Como a manter viva a esperança do Ano Novo todos os meses

  • Adriana Drulla

Será que tem uma forma de manter a esperança do Ano Novo acesa? Ou será que a esperança é ingênua e o melhor mesmo é abandoná-la?

 

Vem chegando o fim do ano e com ele a promessa de que ano que vem pode ser diferente. Se você parar para pensar, o ano novo é apenas uma convenção social. Tecnicamente, o dia 1 de janeiro é um dia que vem depois de outro. Um dia como outro qualquer. O que dá poder a esta data é o significado que damos a ela: recomeço. Recomeçar nos inspira a fazer diferente. Um novo ano traz esperança.

Esperança que, normalmente, dura pouco. Pois logo janeiro acaba e a vida volta ao normal. Então os obstáculos começam a aparecer, e todas as metas incríveis ficam para o ano que vem.

O que as pesquisas mostram é que adultos e crianças com maiores níveis de esperança têm melhor resultado na escola, no trabalho e nos esportes. Eles também têm melhor saúde física e mental e maior capacidade de resolução de problemas. Por um lado, os estudos dizem que aprendemos a ter esperança quando crianças. Por outro lado, também mostram que esta é uma qualidade que podemos aprimorar durante toda a vida.

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Esperança para quê?

Para quem pensa que esperança e ilusão são mais ou menos a mesma coisa, saiba que o contrário de ser esperançoso não é ser realista. O contrário de esperança é impossibilidade. No seu grau máximo, a desesperança é sinônimo de desespero e paralisia. Desesperança é o mesmo que depressão.

A esperança nos põe em movimento, ela é o motor da vida.

A esperança nos dá novas lentes e energia para enfrentar os desafios. A persistência requer esperança. Sair da zona de conforto, também. É preciso esperança para tentar o novo. Mudar de emprego. Assumir riscos. Ter filhos. Criar. A esperança encoraja nossos passos e viabiliza nossos saltos.

Objetivos, rotas e motivação

Se eu já te convenci que é uma boa ideia ter esperança para além de janeiro, deixe-me também contar-lhe como. Para isso, é útil explorar insights da pesquisa em Psicologia Positiva, sobretudo o trabalho de Rick Snyder. O pesquisador ficou famoso por elaborar a Teoria da Esperança que hoje embasa inúmeras intervenções terapêuticas e educacionais ao redor do mundo.

Para Snyder, a esperança tem 3 componentes. Primeiramente, nossos objetivos – que devem ser claros, realistas e, se possível, mensuráveis. Segundo, devemos ter múltiplas rotas para atingir os nossos objetivos. Isto porque pessoas esperançosas antecipam obstáculos e não esperam que as coisas aconteçam sem esforço. Então elas formulam um plano A, mas também planos B, C e D. E terceiro, precisamos ter força motivacional. Em outras palavras, é necessário ter determinação para não desistir no meio do caminho. Pessoas esperançosas são persistentes. No limite, quando não é possível seguir com o objetivo original, elas reavaliam e constroem novos objetivos.

Esperança na prática

Uma das formas de trabalhar estes aspectos é fazendo o exercício que apresentarei em seguida. Batizado como WOOP, ele é resultado de mais de 20 anos de pesquisa. A autora é Gabriele Oettingen, uma das maiores pesquisadoras em motivação no mundo.

Cada letra da palavra WOOP corresponde a um passo do exercício. A letra W, por exemplo, significa Wish. No português, traduzi o exercício para o acrônimo AGIR. Assim, você terá facilidade para lembrar dele no seu dia a dia. Então, usei A para alvo, G para ganhos, I para impedimentos, e R para rotas.

O WOOP já foi testado em empresas, escolas, hospitais e organizações diversas. Os resultados foram: aumento do engajamento, melhor performance, redução do estresse, promoção da saúde física, melhora na administração do tempo, entre outros.

O exercício pode ser usado para aumentar a sua probabilidade de êxito em objetivos diversos. Utilize-o sobretudo para aqueles objetivos importantes que ainda não sabe como alcançar, ou para os quais gostaria de ter mais esperança. Por exemplo, o WOOP pode ser usado para adquirir novos hábitos ou para deixar hábitos antigos, ou ainda para arriscar-se em um novo empreendimento.

Veja como o WOOP funciona:

Alvo – estabeleça um objetivo desafiador, possível e importante

Para este exercício, trabalhamos uma meta por vez. Como estamos entrando em um novo ano, pode ser uma boa ideia trabalhar com a meta que você pretende atingir em 12 meses, ao fim de 2022. É importante que a meta tenha 3 características: ela precisa ser importante para você, depois é necessário que ofereça um grau de desafio, e por último é importante que seja possível conquistá-la no tempo que você tem.

