Como sobreviver a tempos bicudos

  • Fábio Gandour
  • FOTOGRAFIA: Clem Onojeghuo | Unsplash

Quando os tempos estão difíceis e quando esses ciclos de dificuldade se prolongam, o desconforto e o descontentamento se propagam em muitas direções. É preciso tentar saber e conhecer essas propagações, de onde elas vêm e até onde elas irão. É um pouco disso que este texto tenta fazer.

 

A origem e o significado da expressão “tempos bicudos” já foram bem explicados em outra coluna aqui na Vida Simples, escrita pelo amigo Eugenio Mussak, ainda que em outro contexto, promovendo a necessidade de alimentarmos um pensamento otimista. Vale a pena começar por lá, antes de continuar a leitura aqui.

Sem dúvida que o pensamento otimista é essencial, principalmente no espaço desta publicação que, através da promoção de um viver mais simples, equaliza os vetores representados pelo ser, pelo conviver e pela necessidade de transformar. Mas para ser, conviver e transformar, é também preciso saber e conhecer. Saber que os tempos andam bicudos. E conhecer o porquê.

Sim, os tempos andam bicudos. E o que faz os tempos bicudos são as divergências. Divergências no pensar, mas principalmente no agir. Pensamentos diferentes e divergentes promovem preferências diferentes, que vão desde coisas mais simples, como gostar mais do vermelho do que do amarelo, até coisas mais complexas, como preferir uma ideologia que odeia as outras. Sem saber e conhecer essas diferenças e as divergências que elas promovem, é cada vez mais difícil conseguir ser, conviver e transformar.

Tempos bicudos, por um curto período, também produzem reações nas pessoas, mas que em geral, são menos intensas e mais rápidas. Quando esses tempos se prolongam, o desconforto e o descontentamento se propagam em muitas direções. É preciso tentar saber e conhecer essas propagações, de onde elas vêm e até onde elas irão. É um pouco disso que este texto tenta fazer.

 

Tempos bicudos por muito tempo

Tempos bicudos, por um longo tempo, acentuam diferenças que antes, mesmo existindo, eram mais difíceis de serem percebidas. E as diferenças acentuadas causam mudanças em direções imprevisíveis e o aumento da violência é uma direção muito frequente. Até em sociedades onde a violência de um contra o outro são historicamente incomuns, nos tempos bicudos as diferenças de pensamento promovem reações violentas.

O assassinato do ex-primeiro-ministro do Japão é um recente exemplo de uma reação violenta motivada por uma diferença de opinião contra um líder político nacional, que se definia como conservador, populista e nacionalista. E pouco se sabe sobre a opinião de quem cometeu a violência, mas certamente, na raiz da ação injustificável, está uma divergência de opinião. De onde veio a para onde vai tudo isso?

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Nikolai Kondratiev foi um economista russo que viveu entre 1892 e 1938. Além de economia, Kondratiev também estudou o comportamento da sociedade e suas formas de organização política e social. Seu trabalho mais conhecido revela que a civilização evolui em ciclos, que duram de quarenta a cinquenta anos. Nestes ciclos, existem períodos de prosperidade, recessão, depressão e melhoria. Em uma interpretação bem simplista do que veio a ser chamado de “ondas de Kondratiev”, pode-se dizer que passado um tempo, tudo volta ao ponto de partida. Na economia, na política, na sociedade e no comportamento.

As conclusões a que chegou Kondratiev não agradaram muito os pensadores dominantes de sua época, tanto que ele teve um final de vida meio obscuro, em algum canto da Sibéria. Depois dele, outros estudiosos da civilização fizeram estudos semelhantes para concluir que, de fato, os ciclos se repetem. O que muda é o tempo de repetição, peculiar a cada área que se estuda. Todos estes estudos têm fases otimistas e de certo conforto interior, como são as fases de prosperidade e melhoria, mas também passam por períodos de pessimismo geral, causados por recessão e depressão.

De fato, na evolução política, econômica e social, passadas estas fases, tudo volta ao ponto de partida. Por ação de mudanças estéticas, o jeitão pode até ser diferente, mas as fases dos ciclos retornam tudo ao ponto de partida.

Quem acompanha e evolução da economia mundial já ouviu falar que estamos passando por uma época de inflação generalizada. Algo que sempre pareceu um fenômeno tão brasileiro, de repente acontece no mundo inteiro. Daqui para lá. Também ouvimos notícias de guerras acontecendo por aí e que, infelizmente, tem trazido consequências para nós, do Brasil. De lá para cá.

