Certos dias…

  • Eugenio Mussak
  • FOTOGRAFIA: Glenn Carstens Peters | Unsplash

Mesmo diante da imprevisibilidade da vida, é preciso planejar, imaginar variáveis e, claro, lançar-se ao destino. 

Nesta época de reclusão, uma das alternativas tem sido a leitura. Eu, pelo menos, li mais do que antes, quando tinha o mundo à minha disposição para perambular. Impossibilitado, tratei de perambular pelas páginas  dos  livros,  o  que,  no  fundo,  é  a  mesma coisa. Li e reli muitos livros. Inclusive de um de meus autores de romances de suspense preferidos, o inglês Frederick Forsyth, que foi piloto da RAF, repórter, correspondente de guerra e jornalista investigativo. Morou em diversos países e falava várias línguas.

Os livros de Forsyth são longos e as histórias que conta são intrincadas e cheias de personagens. Entretanto, o inglês também se aventurou pelo gênero literário de histórias curtas, os chamados contos. E ele não fez feio, em pelo menos duas publicações com vários deles.

Um de seus contos tem o sugestivo nome de Há Certos Dias… O personagem central é um irlandês chamado Murphy, que vivia de pequenos roubos e trambiques, e sempre procurava o golpe final, que mudaria sua vida para sempre. Até que houve um dia em que ele achou que tinha encontrado sua grande chance.

Planos e previsões

Usando como informante um parceiro de golpes que trabalhava numa empresa de transporte de cargas, Murphy ficou sabendo que em determinado dia chegaria, no pequeno porto de Roslare, um caminhão proveniente de Le Havre trazendo 750 caixas do melhor conhaque francês.

Eram 9 mil garrafas que valiam, no mercado negro, 10 libras cada uma. Uma fortuna! Foi motivação suficiente para que Murphy elaborasse o plano perfeito; juntou economias, montou um pequeno bando e cuidou dos detalhes. Bastaria, então, interceptar o veículo, render o motorista e desviar a carga, que chegaria aos milhares de pubs irlandeses rapidamente, enchendo os bolsos da gangue. Plano perfeito. Só que…

Outros planos

estrada a perder de vista

“Há certos dias em que absolutamente nada dá certo”. Crédito: Ana Viegas | Unsplash

Só que ele se esqueceu de combinar com o destino. Na véspera, um caminhão da mesma empresa havia chegado ao mesmo porto transportando uma carga de fertilizante. Ao entrar no galpão da alfândega, o motorista percebeu um vazamento de óleo. Não podendo seguir viagem, o caminhão ficou retido no barracão, onde passou a noite, esperando o mecânico que viria no dia seguinte.

Quando, já de manhã, o caminhão com a bebida chegou em outra barca, o do adubo estava ficando pronto. A consequência é que Murphy, observando o movimento à distância, viu sair um caminhão imaginando que fosse o outro. Em vez de roubar o fino conhaque, roubou o fedorento adubo.

A sequência de acontecimentos é fascinante, composta por uma série de imprevistos contornados pelo ladrão. Até que, em uma estrada vicinal, ele teve que desviar de um veículo que vinha em sentido contrário, derrapando para uma valeta. O choque espalhou o adubo pela estrada.

Acasos e o destino

Detalhes mórbidos. Primeiro: o automóvel que vinha em sentido contrário era da polícia, que só estava naquele local porque tinha ido escoltar o carro de um ministro. Segundo: Murphy quase enfartou ao descobrir o conteúdo da carga e já começava a ser olhado feio pelo bando. Terceiro: o adubo malcheiroso apenas ocultava o principal produto transportado, caixas de armas e munições contrabandeadas para suprir as necessidades do Exército de Libertação Irlandês, considerado um grupo terrorista.

Os policiais irlandeses normalmente não portam armas. A não ser que estejam escoltando  autoridades,  que era o caso daquela ocasião. E a arma do sargento já estava apontada em direção à barriga do Murphy, que, ainda sem entender totalmente o quadro, se limitou a erguer as mãos e dizer “tenho uma confissão a fazer”.

Mais tarde, na prisão, ele pronunciou a frase que dá o título ao conto: “Há certos dias em que absolutamente nada dá certo”.Forsyth, claro, dá ao protagonista o nome Murphy  em  alusão  ao  engenheiro  naval americano Edward Murphy, que, durante uma experiência de tolerância à aceleração nos aviões de caça, viu a segurança do piloto de teste ser ameaçada por um erro banal de um técnico.

Lei de Murphy

Na ocasião ele disse que “se existe uma possibilidade de algo dar errado, dará”. Essa observação foi adotada pelo mundo inteiro como a Lei de Murphy.

Pois é… Havia uma chance, ainda que remota, de um vírus altamente transmissível e potencialmente mortal surgir a qualquer momento, caso as medidas sanitárias criteriosas não fossem observadas em todos os lugares do globo. E, havendo uma possibilidade de isso acontecer, aconteceu…

Conto toda esta história para, ao final, compartilhar minha reflexão sobre a importância do planejamento, mesmo sabendo que algo dará errado. Qualquer plano, seja de uma empresa, uma ação militar ou uma festa de aniversário, será tão mais bem feito quanto mais variáveis forem consideradas.

Entretanto, o melhor estrategista do mundo não conhecerá todas as variáveis possíveis. Murphy que o diga. Mesmo assim, sou a favor de planejar. Pelo menos, dessa forma, conseguiremos improvisar melhor.


EUGENIO MUSSAK sempre planeja entregar o texto no prazo, mas quase sempre acontece algo inesperado… 


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