Como a meditação pode ajudar a libertar a sociedade do sofrimento

  • Diogo Rodriguez

Essas práticas, como a meditação, precisam ser reorientadas para ajudar a reconectar os pontos entre o pessoal e político, para que as pessoas percebam que as causas de seu sofrimento são comuns e que estamos todos no mesmo barco.

 

Há alguns anos, em 2013, me deparei com a meditação pela primeira vez. Já tinha ouvido essa palavra antes, mas tratava-se de uma vaga noção de que ela tinha conexões com o budismo e envolvia se sentar em posição de lótus. Lendo “O Estilo Emocional do Cérebro”, do neurocientista Richard Davidson, descobri que ela estava sendo estudada como um meio de reduzir a ansiedade e lidar com a depressão.

Davidson argumenta que há muitos potenciais efeitos positivos na técnica, de acordo com o que a ciência vem mostrando, e que até mesmo os não-budistas (meu caso), poderiam se beneficiar dela. A partir daí abriu-se um mundo, o do chamado mindfulness (ou atenção plena, em português). Comecei a investigar a meditação, fiz um curso introdutório, li muitos livros, escutei entrevistas, busquei artigos.

Gosto muito da meditação. Um dos aprendizados que veio dela foi o de que nossos pensamentos não são a gente. O que quero dizer é que há a possibilidade de criar uma pequena distância, uma zona de respiro, entre nós e o que pulula em nossas mentes. Não é fácil fazê-lo, mas é recompensador. A prática nos leva a ser capazes de olhar para a torrente mental sem necessariamente mergulhar nela. Os religiosos dirão se tratar de uma bênção. Eu chamo de respiro.

Meditação é algo positivo

Ao longo dessa jornada, a meditação se tornou um fenômeno pop. Existem aplicativos, livros, cursos, artigos, uma infinidade de materiais exaltando os benefícios dessa prática. Em vários lugares do mundo, ela é ensinada em escolas, hospitais e empresas. Por que não? Aprender a não se deixar levar pela ruminação da ansiedade é positivo, claro. O que poderia haver de errado nisso?

Confesso que embora goste bastante da prática, sempre tive uma pulga atrás da orelha com o discurso usado para promovê-la. É verdade que meditar é algo muito simples, que envolve um treinamento de concentração (usando como “âncora” a respiração, o corpo, ou os próprios pensamentos). Geralmente, consigo meditar com uma certa frequência. Mas esses períodos se alternam com outros em que sentar por cinco minutos parece impossível.

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Meditar me faz bem, a ciência diz que é boa, as técnicas são simples. Por que raios eu não consigo me disciplinar? Tenho três aplicativos instalados em meu telefone, uma pilha de livros me ensinando a prestar atenção na respiração, e, ainda assim, me vejo lutando para criar uma rotina. Só consegui entender de onde veio meu incômodo quando me deparei com uma entrevista de Ronald Purser na internet.

Professor de Administração na Universidade San Francisco State e budista, Purser mostra que há um problema com o mindfulness. Por um lado, ele é mais um instrumento usado para colocar apenas nas costas dos indivíduos a responsabilidade pelo seu bem-estar. Ou seja, instabilidade no emprego, ambiente econômico incerto, longos dias de trabalho, nada disso é mencionado quando os principais divulgadores dessas técnicas falam.

Mas, é preciso ter atenção onde e como a meditação é usada

Em seu livro “McMindfulness” (que ainda não foi traduzido para o português), Purser faz uma crítica afiada de autores como Jon Kabat-Zinn e outros grandes nomes do mindfulness. O autor vê com maus olhos a associação deles com instituições como o exército americano, onde essas ferramentas são usadas não apenas para aliviar os traumas dos veteranos, mas também para produzir matadores mais calmos. Outra crítica se dirige ao contexto empresarial, onde, segundo Purser, não há interesse em melhorar as condições gerais de trabalho dos funcionários; a intenção é minimizar o estresse sem mudar os fatores que o causam.

“McMindfulness” é um livro pungente, necessário para quem se interessa pelo assunto. Creio que nem todos irão concordar com os argumentos de Purser, mas, no mínimo, ele levanta questões essenciais a respeito do uso indiscriminado do mindfulness como ideologia e ferramenta. Para entender um pouco melhor seus argumentos, entrevistei Ronald Purser pelo Skype.

Entrevista com Ronald Purser

Qual é sua principal crítica aos divulgadores mais conhecidos do mindfulness, como Jon Kabat-Zinn?