Paira por sobre tudo isto, um evento de proporções planetárias que surgiu em 2019 e parece longe de terminar por completo: a pandemia de COVID 19. Na falta de outra explicação melhor, tudo pode ser atribuído à pandemia. Tudo foi causado por ela, tudo é resultado de seus efeitos e, provavelmente, muita coisa que deixou nossos tempos mais bicudos foi realmente causa direta ou indireta da pandemia, mas também pode ter sido uma consequência da evolução cíclica da sociedade, como descreveu Kondratiev. Um dia saberemos.

 

O que realmente importa

Para este texto, neste espaço digital, alinhado aos objetivos da marca Vida Simples – que em 2022 completa 20 anos! – o que importa é você saber que os acontecimentos atuais tem tido impactos não apenas na economia, na política e na sociedade em geral.

Caminhando do macro para o micro, a observação do planeta mostra que o clima anda rebelde e imprevisível. Levando agora a observação do planeta para seus habitantes, reduzimos a escala de observação, mas encontramos um outro traço comum igualmente importante e grave: aumentou a fome no mundo.

Observando o povo e seu comportamento coletivo, assumir posições radicais e de intolerância em qualquer direção, tem sido um comportamento cada vez mais frequente. Do coletivo para o individual, não passa muito tempo sem que algum indivíduo use uma arma para atingir alvos inexplicáveis. Na escola, no shopping, no desfile comemorativo da rua ou na sua própria cabeça.

Será que tudo isto também é consequência da pandemia e da pressão psicológica causada pelo isolamento exigido no seu controle? Ou será que tudo isto é apenas a evolução entre fases de mais um ciclo de Kondratiev ? Difícil dizer…

O que realmente importa é que você sabia de tudo isto. Ao saber, você irá conhecer as nuances de coisas e pessoas neste momento. Só assim você vai conseguir ser, conviver e transformar, a caminho dos próximos vinte anos. Vamos juntos.

 

 

Leia todos os textos publicados na coluna de Fábio Gandour em Vida Simples.


FÁBIO GANDOUR é formado em medicina e dedicou-se à pesquisa científica. Neste momento, anda feliz pelo 20º aniversário da Vida Simples. Mas também um pouco assustando com estes tempos bicudos. Confiante no lema de ser, conviver, transformar, achou que seria importante compartilhar esta visão com vocês.

 

*Os textos de colunistas não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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COMENTÁRIOS

  • Bianca

    Falou, falou… e não disse nada. Texto inconclusivo.

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    • Vida Simples

      O que você sente que faltou? Gostaríamos de ouvir você 😊

      Responder
  • Geraldo

    Presumo que a Bianca tenha sentido aquela máxima de “causa e efeito”! Um dos princípios básicos da Soberania Nacional é o País ter consciência da sua Realidade e Não replicar a da Europa, por exemplo! Por esses dias, noticiado no Yahoo, que o Bolsonaro num de seus “devaneios” disse que os jovens deveriam eles próprios “buscarem” emprego. Mas eu perguntaria: Foram os jovens que definiram o Brasil com força de trabalho idosa, como a Europeia, onde la faz sentido protelar a Aposentadoria!? Já o Brasil poderia manter as regras antigas de aposentadoria por mais duas gerações e estar sem recessão! Quem já trabalhou em Comércio sabe como é exigente a atividade e, num dia um funcionário cinquentão chegando para começar a atividade de Caixa como se jovem fosse; auto estima e mente jovem, louvável, mas tocar 8 hs diárias de jornada exige vigor físico. Também não é raro, acidentes com motoristas a partir/por volta dos 70 anos, indo ou voltando de jornadas diárias! Se foi algo “positivo” do Isolamento Social foi em muitos casos, a antecipação da sucessão de negócios familiares! Pouco antes do Decreto, uma senhora bem estressada com funcionários e, depois dos protocolos sanitários, cabelos pretos na gestão, até comentei com um deles: sucessão antecipada, ele até como que desabafou: começando a trabalhar. Digo que desabafou por ele já dever estar, na ocasião, por volta de 25 anos! Atualmente, a senhora felizmente deve ter se conscientizado, a usufruir a merecida “aposentadoria”, claro se mantendo na supervisão mais “light” da atividade! Outra “pérola” brasileira é quem tem mais de 50 anos, ouvir que Brasil importa fertilizante, quando no Século passado (inteiro) era conhecido por “em se plantando tudo dá”!!!

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