As seis necessidades humanas

  • Margot Cardoso
  • FOTOGRAFIA: Cristina Gottardi | Unsplash

Para além das básicas, que sustentam a vida física, temos necessidades sofisticadas que mantém o coração em paz. Autorrealização e altruísmo são as principais

 

A batida urgente da canção dos Titãs lembra que temos muitas necessidades. “A gente não quer só comida/a gente quer comida, diversão e arte/ a gente quer dinheiro e felicidade”… Somos seres de necessidades, de fome e de sede, de vazios que pedem alívio ou fuga.

Desde que abrimos os olhos pela manhã sentimos necessidades e — como elas produzem desconforto e ansiedade — saímos a campo. Para além das básicas — as que sustentam a vida física —  temos necessidades sofisticadas que mantém o coração em paz.

No fim do século XVIII, Immanuel Kant fez um levantamento das demandas humanas. Como resultado, o filósofo alemão identificou as necessidades básicas — alimentação, bebida e sexo; as de segurança — física e psicológica; as sociais — de amizade, de amor e de relacionamento; as de autoestima — relevância e pertença e, finalmente, as de desenvolvimento — autorrealização e comportamento ético. 

Mais tarde, século XX, o psicólogo norte-americano Abraham Maslow pegou as necessidades de Kant e fez uma hierarquia em forma de pirâmide. Desse modo, de acordo com Maslow, é necessário preencher uma necessidade de cada vez antes de subir o próximo degrau.

Isso significa que, só buscamos segurança quando temos o alimento assegurado. Um conhecimento dominado inclusive por outros seres vivos. Afinal, o leão sabe que o melhor lugar para esperar a sua presa é à beira do rio. Um animal com sede deixa a segurança para segundo plano.

 A Teoria de Maslow foi extensamente utilizada no mundo corporativo como fonte de motivação. Um artifício para apresentar a cenoura correta para o homem perseguir e cumprir metas.  

A verdade é que a natureza humana tem necessidades sem fim. Assim que uma necessidade é atendida, surge outra. É o que o Peter Sloterdijk chama de “tensão vertical”: a força que está sempre puxando o homem para cima.

Quando temos uma vida estabilizada, quando tudo parece perfeito, descobrimos um novo talento e queremos exercê-lo. Uma vez no exercício do talento, buscamos a excelência desse talento. Em suma, estamos sempre em tensão, queremos evoluir e mesmo quem chegou ao topo não está satisfeito. 

Se fizermos um raio-x da nossa personalidade, saltará em relevo todas as nossas necessidades. Pois tudo o que fazemos, todas as nossas escolhas — da decisão de tomar um café à escolha de um parceiro amoroso — buscam suprir uma necessidade.

Se você olhar para sua vida e detectar um vazio, um desconforto, um ansiedade, um ponto de angústia, irá encontrar uma necessidade não satisfeita. E são únicas, são nossas. Já que dependem da personalidade, idade, recursos e sonhos — e da percepção do mundo que se apresenta para cada necessitado.

Por isso, é urgente conhecê-las. São elas que embalam os nossos dias; que ajudam a entender por que fazemos o que fazemos e por que nem sempre alcançamos a satisfação ou nos sentimos felizes com as nossas conquistas. Vamos a elas:

Segurança  — Precisamos da certeza de que temos um teto — conforto, família,  ordenado ao final do mês — que estamos na direção certa, que vivemos de acordo com o acreditamos. Não há como fugir. As certezas trazem segurança. Às vezes, essa necessidade é tão forte que se traduz em controle. O grau de preocupação — e neura — varia. Algumas pessoas estão mais à vontade na vida. Um nível pequeno de segurança é suficiente. Outras não conseguem estar num espaço sem a visão da porta, precisam controlar quem entra e quem sai. A necessidade de segurança pode vir de muitas fontes, desde uma reserva de dinheiro até o saber-se amado.

Variedade — Incerteza? Novidade? Sim também é uma necessidade humana. Se não fosse assim, a vida seria tediosa. O ser humano precisa da diversidade. Fazer sempre a mesma coisa, comer sempre a mesma comida, enfrentar sempre os mesmos problemas provoca um aborrecimento profundo e, às vezes, até pode ser estressante. Precisamos quebrar a rotina, experimentar o novo. Apesar de parecer o oposto da segurança, é complementar. Os dois são necessários para o equilíbrio humano. Tanto quanto certezas, necessitamos de mudanças e desafios. A certeza — apesar de confortável — em excesso, impede a evolução. Quanto mais você tiver certeza sobre algo, mais limitado você estará para o crescimento. E como identificá-las? Não dá. Um mesmo acontecimento pode ser recebido com boas-vindas ou como uma ocorrência desconfortável e ameaçadora. Depende apenas da percepção de quem vê. Alguns têm necessidade de estar constantemente fazendo coisas novas, precisam de desafios; outras basta uma pequena porção ocasional. 

