Ciência confirma: a gratidão é a mãe da felicidade

  • Margot Cardoso
  • FOTOGRAFIA: Brooke Cagle | Unsplash

Para além de todos os benefícios para quem pratica e para quem a recebe, a gratidão é uma sensibilidade, uma forma de estar, uma delicadeza social

 

Estive recentemente numa conferência sobre a felicidade. Confesso que estou cansada do tema, mas fui porque essa era diferente; tratava-se da felicidade sob a ótica da ciência.

Muita curiosidade? Eu também. Mas você tem mais sorte. Estive 20 dias na expectativa, imaginando conteúdos surpreendentes — enquanto você saberá de tudo agora, na frase seguinte…

… a felicidade é um truque da natureza, maquiavelicamente pensado, com um único objetivo: enganar você. Funciona assim: quando fazemos algo que aumenta nossas chances de sobreviver, a biologia — para sinalizar que é isso que você deve fazer —  libera “substâncias” que proporcionam bem-estar. 

E como a sensação é boa, você vai tentar repetir a ação muitas outras vezes. E para dar profundidade à questão, quem diz sobreviver, diz também procriar. Aqui fica claro que o orgasmo é uma espécie de recompensa máxima. 

Algo do tipo “muito bem, você está no caminho certo”.  A prática constante das coisas que nos fazem felizes aumenta as chances de transmitirmos os nossos genes. 

O resumo da ópera é: as leis que regem a felicidade não foram desenhadas para nosso bem-estar psicológico, mas para aumentar as chances de sobrevivência dos nossos genes. 

Ok. Isso já é mais ou menos sabido. E não ajuda. Afinal, o nosso interesse é na vida consciente. De que nos serve bisbilhotar o diário íntimo dos nossos genes?  O que queremos saber é quais são os mecanismos que trazem bem-estar psicológico, isto é, a sensação de felicidade… 

Acho que você entendeu a questão: voltei com as mãos vazias. A única coisa que retive é que a busca da felicidade é o combustível que faz você continuar caminhando. Nada de novo. É a história de que depois de uma necessidade vem outra necessidade (falei sobre isso no meu artigo As seis Necessidades Humanas), o importante não é o destino, mas o caminho etc.

Mas como eu já estava na estrada — e tenho dificuldade de desistir — continuei as buscas. Acredito que a ciência serve muito bem à filosofia, mais do que o esoterismo ou a autoajuda oca. Retomando o ponto de partida — a felicidade —  penso que a visão dos gregos antigos continua válida. 

O único caminho para a felicidade — ou para uma vida que vale a pena — é o exercício das virtudes. A prática da honestidade — e da generosidade, com zelo e coragem, sem perder de vista a prudência e a bondade — é o que faz o homem florescer. São essas virtuosas que trazem uma vida de significado e é porto de abrigo para a felicidade se instalar. 

Apesar de ser um conceito gasto para o caminho da felicidade, ele continua válido. Essa visão não mudou, assim como também não mudou sua dificuldade de implementação — o exercício das virtudes é tão difícil hoje, como era para os gregos antigos. 

Por isso, a pergunta “como eu me torno virtuoso” continua a ser feita. Podemos pegar na mão de Sêneca, um dos poucos filósofos que pregava a prática da filosofia mais do que suas teorias. 

Sêneca foi um estoico que caminhava para o epicurismo e, para ele, a vida só era possível se regida pela tríade razão-virtude-natureza. Isto é: o homem pensa (razão), transforma o que pensa em ato (virtude), sem perder de vista a realidade.

Para Sêneca, temos que abraçar virtudes nobres — como a generosidade — e pô-las em prática, por mais difícil que sejam. E como é difícil! O próprio Sêneca debateu-se com esse exercício. 

Imagine que até para Agostinho, um pensador cristão de primeira grandeza — transformado em santo pela igreja católica — debatia-se com o mesmo problema. Ele lamentava que o bem que sabia, não conseguia implementar. 

Agostinho foi o crente que pediu “Deus dá-me moderação e castidade, mas não já. Não tenha pressa, não precisa ser agora”. Se era difícil para eles que tinham um racional privilegiado — e muito tempo para a reflexão — imagine para nós? Complexas e contraditórias, as virtudes têm uma prática árdua. 