Ou seja, o objetivo não pode ser se tornar bilionário em um ano. Além disso, certifique-se que sua meta é específica e mensurável. Como você vai saber que atingiu a sua meta? Pois bem, agora que você tem a meta, ela será o seu alvo. Escreva-o em poucas palavras, no máximo uma frase.

Ganhos – quais são os benefícios de atingir o seu alvo?

Quando nos conectamos com os benefícios das nossas metas, nos sentimos motivados. A motivação sustenta a energia para que não desistamos no meio do caminho. Por isso, Gabriele orienta que fechemos os olhos e imaginemos como seria realizar o nosso objetivo.

Se você conseguisse chegar ao fim de 2022 tendo atingido o seu alvo, como se sentiria? Quais as emoções que você experimentaria? Quais os benefícios que você colheria? Pode ser que você vá se sentir mais feliz, ou será mais saudável, mais confiante, mais alegre. Pode ser que você ganhe mais tempo com as pessoas que gosta, pode ser que tenha mais bem-estar. Imagine a realização do seu desejo com detalhes, e saboreie por antecipação.

Impedimentos – quais obstáculos podem te impedir?

Alguns tipos de pensamento positivos podem ser benéficos, enquanto outros podem ser perigosos. Por exemplo, quando somos excessivamente otimistas, podemos não acessar os riscos de forma adequada, e não agir preventivamente. Quando somos pegos desprevenidos, é comum desanimar ou assumir que não somos capazes de seguir com os nossos objetivos.

Portanto, pense sobre quais obstáculos você pode encontrar no caminho. O que pode te impedir de atingir o seu objetivo ao fim de 2022? Por exemplo, se o seu desejo é escrever um blog, talvez a procrastinação seja um obstáculo. Pense como cada obstáculo poderá se apresentar. Por que eles irão aparecer nesta hora? Imagine os detalhes da situação. Anote cada obstáculo que poderá surgir.

Rotas – elaborando planos concretos

Nesta etapa, construa planos concretos para lidar com cada obstáculo identificado anteriormente. Isto lhe dará confiança e energia para tomar as atitudes necessárias caso encontre pedras no caminho. Alguns obstáculos conseguimos contornar. Por exemplo, o impedimento para fazer exercício pode ser a falta de tempo. Então, combinar que outra pessoa ficará responsável por alguma de suas tarefas pode ser uma forma de liberar horas úteis. Outros obstáculos precisamos aprender a lidar, como por exemplo a vontade de devorar doces ou a vontade de fumar.

Pense sobre uma ação que você pode fazer para evitar, superar ou para lidar com cada obstáculo. Então, escreva o seu plano da seguinte forma: SE (obstáculo), ENTÃO (ação). Por exemplo, SE surgir a vontade de comer doces, ENTÃO comerei minhas frutas favoritas. Escreva cada plano e tenha-os à mão, por exemplo nas notas do celular. Por último, estabeleça o que fará primeiro e qual será o seu próximo passo.

A dificuldade pode ser um bom sinal

Apesar do exercício ser simples e lógico, colocar em prática pode ser trabalhoso. Isto porque mudar hábitos e aprender coisas novas é desafiador para o nosso cérebro e para o nosso corpo. As dificuldades são naturais em qualquer processo de aprendizado. Portanto, se você encontrar desafios saiba que pode ser um sinal de que está no caminho certo. Mesmo assim, lembre-se de reavaliar a rota que escolheu com regularidade.

CONTINUE A LEITURA: Mais forte que o hábito

Se você notar que está perdendo a motivação, considere se existem outras rotas para o seu objetivo. Caso tenha exaurido as rotas possíveis, pode ser importante reavaliar o seu objetivo. Lembre-se que esperança é sobre esperar coisas boas dentro do limite da realidade. Procure objetivos saudáveis e possíveis. Então, use novamente o exercício para aumentar a probabilidade de alcançá-lo. Dê o próximo passo.

 


ADRIANA DRULLA é mestre em Psicologia Positiva pela Universidade da Pennsylvania (EUA) e pós graduada em Terapia Focada em Compaixão pela Universidade de Derby (Inglaterra), onde teve como mentores Martin Seligman, psicólogo fundador da psicologia positiva, e Paul Gilbert, psicólogo criador da Terapia Focada em Compaixão. Semanalmente fala sobre psicologia e mente compassiva no podcast Crescer Humano.

*Os textos de colunistas não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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