Como viver em paz com o que não podemos mudar?

  • Margot Cardoso

Autodomínio e lucidez amenizam o impacto dos “nãos” do mundo às nossas necessidades e expectativas e nos ajudam a viver em paz

Considerada como o pressuposto maior da arte de viver, a serenidade diante daquilo que não podemos mudar é antiquíssima e continua de boa saúde. Era um dos pilares da filosofia estoica, fundada em Atenas no século III a.C., e, na modernidade, é o principal indicativo de maturidade psicológica. Em qualquer tempo, aceitar o que não se pode mudar é uma das mais ambicionadas conquistas humanas. A sua importância está em toda a parte e tem quase status de mandamento. Porém, o que ninguém diz é que essa é uma façanha dificílima. Aceitar o que não se pode mudar exige a missão quase impossível de conciliar duas ações contrárias: construir e destruir a nossa humanidade. Está no topo da lista daquelas metafísicas absurdas que dizem para comermos o bolo e guardá-lo ao mesmo tempo.

Só com ajuda divina

Aceitar o que julgamos que não atende às nossas expectativas, ilusões e necessidades, é um exercício antinatural. Assimilar que o mundo não seja ou não disponha do que queremos — ou julgamos necessário — vai contra o nosso projeto interno de autoconstrução.  Não é por acaso que as sessões de grupos de ajuda — como os Alcoólicos Anônimos —  são abertas com a oração  “Deus, conceda-me a serenidade necessária para aceitar as coisas que não posso modificar, a coragem para modificar aquelas que posso e a sabedoria para distinguir umas das outras…”

Não poderia haver lugar mais adequado para essa oração. Esses grupos contemplam a maior concentração de pessoas por metro quadrado, que fugiram ao embate de lidar com um mundo que não é como eles gostariam. Incapazes do enfrentamento, refugiaram-se no único lugar que era como eles gostariam: o mundo modificado por aditivos. Aqui uma amostra da primeira estratégia humana perante o confronto com o “inaceitável”: a fuga.

Há outras escolhas para viver em paz?

Sim. Há quem prefira a negação. E negamos para quem? Para nós mesmos. Parece um boa estratégia, afinal se trata de um simples mecanismo de defesa. Não prejudicamos ninguém, mentimos apenas para nós mesmos. A psicologia não tem nenhum nome bonito para essa estratégia imatura e inadequada e lista as suas consequências: depressão, neurose e distúrbios de personalidade, como a esquizofrenia. Você já travou contato com uma pessoa que conta uma mentira óbvia e chega às lágrimas quando percebe que os outros não acreditam nela? É disto que se trata.

É por essa razão que o enorme Nietzsche associa essa capacidade à grandiosidade humana. A nossa força é medida pela quantidade de verdade que somos capazes de aguentar. Dostoiévski, em Os Irmãos Karamázov, vai ainda mais longe: “Aquele que mente a si mesmo e escuta sua própria mentira vai ao ponto de não mais distinguir a verdade, nem de si, nem em torno de si. Perde o respeito de si e dos outros. Não respeitando ninguém, deixa de amar”.

Não há saída

Fuga e negação contraindicados, resta o único caminho possível: o enfrentamento. A primeira e mais antiga recomendação vem dos estoicos: “aceite a oposição do mundo — e dos outros — como normal. Assimile que todos os dias haverá um confronto com algo inaceitável. O embate entre o que queremos e os “nãos” do mundo precisa ser visto como algo banal. Fazendo uma analogia, o desnível entre o que queremos e o que o mundo disponibiliza, deve ter o mesmo status do exercício físico. Estamos conscientes dos seus benefícios, mas mesmo assim, o corpo faz uma enorme resistência. No dia seguinte, temos dores musculares, porém, a médio e longo prazo, temos um novo andar, uma nova postura, um corpo forte. Devemos encarar o que não podemos mudar com essa mesma postura

Ajude-me!

Ok. É mais difícil do que o exercício físico (*.*). Até porque o tempo de duração é muito maior. O quadro é conhecido. Ruminamos culpas, consumimos dias a repassar cada detalhe dos acontecimentos, sentimos vergonha, concluímos que fomos negligentes, pensamos em autopunição. Sentimos como se tivéssemos dado um grande salto imprudente e ficamos zangados com nós mesmos. Contemplamos com vergonha as nossas asas de Ícaro derretidas pela realidade.

