Como uma pessoa com depressão vê o mundo?

  • Diogo Rodriguez
  • FOTOGRAFIA: istock

Estamos no #SetembroAmarelo, mês de conscientização a respeito da saúde mental. Sem dúvida, a sociedade já percebeu a importância desse assunto para o bem-estar das pessoas, para a economia, para o mundo de uma maneira geral. Iniciativas como essa ajudam a espalhar informações úteis para quem sofre desse tipo de doença e para quem não sofre. Só assim será possível compreender a seriedade que depressão, ansiedade, depressão bipolar e outros transtornos têm na vida de quem convive com essas condições.

Até aqui, tudo bem. Acho que muita gente já entende que a saúde mental é assunto sério, que precisa de atenção, etc. Mas creio que as pessoas que nunca tiveram transtornos têm uma certa dificuldade em entender como nós nos sentimos. Eu já senti muita dificuldade em explicar aos meus amigos, minha família e minha companheira o que é exatamente o que sinto, o que se passa na minha cabeça, por que às vezes fico tão mal. Existem poucos materiais que mostram o ponto de vista do deprimido, do ansioso.

Vocês vão dizer, é claro: Então como uma pessoa deprimida e ansiosa vê o mundo? O que se passa na cabeça dela?

Em primeiro lugar, é importante entender que os cientistas descobriram que o cérebro das pessoas com depressão têm algumas diferenças em relação aos das pessoas que não sofrem com a doença. A amígdala, região do cérebro que regula emoções como raiva, prazer e medo, é mais ativa em quem tem depressão.

O hipocampo, onde a memória e o estresse são processados, é menor em quem tem a doença. Isso mesmo, menor. Uma desregulação no tálamo, região que lida com informações sensoriais e sensações (boas e ruins), pode levar a transtornos como depressão bipolar.

De uma maneira geral, essas alterações no cérebro podem levar a problemas na produção e absorção de hormônios como a serotonina (que regula o sono e o humor) e a norepinefrina, que afeta a motivação.

Por que estou enumerando essas informações científicas? Porque quero que vocês entendam que a saúde mental é uma coisa concreta, que se manifesta no corpo, na fisiologia, no cérebro. É mais do que apenas “sentimentos”, “motivação”, “força de vontade”.

A maioria das pessoas, felizmente, passa por episódios depressivos, de ansiedade, e logo sai deles. Não duram mais do que alguns dias, no máximo semanas. Não é o meu caso, por exemplo. Há anos sinto essa ansiedade crônica, que às vezes é mais intensa, às vezes menos intensa.

Quando alguém está passando por depressão ou ansiedade, é muito difícil entender que aquilo pode passar. Mais duro ainda é entender que o medo que sentimos não é real.

Muitas vezes, tenho crises de ansiedade que não têm um motivo aparente: não “aconteceu” nada específico. O que acontece é que meu cérebro funciona de maneira, digamos, desregulada, interpretando coisas que não são ameaças para a maioria das pessoas como perigos. Pensa que estou exagerando? Para um ansioso crônico, qualquer coisa pode desencadear uma crise. Muitas vezes nós nem sabemos o quê.

Funciona de maneira muito parecida com a depressão. O deprimido vê o mundo sob uma lente negativa, pessimista, especialmente em relação a si próprio. Ele tem certeza de que não há futuro para ele, que seus defeitos são incorrigíveis, que ninguém liga para ele, que o mundo nem perceberia sua ausência. E repito: não é exagero, não é tentativa de chamar a atenção. Nossa visão fica completamente distorcida. De novo, é o cérebro desregulado em ação.

Quando estava pensando em escrever este texto, me perguntei se havia alguma representação visual disso tudo que estou descrevendo. E um grande amigo me lembrou de um curta de animação francês chamado “Skhizein“, de 2008. No filmete, um meteorito gigante atinge a Terra, caindo em frente ao prédio do personagem principal.

O efeito do impacto é que o homem se vê deslocado em 91 centímetros do mundo. Para conseguir se sentar numa cadeira, por exemplo, não pode se aproximar dela. Tem de ficar a 91 cm do objeto para poder se sentar. Isso vale para tudo a seu redor: o telefone, o divã do psicólogo, a máquina de escrever no trabalho. Por conta disso, ele fica cada vez mais isolado, deixa de ver as pessoas queridas. Não vou contar mais para não dar spoilers.

A imagem criada pelo cineasta Jérémy Clapin é muito boa: a doença mental cria um distanciamento entre nós e o mundo. Continuamos a existir no mesmo ambiente de sempre. Mas tudo parece estranho. Nos sentimos deslocados, errados. As coisas simples se tornam difíceis de fazer. Recomendo o filme principalmente àqueles que buscam entender o que se passa na cabeça de alguém próximo que tem um transtorno de saúde mental. Para quem tem depressão, ansiedade ou outra condição, recomendo cautela porque o filme pode ser gatilho para uma crise.

Tenho consciência de que é difícil explicar aos outros como nos sentimos. E, apesar de ter tentado, acho que falhei na missão de fazê-lo aqui. No entanto, esse esclarecimento é um processo e leva anos. Estamos apenas começando. Na primeira vez em que assisti “Skhizein” [deixo o vídeo abaixo caso você queira assistir também], por volta de 2009, me identifiquei muito com o filme. Ainda não sabia que eu tinha ansiedade generalizada. E só muito depois fui compreender que isso poderia me levar à depressão, o que de fato aconteceu.

O mais importante é continuar tentando, criando textos, filmes, arte, que mostre ao mundo a nossa visão. Precisamos da ajuda da sociedade para lidar com essas condições. E quem sabe não conseguimos ajudar pessoas que ainda vão passar por isso e, por conta do nosso esforço, tenham acesso a mais informações que as ajude a entender pelo que estão passando.


Saiba mais:

> How Your Brain Works When You’re Depressed.

> “Skhizein“, de Jérémy Clapin:

 

Diogo Rodriguez é jornalista e foi diagnosticado com depressão há cinco anos. Desde então, vem estudando o assunto. Escreve neste espaço às quintas-feiras –e divide mais sobre o tema no perfil @falandodepressao. Para conversar com ele e compartilhar sua experiência com saúde mental, mande um e-mail para [email protected]


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