Viajando na escuridão

  • Juliana Reis
  • FOTOGRAFIA: David Huang | Unsplash

O caminho de Santiago e suas lições sobre serenidade, coragem e discernimento

Dormimos vestidas com a roupa do dia seguinte, prontas para partir durante a madrugada. Quando pulamos da cama, as lanternas já estavam carregadas e as velas à mão. Com a bagagem nas costas, saímos nas pontas dos pés. O combinado é que estivéssemos alimentados.

Então, lá fora, ajustando toucas, luvas e botas sob o sereno, engolimos o tanto de pão que se aguenta forçar goela abaixo às 4 horas da manhã. Ao deixarmos o refúgio dos peregrinos, o frio anestesiava a ponta do nariz, mas sem desconforto. O ar estava puro. No céu, uma faixa de poeira estrelada se estendia nos apontando a direção a seguir  — era a Via Láctea! O dia deveria clarear só depois das 8 horas!

Avançar com obstáculos

Assim, atravessamos a estrada e fomos entrando num bosque fechado. Acendemos as velas. Ligamos as lanternas. Seguimos em fila indiana avançando em silêncio pela mata escura, ondulando feito uma centopéia de fogo e luz. Entretanto, o vento frio passou a soprar as velas e as lanternas foram se apagando por esgotamento das pilhas… As que resistiram foram distribuídas ao longo do grupo a fim de espalhar um pouco da claridade.

Para alertar  todos dos perigos do caminho, os primeiros da fileira se comunicavam com os que vinham logo atrás. Os recados se repetiam de forma que até o último peregrino pudesse se preparar para a subida forte, para o escorregão no trecho enlameado, a pedra solta, a ponte estreita, o riacho com passagem arriscada… De trás para frente os recados voltavam modulando o ritmo da turma: “mais devagar agora”, “velas se apagaram”, “fulano está ficando para trás”, “beltrano perdeu sei-lá-o-quê”…

Inimigos invisíveis

Entretanto, o frio não passava. Ao contrário do que esperávamos, nos engolia, fazia trincar os dentes e gelava os ossos. Obrigou-nos a parar diversas vezes para reforçarmos a proteção. Luvas usadas viravam meias, sacos de dormir agora serviam de casaco.

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Crédito: Nathan Anderson | Unsplash

A estalagem prevista para a primeira parada ainda era só uma casa de pedra no meio do bosque, com a porta trancada e as luzes apagadas. Era muito cedo. Nada de bebida quente, nem descanso.

Por fim, na tentativa de nos protegermos, encolhíamos os corpos, movimentávamos os dedos, nos esforçávamos para apertar o passo… E isso nos exauria. O ritmo da marcha estava cada vez mais pesado. E a tensão de estar escuro era desgastante. Estávamos agora com frio, dor e fome.

Insurgentes

Por fim, ao saber que o próximo ponto de apoio só viria a muitos quilômetros dali, tivemos medo de não aguentar. E paramos. Éramos cinco amotinadas. O restante do grupo, mais de 20 companheiros peregrinos, optou por continuar. Naquele instante, quebrávamos um acordo firmado dias antes: chegar a tempo de assistir à Missa do Peregrino na Catedral de Santiago de Compostela. 

Acima de tudo, a Missa do Peregrino significa a apoteose dessa que tem sido uma das mais reverenciadas rotas de peregrinação do mundo desde a Idade Média: o Caminho de Santiago. Quando tudo sai perfeitamente cronometrado, o peregrino compostelano coloca fim aos sofrimentos da longa caminhada quando chega ao Monte do Gozo. Uma colina às margens do destino final, a cidade de Santiago.

Reta final

Lá, um refúgio o acolhe a tempo de que se preparar para o grand finale: a chegada para a celebração na catedral, um templo secular construído sobre o campo onde estaria enterrado um dos apóstolos de Cristo, Tiago el Mayor, cuja história motiva essa jornada.

De acordo com a tradição,  o local teria sido milagrosamente apontado por uma “chuva de estrelas”. Por isso é que a Via Láctea também norteia os peregrinos. Contudo, nem sempre o percurso é assim preciso. Para nosso grupo não foi, logo não haveria tempo para folga no Monte do Gozo. Aquela ainda era nossa primeira grande viagem a pé. E anos se passariam para que, passo a passo, aprendêssemos sobre limites, ritmo, imprevistos e aceitação. Pelos próximos anos, cada quilômetro caminhado nos ensinaria sobre a tal serenidade para aceitar o que não podemos mudar, a coragem para mudar o que podemos, e a tão buscada sabedoria para discernir uma da outra. Na primeira caminhada de nossas vidas, ainda recebíamos as dificuldades como surpresas.

