Como a terapia ajuda a lidar com o sofrimento

  • Diogo Rodriguez
  • FOTOGRAFIA: Istock

Confesso que, há alguns anos, eu acreditava que terapia era uma coisa apenas para quem é muito perturbado. Quando tentava imaginava que tipo de pessoa frequentaria o consultório de um analista, a imagem que vinha era a de pessoas descabeladas, desconjuntadas e desesperadas. Talvez por isso eu tenha resistido a procurar tratamento profissional para lidar com minhas aflições por alguns anos. Até que, finalmente, no começo dos vinte anos, entendi que eu também precisava de ajuda.

Lembro-me de que havia dois psicólogos no colégio onde estudei durante a adolescência. Observando, notei que eles se ocupavam principalmente de alunos que estavam causando algum tipo de problema visível: mau comportamento, agressividade, esse tipo de coisa. Nunca me ocorreu que eu deveria ou que poderia pedir a ajuda daqueles profissionais.

O bullying e o isolamento com os quais sofri durante o primeiro ano em que passei naquela escola nunca me pareceram motivo para bater na porta do consultório deles, que ficava em um dos corredores principais da enorme escola. Eles também não faziam esforço para se aproximar dos alunos. Quando meu pai morreu eu tinha 13 anos, mas nenhum dos psicólogos se interessou pelo meu caso.

Foi quase uma década depois, já na faculdade, que entendi que a terapia poderia me ajudar. Por recomendação de amigos e com o apoio da minha família, procurei ajuda. E comecei um processo que nunca mais terminar, o da auto-análise. Como sempre, quero deixar claro que não sou profissional das área da psicologia ou da psiquiatria. Faço análise há mais de 10 anos e aprendi muito sobre o funcionamento da minha mente. Estou fazendo um simples relato de uma experiência pessoal porque acredito que ela pode ajudar outras pessoas a ir em busca de ajuda.

Fazer análise é parecido com o clichê popular: você vai sim falar da sua infância e da relação com os seus pais, dos traumas. Mas, ao contrário do que se imagina, o tratamento é muito dinâmico. Você não apenas falará do passado. O presente é assunto de muitas sessões. A análise pode incluir tudo o que você quiser. Já passei muitas sessões me dedicando a compreender o porquê de eu gostar tanto de Simpsons, Pixies e do Corinthians. Sempre falo de política com minha analista, já que se trata de um assunto muito importante. Sinto que esse exercício semanal de parar por uma hora para pensar na minha vida e os possíveis significados das coisas que sinto e penso me ajudam a ter mais confiança.

Pesquisas mostram que não estou sozinho: a terapia pode ajudar a aliviar sintomas de ansiedade e depressão. Mais do que isso, seus efeitos continuam mesmo depois de alguns anos. Um estudo revelou que a análise é mais eficaz especialmente depois de 18 meses de tratamento, superando outros métodos como terapia cognitiva comportamental. Existem evidências de que a estrutura do cérebro muda depois de 15 meses de tratamento. Os pacientes têm uma ativação menor do hipocampo e da amígdala, regiões cerebrais associadas à depressão.

Sempre fica o alerta de que não há solução mágica. Quando estamos falando de transtornos como a depressão e a ansiedade generalizada, por exemplo, não há “bala de prata”. Uma recomendação frequente é que o paciente procure combinar tratamentos, se for possível, como terapia e remédios. Além desses dois, os profissionais que cuidam da minha saúde mental me “receitaram” exercícios físicos, meditação e descanso. Não posso dizer que tenha cumprido à risca o tratamento, infelizmente, mas estou melhorando.

E já tive meus momentos ruins com a terapia também. Em alguns momentos, quero fugir dela porque sei que terei de encarar questões duras a meu próprio respeito. Chego a perder a hora, esquecer da sessão ou simplesmente desisto de ir. Mesmo assim, compreendo os benefícios da análise. Tenho consciência dos limites da minha mente e aprendi a respeita-los. Em momentos difíceis, consigo às vezes lembrar das conversas ocorridas no consultório e coloco os obstáculos em perspectiva.

A terapia, você já sabe, não é solução milagrosa, portanto ainda passo por apuros e sofro com as peças pregadas pela mente. Creio, no entanto, que estaria muito pior sem ela e sem a experiência de me auto-analisar. É importante dizer que o objetivo do processo de análise é capacitar o paciente a continuar a refletir mesmo sem o auxílio do analista, é ensinar às pessoas que elas são capazes de conduzir esse processo.

Por isso, se você gostou do que leu aqui e está passando por um momento difícil, pense na possibilidade de fazer terapia. Não é obrigatório fazê-la, mas ela oferece um apoio essencial para quem está fragilizado. Quando estamos nos sentindo vulneráveis, o melhor a fazer é pedir ajuda, sempre.

Diogo Rodriguez é jornalista e foi diagnosticado com depressão há cinco anos. Desde então, vem estudando o assunto. Escreve neste espaço às quintas-feiras –e divide mais sobre o tema no perfil @falandodepressao. Para conversar com ele e compartilhar sua experiência com saúde mental, mande um e-mail para [email protected]


POSTS RELACIONADOS

EDIÇÃO DO MÊS

Edição 215, janeiro de 2020 ASSINAR
COMPRAR A EDIÇÃO

NESTA EDIÇÃO

Como ser feliz no trabalho: Para encontrar satisfação em um emprego, é preciso resgatar talentos e renovar o nosso jeito de olhar a vida



TAMBÉM QUERO COMENTAR

 

Campos obrigatórios*