dinâmica. A natureza veste-se de forma diferente para cada estação. Deixa-se cortar, vive dias de adormecimento e exibe-se de forma exuberante na sua Primavera. Siga o exemplo. Nada teu exclua ou renegue. Integre todos os seus pedaços e exiba-se inteiro na vida.


Margot Cardoso (@margotcardosoé jornalista e pós-graduada em filosofia. Mora em Portugal há 16 anos, mas não perdeu seu adorável sotaque paulistano. Nesta coluna, semanalmente, conta histórias de vida e experiências sempre à luz dos grandes pensadores.

 

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


POSTS RELACIONADOS

EDIÇÃO DO MÊS

Edição 230, abril de 2021 COMPRAR

TAMBÉM QUERO COMENTAR

 

Campos obrigatórios*