Como ajudar as crianças a lidar com a frustração?

  • Thais Basile
  • FOTOGRAFIA: Istock

Gritar ou punir uma criança que está numa crise emocional por conta de frustrações é como querer apagar fogo com gasolina. Precisamos desenvolver a empatia em nosso modo de educar

Como você se sente quando tem uma ideia super inovadora e alguém usa como se fosse dela? Como se sente quando guarda o último pedaço de bolo na geladeira para si e alguém come? E quando o computador fecha com seu trabalho recém terminado, mas não salvo? É terrível para nós, não?

E olha que nós, adultos, já temos desenvolvida a parte do cérebro que consegue lidar com essa frustração, com essa dor proveniente das situações que não saíram como a gente queria e esperava. Essa área se desenvolve plenamente perto dos 25 anos, dizem os neurocientistas. E a gente espera que os pequenos saibam lidar com suas perdas, dores e frustrações, como nós.

Para eles, um bloquinho que caiu, uma fruta que acabou, uma pessoa que foi embora, pode ser tão frustrante quanto qualquer uma das situações que eu falei antes, com a diferença que eles ainda não tem a área do seu cérebro desenvolvida para regular essas emoções grandes, como nós adultos já temos.

É por isso que gritar ou punir uma criança que está numa crise emocional por conta de frustrações é como querer apagar fogo com gasolina. Eles irão reagir com seu cérebro mais primitivo, que responde com reações de luta, fuga ou paralisação.

Tem crianças por exemplo que ficam com uma força sobre-humana quando os pais a punem ou gritam, se debatem mais ainda, fogem, e tem algumas que paralisam de medo. São esses casos de paralisação por medo que os antigos chamavam de “sucesso” na educação.

Se ele parou quando eu ameacei, bati, gritei, “deu certo”. A criança para, na verdade, porque está congelada de medo, não porque foi acalmada e acolhida para poder voltar ao seu racional.

Existe a resposta à frustração que não é exatamente uma sobrecarga emocional, mas choro, por exemplo. A criança que chora por estar frustrada não precisa sentir mais nenhuma emoção em cima daquela, ou seja, não precisamos envergonhá-la ou causar medo, nem dizer que ela não precisava chorar por aquilo.

Isso não quer dizer que a partir desse choro vamos ceder ao que a criança queria e não conseguiu, só quer dizer que vamos ajudá-la a lidar com a frustração por não ter conseguido. O problema é que nós, adultos, achamos que a criança não pode “querer” algo que consideramos inadequado, esquecendo que ela ainda não internalizou todas as regras sociais.

Educar com base na empatia e no respeito demanda uma mudança do olhar para nós mesmos, porque o padrão de educação verbalmente violenta que tivemos vem à tona sempre que nos sentimos acuados.

É preciso nos conscientizarmos de que as crianças precisam de mais, precisam do nosso olhar compassivo e da nossa autoevolução para crescerem mais saudáveis e empáticos do que a nossa geração.

Esse caminho de cura do adulto que somos pode ser desafiador, porque é justamente o caminho de uma vida. Nossos filhos podem ser grandes motivadores para essa mudança de olhar, e vamos colher junto com eles os frutos dessa mudança.

Thais Basile é mãe da Lorena, palestrante e consultora em inteligência emocional e educação parental, eterna estudante. Apaixonada por relações humanas e por tudo que a infância tem a ensinar. Compartilha um saber para uma educação mais respeitosa no @educacaoparaapaz. Escreve nesta coluna às segundas-feiras.


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