Bolo de chocolate

  • Ana Holanda

Quando uma receita ganha lugar especial nas nossas lembranças se torna também parte integrante da nossa própria história

 

Desde que sou criança, quando minha mãe ia fazer bolo de chocolate, ela automaticamente dizia: “é o bolo da Arivaldete”. Me acostumei tanto com isso que, para mim, Arivaldete se transformou em uma categoria de bolo. Esse, aliás, era o nome de uma secretária do meu pai. Lembro dela. Uma mulher alta, de olhar por vezes entristecido e de fala mansa.

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Se vestia sempre de branco e passava os dias da semana sentada na cadeira de madeira, atrás de uma mesa escura, na entrada do consultório médico do meu pai. Quando o telefone tocava, ela prontamente o atendia e dizia uma frase que virou por muito tempo, para mim, um mantra: “consultório médico, boa tarde”. Mas não pense nessa frase dita de maneira energética, viva, firme ou alegre. Nada disso. Pense num tom de voz realmente arrastado. Melhor, imagine essa frase dita em câmera lenta. Era isso. Lembro que eu adorava ligar, na volta da escola, para o meu pai somente para ouvi-la naquele tom entorpecido. E a conversa que se seguia era sempre a mesma:

– Arivaldete, meu pai está aí?

– Está sim, mas está ocupado.

– Pede pra ele me ligar!

– Tá bom, Aninha, peço sim.

Bolo molhadinho e fofo

Arivaldete foi, por anos, secretária do meu pai. Muito tempo mesmo. E foi figura integrante da minha infância, época em que eu adorava passar as tardes no consultório dele para espiá-lo entre as brechas das portas e admirá-lo, enquanto atendia as pessoas de um jeito bem diferente: meu pai nunca sentou atrás de uma mesa, mas dispunha as cadeiras como numa sala de estar, para que a consulta tivesse ares de conversa entre amigos e não de atendimento médico. Agora, pensando sobre isso, acho que um pouco desse meu olhar de perceber na palavra um local de encontro com o outro, tenha vindo daí.

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A questão é que Arivaldete havia passado uma receita de bolo de chocolate muito boa para mim mãe. Bolo molhadinho e fofo. A receita, que ainda ocupa uma página amarelada e gasta do caderno de receitas dela, agradou tanto que se transformou no bolo oficial da casa, do dia a dia aos aniversários. Até hoje. Alguém vai fazer aniversário? Lá vem o bolo da Arivaldete para a mesa. Deu vontade de comer um docinho? Que tal fazer o bolo da Arivaldete!? E assim, por anos, Arivaldete tem feito parte da nossa família. Mesmo que os laços reais tenham sido desfeitos, ela ainda se faz presente. Essa é uma das coisas que mais me encanta na comida. A capacidade de manter a memória das pessoas viva, apesar do tempo, dos anos que cismam em seguir desordenados feito passarinho ligeiro que a gente não consegue agarrar.

Memórias afetivas

A saber, a receita desse bolo cheio de lembranças, que meu filho Lucas apelidou de “o melhor bolo de chocolate do mundo” está no meu livro de comida e memórias afetivas “Minha Mãe Fazia”, publicado pela editora Rocco. Basta folhear, e então, encontra-lo. Está lá, no índice, com o nome que lhe fez ser tanto parte da memória da nossa família: bolo de chocolate da Arivaldete. Desse jeitinho.



Ana Holanda é diretora de conteúdo da Vida Simples, autora dos livros Minha Mãe Fazia e Como se Encontrar na Escrita, ambos da Rocco. Gosta de cozinhar e de escrever, sua maneira de estar no mundo e de lidar com seus sentimentos mais profundos. Escreve mensalmente nesta coluna.


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