Como não se importar com o que os outros pensam

  • Margot Cardoso

O medo da opinião dos outros é a primeira barreira inibidora da vida. Deixamos de cuidar da nossa autoestima, perdemos o gosto pela liberdade e, muitas vezes, o seu efeito é paralisante

 

Já foi aqui falado que somos movidos pelo desejo de agradar. E nesse exercício qual é o nosso termômetro? A opinião dos outros. Importamo-nos muito com que os outros pensam sobre nós. Se não há uma opinião favorável sobre nós não somos aceitos, amados, admirados. E pior, somos rejeitados pelos outros. E quem são esses outros? Geralmente são aqueles que admiramos. Experimentamos o bem e o mal da opinião dos outros desde cedo. Mas incrivelmente, nunca chegamos a ser experientes. Uma criança no jardim de infância lamenta que o amigo não queira brincar com ela. O adolescente sofre e carrega o trauma de não fazer parte do grupo dos populares para a vida adulta.

Nessa luta, há várias formas de confronto. Há quem lance mão do prático-racional “não estou aí”, “ninguém paga as minhas contas”. Os duros na queda dizem simplesmente que “não se importam com os outros”. Parece uma solução, ocorre que não é verdade. A vida é com o outro, tudo o que fazemos caminha em direção ao outro. Pensamos, agimos, reagimos, refletimos, ecoamos…. tudo com o outro.

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Mesmo Nietzsche que tinha uma real consciência da sua grandiosidade, sabia dos seus muitos níveis acima do cidadão comum e tinha um longo caminho percorrido em direção a si mesmo, ansiava pelo olhar dos outros. Sócrates, convicto de que sua missão era fazer o outro refletir sobre a vida, teve de escolher entre parar de falar aos outros sobre filosofia, sair de Atenas ou tomar cicuta. A primeira opção ele rejeitaria a si mesmo, a segunda ele teria de rejeitar os outros… Optou pela cicuta.

Olhar para nós mesmos

Se acaso essa é a nossa vocação, qual é o mal? O mal é que geralmente passa-se da medida e inverte-se o sentido: ao invés de olhar para dentro, agir e buscar a interação com o outro, faz-se o caminho inverso: passa-se a agir a partir do julgamento do outro. A inversão do sentido dessa normalidade é uma má notícia quando lembramos que a nossa missão primeira é olhar para nós mesmos, para a nossa essência, dando início ao processo que dura a vida inteira: a nossa própria construção. Essa tarefa — sem fórmula — é única e precisa de todo o nosso empenho.

Eu? Não

E nesse processo de autoconstrução, os outros, decerto, têm um papel fundamental. Precisamos deles. Não há outra maneira de viver. Bem… há: a opção eremita. Fora o isolamento, não há outro jeito. Não podemos dispensar o outro. E é verdade: nós nos importamos muito com o que os outros pensam sobre nós. A única coisa a fazer é administrar as doses. É não deixar que a opinião do outros comandem os nossos pensamentos e ações.

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Dito dessa forma parece um exagero, um comportamento improvável. Ocorre que fazemos isso também de forma inconsciente e, às vezes, de forma velada. Ouvimos repetidamente sobre avaliações e resultados — principalmente na esfera profissional. Quem avalia e quem mede os resultados? Os outros. O anormal é que isso não ocorre apenas nas empresas e na vida escolar/acadêmica, ocorre também nas nossas conquistas privadas. Há quem só saiba avaliar as suas realizações através do reconhecimento externo. Você quer estar uma semana numa ilha deserta com uma celebridade do cinema? Claro! Mas, sem telefone, sem fotos, sem nenhum tipo de registro… Ninguém vai saber? Ah! Então não.

Tenho medo

Outro mal. Quem é dependente do julgamento dos outros, tem um medo anormal de rejeição, tende a ter o foco apenas no resultado. E por isso não usufrui da trajetória, sofre. Então imagine um projeto que dura dois anos… Pior do que isso, só a fase dois do medo, a paralisia. A quem tenha tanto medo do insucesso seguido da opinião do outros quem simplesmente não faz. Um exemplo é de quem ama determinado ofício, mas nunca inicia por medo da desaprovação dos outros.

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Todos nós — em maior ou menor grau — sofremos com o opinião dos outros. O que fazer? Vigilância e autoanálise. Devemos estar muito atentos sobre quem está no comando. Não abra mão do seu protagonismo. Seja o roteirista da sua vida. Adquira o hábito de separar muito bem quais são as suas palavras e quais são as dos outros. Principalmente quando essas palavras são contra nós. A opinião dos outros é a dos outros — mesmo. Não são suas e muitas vezes, estão longe da verdade.

Não leve tudo para casa  

Muitas vezes a opinião dos outros sobre nós, diz mais sobre o outro do que sobre nós. Porque uma apreciação negativa pode ter origem no passado do outro ou mesmo no seu momento presente. Que isenção podemos esperar de alguém que está inseguro, estressado ou de mal com a vida? Há quem espere apenas uma brecha para despejar o seu arsenal de frustrações. Saia da mira.

E, claro, devemos escutar o outro, mas com discernimento. Primeiro avalie se a opinião do outro soma, se é possível aprender alguma coisa com ela. Para isso, reveja os seus objetivos, suas necessidades e as suas buscas. Não perca de vista o seu caminho. Colha o que estiver alinhado com o que você deseja e descarte o que não contribui para a sua causa. E sobretudo, fuja daqueles que — com seus medos  e traumas — diminuem a sua força. Posto isso, entre medos e traumas fique apenas com os seus.

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Eu sou mais eu

Todas as tarefas descritas acima são muito mais fáceis de serem executadas a partir de uma autoestima forte. A equação é: quanto mais autoestima elevada, menos necessidade de aprovação. Quando conhecemos a nossa força, inegavelmente, a desaprovação dos outros pesa menos. Você já teve a experiência de ouvir dizerem mal de alguém que você tem em alta conta e a sua opinião sobre ela continuar intacta? Essa é a ideia. Tenha uma confiança inabalável também sobre você mesmo. E quando ficar na dúvida entre a sua opinião e a do outro, escolha a sua. Ninguém conhece você melhor do que você mesmo.

Aceite que é assim

A partir de agora, depois de todas essas precauções, as sensações de  insegurança e a rejeição passarão longe de você? Não. A rejeição sempre chega. E esse é mais um motivo para que você não dê a esse tópico excessiva importância. Haverá sempre rejeição. Não leve os outros muito à sério. Esperar harmonia e aceitação constantes é frustrante e nos transformam em pessoas reativas. Mas ao aderirmos a uma posição impopular também não sofremos? Talvez. Autonomia, envergadura emocional são conquistas que vem com o tempo. Mas é também uma questão de treino.

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Relaxar e permanecer em seus próprios sapatos é ainda a melhor opção. Mas e se eu quiser MESMO ser aceito e não reprovado; amado e não rejeitado? Também para isso, essa é a melhor opção. Quem está ocupado em construir-se a si próprio, vive no presente, está alinhado com a sua humanidade e não tem tempo para remoer a opinião dos outros. Quem segue o seu próprio caminho, seja como for, tem uma vida autêntica e interessante. Está um passo fora da manada, é exemplar único. E exatamente por isso é aceito, admirado e amado. Então, o caminho é mais simples do que parece: seja você mesmo!

Margot Cardoso (@margotcardoso) é jornalista e pós-graduada em filosofia. Mora em Portugal há 16 anos, mas não perdeu seu adorável sotaque paulistano. Nesta coluna, semanalmente, conta histórias de vida e experiências sempre à luz dos grandes pensadores.

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