Autocompaixão: antídoto para a autocrítica e o julgamento

  • Ana Raia
  • FOTOGRAFIA: SIphotography | iStock

A autocompaixão nos ajuda a reconhecer que somos imperfeitos e nos aponta um caminho de acolhimento de quem somos que faz a vida se tornar mais leve


Você já aprendeu outro idioma? Se sim, sabe que no começo toda sílaba soa estranha, a pronúncia leva tempo para chegar perto da ideal e momentos de insegurança são constantes. Cito esse aprendizado como exemplo porque vivo uma jornada muito parecida.

Eu não estou me dedicando a aprender um novo idioma, mas me sinto assim, porque estou experimentando uma nova linguagem, remodelando a forma como me comunico internamente, comigo, por meio das minhas reflexões.

Tenho prestado atenção no tom e no conteúdo da minha voz interior. Nesse exercício, entendi que meus diálogos internos podem ter os efeitos de uma bênção ou de um terremoto na minha vida.

Explico melhor: quando a minha voz interna é engrandecedora e gentil, eu me sinto pronta para conquistar o mundo. Porém, quando é crítica, negativa e grita por perfeição, fico paralisada. 

O tom alto e desmotivador da minha voz interna estava ganhando espaço ao passo que eu caí na armadilha da perfeição. Logo eu… que sei bem que o humano é imperfeito e por isso tão interessante.

Percebi o crescimento do meu crítico interno e impiedoso durante uma crise e não em um momento de iluminação. A ausência da gentileza comigo apareceu em meio a um dos muitos desafios como mãe.

Tenho dois filhos que amo muito e que são tudo em minha vida, mas errei com eles nesses últimos dias. Não foi a primeira vez e nem será a última, mas esse evento foi muito significativo pois me levou a ter novas percepções sobre o relacionamento íntimo que tenho comigo e levo para o mundo.

O que aconteceu comigo é o que acontece com muitas mães: uma daquelas descargas emocionais. Despejei neles o que só pertencia a mim. A culpa veio e o meu crítico interno tomou o poder. É incrível como nós podemos ser a nossa pior inimiga. 

Em um momento de dor resolvi então parar de ser a minha maior adversária e aprender uma nova linguagem, a dialogar comigo com suavidade e gentileza. Escolhi o caminho da autocompaixão. E posso falar? Recomendo e convido você a experimentar a lidar com o seu crítico interno da mesma forma.

Eu entendo que a autocompaixão é sobre me tratar com a mesma gentileza e carinho que levo para as relações com pessoas queridas. Ao colocá-la em prática, logo notei o quanto é uma atitude essencial para mim, para o meu bem estar e para o de todos que estão na caminhada comigo.

Como disse, não é um processo fácil, uma vez que é preciso transformar o nosso modelo mental, a nossa percepção de nós mesmas e do mundo. Mas com o tempo, a troca da autocrítica explosiva por análises carinhosas e gentis vão nutrindo a curiosidade e, daí, explorar todos os cantos do nosso ser vira uma consequência engrandecedora. 

Pesquisas recentes mostram que a autocompaixão fortalece a resiliência e autoconfiança, essenciais para a existência em evolução.

Digo mais: a autocompaixão é vital no mundo contemporâneo, pois é antídoto para a negatividade, eficiente para erradicar a ilusão da perfeição e para sanar a síndrome da fraude. A vergonha de assumir com gentileza e compreensão a imperfeição humana leva milhares de pessoas a viver insatisfeitas, com o olhar na falta, respirando o sentimento de insuficiência.

A autocompaixão, o olhar gentil para o que é óbvio, ou seja, a imperfeição, é urgente para reverter esse quadro. E importante dizer: autocompaixão não tem nada a ver com “coitadismo” ou autoindulgência. É sobre autoaceitação, autoconhecimento e coragem.

Eu quero viver de coração aberto e com espírito livre, e para isso preciso me aceitar por inteira, com o meu lado luz, mas também sombra. Só assim posso me conectar inteiramente comigo e com os outros. 

Assim, a minha autocompaixão não é só um acalento para mim, é também benéfica para os meus filhos, para quem me cerca. Até porque eu acredito em uma maternidade integral, que apresente aos filhos o mundo como é, e nós como somos, imperfeitos e pulsantes, com altos e baixos, forças e fraquezas.

Quando eu acolho e exponho a minha vulnerabilidade e os movimentos da minha existência com autocompaixão, creio que passo uma mensagem muito importante para eles, a de que falhamos e que a falha não é o fim, e sim um convite para a evolução. Percebo que esta nova maneira com que eu venho lidando com a minha voz interior se reflete na maneira como eles me escutam e como eles “se” escutam. 

E nesse caminho, abri também a possibilidade de descobrir um novo amor: o amor verdadeiro por mim e pela minha vida. Por isso, faço desta coluna um convite: experimente a autocompaixão. O autoconhecimento e o reconhecimento de suas vulnerabilidades são preciosos.

 Trocar a autocrítica destrutiva pela curiosidade por si é revelador. Faz bem para você e para o seu mundo. Mais: você terá a chance de descobrir o maior amor de sua vida, você mesmo. Boa jornada!

Ana Raia trabalha há mais de 15 anos com desenvolvimento humano. Ministra cursos particulares e coletivos, palestras e workshops. É estudiosa das ciências humanas e é tão humana quanto você. Seu instagram é @anaraia. Escreve neste espaço mensalmente, na terceira terça-feira do mês.

 


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