Como matrioskas

  • Cris Guerra
  • FOTOGRAFIA: Alina Grubnyak | Unsplash

Quando estamos perdidos, o único jeito é olhar para dentro e percorrer o caminho de volta para nós
mesmos

Fora de si. Não há expressão mais adequada para falar de alguém cuja alma parece estar desalinho com o corpo. Vejo a roupa como uma espécie de alma, uma moradia do corpo. Por isso, sagrada. A forma de vestir revela o conforto – ou desconforto – de uma pessoa em na própria pele. Há os que moram fora de si. Que não se sentem à vontade sendo quem são. O incômodo se revela em sua forma de vestir e, olhando mais de perto, também na forma de morar.

As escolhas particulares para vestir e morar são verdadeiros inventários da autoestima. A roupa é a nossa primeira casa, que nos protege, conforta. Noutra casa maior ainda, feita para morar, assentam-se corpo, alma, roupa, mundo. Ali estão os objetos que amamos, as formas que nos abraçam e os cantos para os quais fugimos. Casa é o entorno que me faz carinho. O reflexo de como eu me trato. Gostar da minha casa é gostar de estar em mim. Minha casa não precisa ser grande pra me fazer feliz (abraços apertados costumam ser os melhores). Uma casa que me sorri sabe que tudo está em seu devido lugar: alma, corpo, coração, vontade. E se essa narrativa for uma foto, ampliando ou reduzindo a “imagem”, o significado é o mesmo. A alma mora no corpo que mora na roupa que mora na casa que mora na rua, bairro, cidade, país, mundo.

Almas em desalinho com o corpo estão em total desarmonia com todo o resto. Esse estar confortável em si mesmo é também um grande aprendizado. Não há como aprender com o outro a ficar satisfeito com seus caminhos. Observe: tem alma que está em seu ninho, outras não. Vagam por aí ouvidos que não escutam, olhos que não enxergam, corações que batem sem saber amar. Mas ninguém pode encontrar o caminho de volta a não ser eles mesmos.


CRIS GUERRA acaba de lançar Procurava o Amor em Jardins de Cactos. Escritora, apaixonada por moda, acha que até as palavras servem para vestir. Escreve mensalmente na edição impressa de Vida Simples


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Quando enxergamos a passagem do tempo com consciência, reconhecemos que a jornada pode ser cheia de beleza em todos os anos da nossa existência


COMENTÁRIOS

  • Claudia Bezerra

    Que texto mais lindo! 😍
    Parabéns!

    Responder
  • Andrea

    Deve ser por isso que as vezes me sinto feia.A minha casa é desarrumada e por mais que eu ou minha mãe limpe, ela nunca fica arrumada. Fico constrangida quando as pessoas passam da porta da sala.O que devo fazer?

    Responder

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