Cada destino, um réveillon

  • Juliana Reis

Eu estava comprometida em fazer dos próximos anos uma jornada sem planejamento pela estrada afora; e isso implicava abrir mão de tradições e de velhos padrões de comportamento

“Vou passar o réveillon com o Papa! E você?”. A menos de uma semana da virada do ano eu viajava sem rumo e a conversinha do turista que ia para Roma me deixou apreensiva. Na plataforma da estação de trem de Salzburgo, na Áustria, o burburinho era sobre a falta de vagas para se hospedar pela Europa na última semana de dezembro. Pairava uma tensão no ar e notava-se que quase todo viajante tinha um plano. Só eu que não.

É que agora, o 31 de dezembro era, para mim, um dia como outro qualquer.

Eu havia me comprometido a fazer dos próximos anos uma jornada sem planejamento pela estrada afora – o que implicava em desapego das tradições até que eu decidisse quais delas manteria na minha vida. Adeus à obrigação de obedecer a rituais! Voltaria a eles quando – e se! – achasse importante.

Essa postura era parte de uma busca. E por essa busca, minha mãe tinha me apelidado de Gaivota, inspirada na história de um pássaro, Fernão Capelo Gaivota, que se desvencilha da rotina dos outros de sua espécie, tentando por conta própria extrair um propósito da vida e descobrir a genuína felicidade. Para atingir seu objetivo, Fernão se desacomoda, abre mão do óbvio e larga os padrões de comportamento determinados por seu bando.

Fernão Capelo Gaivota é uma metáfora sobre acreditar em si e ir atrás dos próprios sonhos mesmo quando a direção até eles parece contrária à da maioria.

PARA O RÉVEILLON EM ROMA

A inspiração na fábula da gaivota se desmanchou quando eu assimilei que passaria a virada do ano num país estrangeiro sem ter lugar para dormir e sozinha. Medo. Com a mente estagnada em um tempo em que me parecia importante ter o que contar aos outros, fui na onda do fã do Papa e embarquei num trem para Roma. Se alguém em casa me perguntasse sobre meu réveillon, eu diria orgulhosa que havia entrado no ano novo na companhia do chefe supremo da Igreja Católica – o que me pareceu um verniz excelente. Mesmo que estar espremida na multidão em frente ao Vaticano não fosse meu ideal de paz e diversão.

A imaginação durou pouco porque na cidade eterna não havia uma só cama disponível. Restou partir para Verona, o cenário da obra mais famosa de William Shakespeare, onde um albergue oferecia camas modestas em dormitórios compartilhados. Contar que virei o ano com Romeu e Julieta seria tão impactante quanto dizer que fiz festa com o Papa.

VIRADA DO ANO NA CIDADE DO AMOR

Em Verona o ar é de romance renascentista e parece que todos os turistas circulando na cidade estão em busca de Romeu e Julieta. Mas quem chega com disposição para ir além dos clichês sobre o amor, enxerga nas ruas, nos palacetes, pontes e igrejas, uma herança artística e arquitetônica muito mais fascinante que os produtos em forma de coração vendidos em profusão pelas lojinhas.

Assisti aos fogos da meia-noite do lado de fora da grande arena que está lá no miolo da cidade há cerca de dois mil anos e até hoje acolhe grandes espetáculos. A arena de Verona é um dos maiores e mais bem preservados anfiteatros romanos do mundo, feito de mármore rosado, tendo sobrevivido até a um terremoto no século 12. Terminado o show de fogos, que transbordavam feito fogo líquido para fora da arena lotada, fui me esquivando de Romeus trôpegos com suas garrafas de vinho. Do albergue vazio – os hóspedes estavam em festa lá fora – liguei para casa e acabei só contando mesmo que sentia saudades de todos.

No ano seguinte não me importei com planos porque não haveria lugar para eles. É que no meio da viagem me apaixonei por um vilarejo nos Alpes, onde passei a viver trabalhando como faz-tudo num restaurante. Então passei a virada ocupada servindo taças borbulhantes, cafés e aperitivos a pessoas radiantes – e bastante exigentes -, circulando invisível entre a tensão dos bastidores e a farra do salão.

