Como lidar com a decepção?

  • Margot Cardoso

Expectativas irrealistas, visão desfocada do mundo e excesso de otimismo podem estar na origem do embate doloroso entre os nossos desejos e a realidade possível.

 

Dentre todos os sentimentos humanos, não há nenhum tão constante quanto a decepção. Hoje, desde que abri os olhos, já me decepcionei com o tempo, com a escolha do restaurante, com a chave do carro que insiste em desaparecer… Mas essas são decepções banais  — moem, mas não matam. As piores são mesmo as que envolvem os relacionamentos. Quanto mais idealizamos o mundo e os outros — e até nós mesmos — maiores serão as decepções.

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Depois de uma enorme expectativa sobre um novo trabalho, ele revelou-se entediante e difícil? Contava com um desfecho justo numa questão legal e ele não aconteceu? Esperava lealdade numa relação e um dia é surpreendido com uma mentira? Acreditava estar acompanhado e depois veio a revelação de que caminhava sozinho? Às vezes, há apenas uma frustração difusa, sem explicação. Reflita e você encontrará as expectativas difíceis de combater, as  interiorizadas, que fazem parte da sua personalidade. Quase não se notam… até que a decepção chega.

A queda

No trabalho, na família, nas amizades e, principalmente, no amor. Todas as relações comportam mil e um tons de decepção. Seja por um equívoco, uma frase dúbia, um fato não sabido que vem à tona…  Quando menos se espera, lá aparece um desapontamento, uma fissura, uma frustração, um desgosto. Uma espécie de estranheza que contamina tudo aquilo que julgávamos certo.

E, claro, às vezes ela surge no seu nível máximo. E há quem nunca se recupere. A decepção em doses elevadas é a responsável pelas dores emocionais, obsessões e traumas. Depois que ela se instala, passa-se os dias a remoer, a procurar causas, explicações. E, nesse exercício, o decepcionado oscila: ora se vê como vítima, ora se vê como agressor que busca vingança.

Seja estoico

O estoico Sêneca para quem a principal função da filosofia era ensinar o homem a superar os conflitos que advém do embate entre os nossos desejos e a realidade, ocupou-se da decepção com grande empenho. E a sugestão de Sêneca é atuar sobre a origem e os caminhos que levam ao desapontamento: as expectativas. E recomenda o básico do estoicismo —  “não tenha expectativas” ou o “prepare-se para o pior” —  heresias simplistas em tempos de positivismo oco. Porém, Sêneca defendia que suportamos melhor as frustrações para as quais nos preparamos e compreendemos; e somos duramente atingidos por aquelas que menos esperamos e não conseguimos entender.

Não dá!

E se não for possível? Tenha-as no nível mínimo, diz Sêneca. É uma forma de amenizar o golpe, já que o grau de decepção costuma ser proporcional à expectativa. A ideia é uma espécie de precaução para que os nossos desejos batam com a maior suavidade possível contra o muro inflexível da realidade.

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Ah! Mas, as expectativas, o sonhar acordado é tão bom! Nosso contemporâneo, o filósofo francês André Comte-Sponville  — apesar de distar quase dois mil anos de Sêneca — concorda com o estoico. E combate, principalmente, a expectativa na sua versão existencial — a esperança. E não é apenas pelo perigo da decepção. Para Sponville, a própria esperança em si já é danosa. Vejamos: aquele que espera vive sem alegria, na falta e na ignorância. Espera algo que não tem e não sabe se terá. Vive em suspenso, impotente para a ação.

Duro, mas útil

Como assim, não ter expectativas, não ter esperanças? É verdade. O estoicismo não é uma prática fácil. Mas é uma arma valiosa para a reflexão. Aquela pessoa te decepcionou ou foi você que esperou demais dela? Ela prometeu alguma coisa? Ela conhecia as suas expectativas? Tinha alguma obrigação de corresponder ao que você esperava? Sêneca recomenda que se espere das pessoas apenas o que elas podem, de verdade, oferecer. Questione as suas expectativas, verifique se elas são realistas e exequíveis. E, principalmente, mantenha as expectativas baixas em relação aquilo que você não pode controlar, como o pensamento, o sentimento e a ação de outras pessoas. Não há problema, você tem tudo controlado, tudo conversado, reafirmado…. Mesmo assim, acautele-se: as pessoas costumam mudar de ideia.

Profissão: expectativa

E quando não dá para abrir mão das expectativas? Acontece. O motor do mundo do trabalho é movido por expectativas, não existe sem elas. Por isso, os gurus do mundo corporativo já transformaram essa luta em disciplina: a gestão de expectativas. Muito alinhada com o estoicismo, eles ensinam que é preciso verificar se são realistas, se todos os envolvidos estão devidamente informados e comprometidos. Se uma expectativa envolve três ou cem pessoas, todas devem estar alinhadas.

Segure a onda

Não tomei precauções, não administrei as expectativas… e agora? A dor da frustração é aguda. E, no amor, se não são bem geridas podem se transformar em dores emocionais permanentes ou em tragédias. Quem não conhece o espetáculo deprimente — e algumas vezes, público — de algumas rupturas amorosas. Nesse grau de decepção muitos perdem a dignidade e partem para o desespero canalha atirando para todos os lados. O que fazer? A serenidade é o único antídoto para evitar atos indignos e arrependimento. Se for muito difícil, não há mal em pedir ajuda de um profissional.

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Ok. Você mais ou menos intuiu todos esses ensinamentos, tentou se prevenir, baixou as expectativas, mas a decepção está mesmo à sua frente. Não se preocupe. Se todos os entraves foram avaliados, todas as saídas vislumbradas…  Você certamente terá uma queda suave — ou pelo menos uma queda digna —  e a frustração será muito melhor tolerada. E, se mesmo assim, a frustração for duramente sentida? Eis que chega ao nosso socorro, o grande Machado de Assis. Em Memórias Póstumas de Brás Cuba ele pontua algumas máximas sobre a arte de viver e entre elas figura a “antes cair das nuvens que de um terceiro andar”. Não dramatize. Tenha brio, recuse o papel de vítima, solte tudo o que suas mãos agarram. Recomponha-se, afine as suas estratégias e escute os estoicos, pois mais frustrações te esperam ao virar da esquina. Mantenha-se lúcido e… alegremente preparado.

 

Margot Cardoso (@margotcardoso) é jornalista e pós-graduada em filosofia. Mora em Portugal há 16 anos, mas não perdeu seu adorável sotaque paulistano. Nesta coluna, semanalmente, conta histórias de vida e experiências sempre à luz dos grandes pensadores.

 

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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