Todos esses sentimentos são inevitáveis e normais, fazem parte do processo. Mas não se pode demorar neles. Quando remoemos um projeto — seja profissional ou pessoal — que não teve o desfecho esperado, ou quando lidamos com perdas irreversíveis, habitamos o pântano estéril da estagnação. Insistir em algo que não depende da nossa ação é jogar sombra onde já não existe luz. É inútil. Deve-se avaliar o que sobrou, reconstruir-se e buscar outros caminhos.

Ver a floresta

Como enxergar outros caminhos? Com distanciamento. A busca deve ser direcionada do centro do drama para fora. Procure uma vista de cima. Se você não conseguir, peça ajuda e tente ver sob a perspectiva de outro olhar, de um amigo, por exemplo. É o consagrado olhar para a floresta em detrimento à árvore. Quando os nossos desejos batem de frente contra o muro, é verdade que nem as árvores conseguimos enxergar, no máximo as folhas. Afaste-se o máximo possível do seu centro. Olhar para o mundo como algo maior e mais complexo ajuda a relativizar o que consideramos intolerável.

Não consigo viver em paz!

Solta-se a mão e aceita-se tudo passivamente? Não. Voltamos ao início deste artigo, o nosso impulso vital estará mais aguçado do que nunca, a nossa força combativa, alerta. Ninguém está em paz na adversidade. Reúna toda essa artilharia e direcione para outro interesse que esteja dentro do seu raio de ação. O “não tenho isto” e não depende de mim, mas “posso ter aquilo” e este depende de mim e é para lá que eu vou. Isso pode parecer um prêmio de consolação, uma derrota no confronto, mas não é. É força interior. É maturidade.

O repertório do mundo

A fase seguinte é buscar outros possíveis caminhos, os planos B, C. Há um alfabeto todo de possibilidades onde o autoconhecimento e a compreensão do mundo são grandes aliados. Na Genealogia da Moral, Nietzsche dá exemplos de como a perspectiva altera conceitos. A maioria das coisas que consideramos inaceitáveis só têm uma ponte para se transformarem em maravilhosas: os olhos de quem vê. Algumas práticas que consideramos normais hoje foram muito combatidas quando surgiram.

A justiça é um exemplo. Quando surgiu a justiça aplicada pelo estado, ela foi considerada uma afronta. “Como o estado punir? Não quero justiça, quero vingança e quero ser eu a me vingar. Eu quero que o outro sofra e quero ser eu, o lesado, a infligir o sofrimento”. Na fase dois, quando o castigo físico, o enforcamento e a pena de morte foram substituídos pelo encarceramento também foi considerado um absurdo. Na calada da noite, muitos faltosos foram retirados do cárcere e executados por suas vítimas.

Nietzsche

Mais um exemplo? Os primeiros a terem a ideia do casamento foram duramente combatidos. “Ora, as mulheres pertencem a comunidade, são de todos, que ideia é essa de querer uma só para você?”. Na sua origem, o casamento foi encarado como uma agressão à comunidade. Só a título de curiosidade para quem pensa que essa visão pertence à épocas primitivas. Nos dias de hoje, em algumas comunidades tribais, a primeira noite da noiva é destinada ao líder do clã, como uma espécie de “taxa” pela ousadia. É claro que esses são apenas exemplos alegóricos do poder da perspectiva. E, nesse exercício, ainda podemos contar com um aliado poderoso: o tempo. Ele ajuda muito na construção de novos olhares e, sim, o tempo também melhora as coisas ruins.

Quando a vida apresentar um cenário inaceitável e você constatar que não há nada que você possa fazer. Pense melhor. Há algo que você pode fazer: endireite a postura, levante o olhar, contemple a diversidade do mundo e escolha entre as suas milhares de opções. E recomece o caminho.


Margot Cardoso (@margotcardosoé jornalista e pós-graduada em filosofia. Mora em Portugal há 16 anos, mas não perdeu seu adorável sotaque paulistano. Nesta coluna, semanalmente, conta histórias de vida e experiências sempre à luz dos grandes pensadores.

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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