Precisamos entender que o mindfulness é uma invenção moderna ocidental. Em vez de dizer que ela é a essência do budismo ou a meditação sem o budismo. Nessa visão, não há nenhum componente ético, embora eles argumentem que a prática traria comportamentos éticos. Essa é uma afirmação muito contestada. Os comportamentos pró-sociais não surgem automaticamente apenas porque você pratica esse tipo de atenção plena. Quando você transforma algo em uma ferramenta, uma técnica que não possui nenhum tipo de contexto ético, ela pode ser usada para fins utilitários. E foi exatamente isso o que aconteceu.

Como assim?

Nas corporações, o mindfulness está sendo usado para alinhar o trabalhadores às metas e objetivos às necessidades do capital ou às necessidades da empresa. Isso é uma instrumentalização.

O senhor é contra o uso da meditação fora do contexto budista?

Não. Provavelmente existem benefícios modestos e individualizados ao concentrar a atenção no momento presente e diminuindo as ruminações. Você terá benefícios terapêuticos [com os exercícios de mindfulness], mas com que finalidade? E como eles funcionam ideologicamente nesse contexto?

Qual foi a reação às críticas que o senhor faz no livro?

Eles [defensores do mindfulness] diziam: “Por que você está nos atacando? Estamos indo bem. Qual é o mal? Você sabe, as pessoas estão conseguindo um pequeno benefício. Por que você está fazendo do perfeito o inimigo do bom?”.

Como o senhor reagiu?

Disse que estou mais preocupado com a forma com a que eles estão propagandeando o mindfulness. O problema é dizerem que essa é a essência do budismo ou o equivalente ao caminho budista. Não é. É uma técnica terapêutica. É um processo terapêutico. As pessoas estão começando a pensar que a atenção plena é equivalente ao budismo.

O budismo já é conhecido do Ocidente há várias décadas. Por que a meditação está na moda justamente agora?

Porque o capitalismo está em um momento de crise. E quando isso acontece, ele tenta encontrar idéias que o ajudem a se reproduzir e a se estabilizar. Portanto, a atenção plena serve como uma espécie de técnica neoliberal para autogerenciamento e autodisciplina. Ela tira o fardo dos governos e da esfera pública e coloca o ônus do bem-estar e da felicidade no indivíduo. É uma narrativa bastante útil politicamente para impedir que as empresas  assumam responsabilidade pela forma como estão tratando seus funcionários e como estão criando ambientes tóxicos e culturas que estão desgastando as pessoas e causando tanto estresse no local de trabalho. É um jiu-jitsu político útil colocar a responsabilidade nos indivíduos. E é por isso que acho que o mindfulness se tornou tão popular.

Como a questão do estresse se tornou política?

Quando eu comecei a estudar a história do estresse vi que narrativa era reducionista, focada apenas na biologia. E se você observar o MBSR (mindfulness-based stress reduction, programa criado por Kabat-Zinn) e a atenção plena, estão situados em um paradigma biomédico. Assim, o estresse é entendido como uma disfunção individualizada. E é aí que temos uma desconexão política: angústia, estresse e depressão são vistos como patologias que indivíduos autônomos precisam resolver. E, portanto, não analisamos de fato a origem social do estresse ou os indicadores sociais da saúde mental. Hoje não há mais os veículos para que os empregados usem suas vozes. Portanto, não temos opções muito viáveis ​​para protestar a respeito das condições de trabalho. E é por isso que vemos uma crise de depressão, ansiedade e outras doenças mentais.

É possível praticar o mindfulness sem entrar nessa lógica que o senhor descreve?

Sim, e é por isso que estamos lutando, para recuperar o movimento da atenção plena e retirá-lo da ética do capitalismo liberal. Para que isso ocorra, temos que ver que a interdependência dialética entre o sofrimento pessoal por estresse e o contexto político contrariam o diagnóstico cultural de Jon Kabat Zinn, de que nossos males sociais são uma doença das mentes individuais. Não acredito nisso. Se você observar como as mudanças políticas e sociais ocorreram, sempre foi a partir de uma luta que construiu solidariedade  entre as pessoas. Portanto, precisamos que uma atenção plena mais cívica e crítica, que vá além do seu aspecto terapêutico. Essas práticas precisam ser reorientadas para ajudar a reconectar os pontos entre o pessoal e político, para que as pessoas percebam que as causas de seu sofrimento são comuns e que estamos todos no mesmo barco.

 

Diogo Rodriguez é jornalista e foi diagnosticado com depressão há cinco anos. Desde então, vem estudando o assunto. Escreve neste espaço às quintas-feiras –e divide mais sobre o tema no perfil @falandodepressao. Para conversar com ele e compartilhar sua experiência com saúde mental, mande um e-mail para [email protected]


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