UMA AVENTURA PELO INTERIOR DA FRANÇA

Passado mais um ano, lá vinha o 31 de dezembro. Desta vez eu observava as torres da catedral Saint-Pierre do sótão onde agora eu morava, em Montpellier, no sul da França. A catedral, consagrada por um papa em 1364, era minha vizinha de quadra. Perto do fim da tarde abri o alçapão que dava para a laje no alto do prédio trazendo comigo toalha, vinho da região, queijo, foie-gras e pão. Organizei meu camarote particular. Dali assistiria aos fogos de artifício pipocando pelo cenário medieval da cidade à meia-noite, totalmente só. Finalmente, um réveillon longe de rituais. E antes que eu pudesse terminar meu brinde àquele arranjo perfeito, uma buzina de carro velho esganiçou lá embaixo.

Gerard, meu vizinho, me convidava e me espremer com ele e mais uma turma num Renault Clio surrado e partir para uma viagem. Le petit-français (o pequeno francês), apelido que recebera ainda criança na Polinésia – onde cresceu convivendo com mergulhadores que colhem pérolas – sempre tinha boas ideias. Uma conversa com Gerard jamais era desinteressante. O que seria então uma aventura conduzida por ele?

No caminho, eu soube que celebraríamos o ano novo numa casa de campo numa região conhecida como País dos Cátaros. Na Idade Média, os cátaros formavam um grupo cristão que rejeitou a autoridade da Igreja e passou a espalhar uma fé baseada na simplicidade, na igualdade entre os gêneros e na reencarnação. Uma pilha de argumentos suficiente para que a igreja detectasse ali uma turma trazendo problemas. Com suas ideias desviantes, agitaram o sudoeste de França até meados do século 13, quando a Santa Inquisição os eliminou alegando heresia, blasfêmia e bruxaria. Ruínas das fortalezas que abrigaram os cátaros aparecem pela região onde Gerard e sua turma me levavam para o réveillon. E quando a meia-noite chegou, ninguém ligou nem para o relógio, nem para a história. O petit-français havia oferecido mais vinho do Languedoc que seus convidados puderam tolerar. Brindei sozinha, na roça, pensando na ruína dos cátaros, rodeada por desconhecidos derrubados pelos cantos.

DE VOLTA AO RÉVEILLON NOS ALPES

Mais um ano e não me importei em retornar ao vilarejo nos Alpes para ser invisível servindo champagne durante as 12 badaladas no mesmo lugar: o restaurante de Monsieur Poli, um mezzo suiço, mezzo italiano. Como um bom amigo, às 23h50 Poli abriu a porta de madeira do grande chalé que abrigava o restaurante e pediu que eu fosse, finalmente, festejar a tradição do réveillon após tantos anos viajando longe de casa.

Atravessei o vilarejo em disparada, escorregando pela neve, a fim de celebrar com amigos a chegada do ano no bar Central Pub, o principal da montanha. Às 23h59, escorreguei no gelo e caí em frente à porta – que se fechou enquanto eu me levantava e espanava a neve em pó das calças. Bati nas janelas de vidro. Eu via os amigos lá dentro, mas ninguém me via. Estavam entretidos contando 3, 2, 1…

Meu 4º réveillon da viagem foi do lado de fora da festa.

Ao meu redor, a luz quente das celebrações saía pelas janelas dos chalés. Todas as portas estavam fechadas. Eram cinco quilômetros para eu percorrer até minha casa num trajeto por entre as montanhas. A luz da lua no céu limpo refletia o branco da neve da cordilheira e iluminava o caminho. Dei os primeiros passos do ano e me pus a caminhar no silêncio da noite branca-azulada. De certa forma, estava em meu ritual particular de passagem de ano.

Réveillon significa despertar.

Eu entrava na próxima etapa de uma viagem sem data para acabar. Com tanto a viver durante o ano, eu finalmente me desapegava da necessidade de participar das festas ritualísticas de réveillon, tão comuns lá em casa. Eu não precisava delas por enquanto. Talvez nunca mais precisasse. Estava concentrada em conhecer o mundo. E em conhecer a mim mesma.


JULIANA REIS é uma viajante de coração inquieto em  busca de histórias, pessoas, lugares e experiências  que a modifiquem. Escreve mensalmente na edição impressa de Vida Simples


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