Mas atenção, não menciono o caráter agreste da prática das virtudes para você se acovardar. É uma prevenção. Quando você esbarrar na resistência dos ventos, encare, é assim mesmo. É normal. Está tudo certo. 

Mas tenho boas notícias: há um atalho. Todas as virtudes podem ser melhoradas, através do exercício de uma única virtude: a gratidão. Esse atalho não é novo. O romano Cícero afirmava que a gratidão não é apenas a maior das virtudes, mas a mãe de todas as outras. Quando descobri esse texto, achei um exagero, pelo menos em termos filosóficos. Até porque Cícero não explica porque é assim. Mas, a oferta dele é tentadora. Afinal há uma forma rápida, fácil e eficiente de sermos virtuosos. Basta praticar a gratidão. 

Eu desconfio das facilidades, mas quando a sugestão vem de alguém com a envergadura de Marco Túlio Cícero, devemos prestar atenção. O Renascimento foi, acima de tudo, um reavivamento de Cícero. E, depois dele e através dele, de toda a antiguidade clássica. John Locke, David Hume, Monstesquieu, todos os principais pensadores do iluminismo, tiveram Cícero como fonte. Depois dessas credenciais, vamos à gratidão. 

Apesar de negligenciada pela filosofia, nos últimos anos a gratidão voltou à moda pela mão da psicologia positiva. Essa corrente afirma que as emoções positivas ampliam o pensar e o agir humano, contribuído para o bem-estar emocional. O incômodo dessa moda é que ninguém explica porquê. 

Pensando nisso, detive-me em um item do programa sobre gratidão. Afinal, a conferência científica sobre a felicidade não estava perdida de todo. A ciência também contemplava a gratidão. 

O Social Emotions — um grupo de estudo do departamento de psicologia da Northeastern University, em Boston, EUA — mostrou porque a prática da gratidão melhora todas as nossas virtudes. 

Eis a explicação: quando uma pessoa dedica o seu tempo, dinheiro ou outros recursos — em detrimento ao seu próprio prazer — para retribuir alguém. Ou faz um sacrifício por outra pessoa, para retribuir uma ajuda. Ou simplesmente quando se retribui a ajuda de um amigo, visando a permanência da amizade a longo prazo. Quando você constrói esses cenários de gratidão, você está exercitando um item fundamental para a vida virtuosa: o autocontrole. É ele a espinha dorsal dos atos da gratidão.  A associação é óbvia: os grandes dilemas morais, a tomada de decisões, quase tudo na vida exige autocontrole. 

Então, para além do bônus do autocontrole, o exercício da gratidão é bom por si só. Os seus praticantes têm maior probabilidade de ajudar os outros, de serem leais mesmo em sacrifício próprio, de dividir seus lucros de maneira mais igualitária. É por essa razão que o sociólogo alemão Georg Simmel afirma que  a “gratidão é a memória moral da humanidade”.

Eu nunca entendi a má vontade em agradecer. É um ato simples. Aliás, incomoda-me tanto o descaso com essa prática, que acho que a ausência dela — a ingratidão — deveria ser incluída na lista de pecados capitais. 

Para além de todos os benefícios para quem pratica e para quem a recebe, a gratidão é um traço do caráter, uma sensibilidade, uma forma de estar, uma delicadeza social. 

É uma espécie de boa vontade que predispõe a retribuição de um benefício; pagar — e com gosto — uma dívida; é um fortalecedor de relações.

Então, quando você estiver em um momento de reflexão e notar que precisa de mais bem-estar, contentamento, satisfação com o passado, otimismo no futuro, fluir no presente… Pratique a gratidão. Faça dela um mantra, um exercício diário dos seus dias.

   

Margot Cardoso (@margotcardoso) é jornalista e pós-graduada em filosofia. Mora em Portugal há 16 anos, mas não perdeu seu adorável sotaque paulistano. Nesta coluna, semanalmente, conta histórias de vida e experiências sempre à luz dos grandes pensadores.


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