Relevância — Com o excesso de visibilidade proporcionado pelas redes sociais, a necessidade de sermos vistos como únicos está no topo da modernidade. Precisamos de significado, de sentir que somos importantes, especiais e apreciados pelos outros. Apesar da intensa valorização da fama, para algumas pessoas, a relevância para a família e círculo de amigos é suficiente.  

Pertença — Essa é uma das explicações para o excesso de conectividade. O sentimento de pertença faz parte da natureza humana, está colado ao nosso instinto de sobrevivência. Além disso, precisamos sentir que fazemos parte e somos aceitos pela nossa família, amigos, grupo religioso, equipe de futebol, grupo do WhatsApp. Essa parece fazer oposição à relevância. Mas, é só aparência, elas são complementares, precisamos das duas. Sentimos grande satisfação quando estamos em relevo e somos valorizados enquanto indivíduos únicos, mas também experimentamos altos graus de satisfação de estarmos diluídos, de ser parte de um imenso e prestigiado grupo. E, claro, aqui também estamos falando do amor entre duas pessoas. Ansiamos por uma conexão intensa e profunda com alguém.

Autorrealização —  É a força da vida. Tudo o que existe está crescendo ou morrendo. É a força que nos empurra para frente. Desse modo, queremos ser melhores, aprender, evoluir e fazer coisas novas. Temos necessidade de aprendizagem e evolução. Queremos mais paz de espírito, mais felicidade, mais bens materiais, mais saúde, mais amigos. Uma das grandes fontes de frustração humana é sentirmos que estamos estagnados.

Altruísmo — Acima de tudo, no topo, está a necessidade de ajudar o próximo. É a mais sofisticada e a mais nobre das necessidades. E, característica maior: é uma necessidade desinteressada. E não precisamos esperar para sermos ricos e famosos como Bill Gates e Angelina Jolie para exercer o altruísmo. Ou seja, se manifesta quando ajudamos um amigo na mudança de casa, quando fazemos um trabalho voluntário na nossa comunidade, quando doamos — sangue, roupas, alimentos — e até quando patrocinamos o habitat do crocodilo do zoológico local. 

O ser humano, em qualquer lugar do mundo, está empenhado nessas demandas. Porém, elas não são fáceis, é preciso sabedoria porque elas comportam riscos. As necessidades não podem ser supridas a qualquer custo.

Para atender a necessidade de pertença, não se pode fingir o que não se é. A relevância social — tão valorizadas no mundo da hiperexposição — não pode ser alcançada de forma ilícita. E mais: algumas necessidades são terrenos férteis para vícios destrutivos. Então, aditivos como o álcool podem trazer conforto e segurança e podem responder a necessidade de variedade: “quando bebo a minha vida parece um filme”; bem como o sentimento de pertença pode ser alcançado com álcool: “Com um copo na mão, sinto-me importante, pertenço ao mundo glamuroso da boemia”.

Mas você poderá pensar: espera! A minha lista de necessidades é muito maior do que esta. É verdade. Aqui estão apenas as mais importantes. Contudo, deve-se ter em conta que algumas  estão camufladas. A necessidade de se ter muitas coisas, das compras em acesso? O vazio que tentamos preencher com compras pode vir do não atendimento da necessidade de autorrealização. A necessidade de que tudo seja perfeito e maravilhoso? Falta investimento na necessidade de  relevância, na sua autoestima.

Quais as mais importantes? Todas. E a carência delas é diária. Mas quando somos praticantes experientes das buscas de conforto, variedade, relevância e pertença… percebemos que, apesar de oscilarem, são conquistas, fazem parte da nossa bagagem. Então é altura de investir pesado nas duas necessidades que estão no topo: a autorrealização e o altruísmo. 

Da mesma forma há uma espécie de consenso entre os especialistas: são essas duas as maiores fontes de felicidade genuína. Talvez, por isso, pessoas que têm tudo — prestígio, poder, fama e dinheiro que nunca acaba —engajam-se em causas, investem energia e quantias exorbitantes com um simples propósito: fazer deste mundo um lugar melhor.  

E porque é isso é tão importante? Porque é o nosso olhar para a imortalidade. Além disso, é uma forma de deixarmos o nosso legado, o nosso exemplo, a nossa contribuição para o todo, para algo muito maior do que nós.

Margot Cardoso (@margotcardoso) é jornalista e pós-graduada em filosofia. Mora em Portugal há 16 anos, mas não perdeu seu adorável sotaque paulistano. Nesta coluna, semanalmente, conta histórias de vida e experiências sempre à luz dos grandes pensadores.

 


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