Assumindo a imperfeição

Dessa forma, despedimo-nos do grande grupo e fizemos votos de encontro pelo caminho afora. De alguma forma, mesmo ignorando a lógica, tínhamos certeza de que completaríamos a missão. Recuamos um pouco no caminho, buscando onde sentar e nos aquecer. Um facho de luz acanhado veio daquela casa de pedra que teria sido o primeiro apoio. Timidamente, empurramos a porta de madeira e nos deparamos com calor, cheiro de café e pães em cima de um balcão.

A seguir, lavamos o rosto com água quente e tiramos as botas, acarinhando nossos pés gelados. Rimos, como rimos! Soltamos nossos pesos, desde os físicos até os da alma. Perdíamos uma batalha a fim de que pudéssemos ganhar a guerra. E que guerra interna cada uma vivia! Acima de tudo eu estava contente com minha caneca de chocolate fumegante nas mãos, observei a recuperação das companheiras, comendo madalenas e tortilhas e conversando até se entregarem às gargalhadas!

Escuridão

Minha mãe, agora soprando o vapor da bebida quente e esfregando os pés satisfeita, perguntava onde, afinal, estariam as carruagens adornadas com fogo que, na escuridão, teriam cruzado conosco. Pois ela havia feito boa parte do caminho de olhos semicerrados. Entregue à exaustão, caminhara dormindo sem que ninguém percebesse  — além de mim, que interpretei a cena como uma oração desesperada quando, na verdade, ela sonhava. Ou não.

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Crédito: Zyanya BMO | Unsplash

Assim, durante a caminhada, minha tia seguia perto dela a passos sôfregos, encapuzada num saco de dormir, enquanto nossas amigas, Leda e Dôra, lutavam em silêncio contra a dor e a dúvida. Leda era amiga de infância das duas primeiras e estava completamente envolvida na aventura, apesar do joelho instável.

Peregrinos experientes

Junto com Dora  — determinada senhora portadora de um doloroso desalinhamento nos ossos do pé — haviam decidido peregrinar pelo Caminho de Santiago apesar das respectivas famílias considerarem a viagem algo um tanto extravagante. Anos mais tarde, esse grupo de mulheres extraordinárias contabilizaria mais de 20 peregrinações mundo afora. Todas beiravam os 60 anos. Eu era a caçula, espécie de intrusa.

Ainda bebendo o chocolate, observei Dôra massageando carinhosamente o pé dolorido, recolocando seus protetores de joanete, calçando duas meias e trocando a bota por sandálias.

E me lembrei de uma peregrina que, dias atrás, torcera o tornozelo. Recusando-se a parar, bradando que aos 34 anos nunca desistira de nada na vida. Entretanto, veio a tombar mais uma vez lá na frente, terminando definitivamente sua jornada como peregrina. Conformou-se, chorando, que só pisaria em Santiago carregada por um carro de apoio. Dôra talvez chegasse a pé.

Retomada e claridade

Por fim, a parada nos devolveu a vitalidade e pudemos continuar. Agora só nós cinco. O dia foi clareando enquanto sentíamos que o grande instante se aproximava. Conferíamos nossos relógios de minuto a minuto, tentando controlar o tempo, comemorando cada marco ultrapassado.

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Crédito: Juan Gomez | Unsplash

Logo alcançamos o Monte do Gozo, mas sem tempo para comemorar como fazem os peregrinos desde a Idade Média. Era a hora de apertar o passo como nunca e correr contra o tempo descendo até Santiago. A cidade foi se apresentando, mas não a notávamos. Nosso foco estava nas setas que indicavam o caminho até a catedral.

Missa

Entretanto, ao mesmo tempo em que os sinos badalavam 12 vezes anunciando o meio-dia, colocávamos os pés diante da catedral. Estava lotada. Pessoas transbordavam pelas portas e escadarias, aguardando a missa.

Entretanto, aceitamos o destino, freamos o passo e nos apoiamos nos cajados, desistindo de entrar. Foi quando a multidão, em reverência, nos abriu caminho. Acolhidas por um longo corredor humano, avançamos comovidas até a nave central, cobertas por sorrisos. “Olha, são os peregrinos!” – ouvi entre os sussurros.

Por fim, em paz, apoiada numa pilastra e assistindo à missa, lembro-me de por um momento tentar calcular a relação entre o tempo e o espaço que havíamos percorrido. Não sou boa em cálculos. Então, me entreguei aos cantos celestiais e ao som abafado do vaivém de um turíbulo gigante que fumegava incenso sobre aquelas centenas de almas.

Não sei o que se passou nos corações das minhas companheiras durante a celebração. Cada uma guardaria as emoções para si. O caminho estava feito.


JULIANA REIS  é uma viajante de coração inquieto que vive a buscar histórias e rotas que inspirem e transformem.


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